O que vestem os portugueses e o que deveriam vestir

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miguel manso

A moda, para os portugueses, é uma farda - se fôssemos uma peça de roupa, seríamos umas calças de ganga. Este é o retrato genérico. Mas podemos fatiar o país, dividi-lo entre Norte e Sul, e o Norte ganha: tem mais elegância, mesmo quando usa menos moda. Nas evoluções (que existem, nem tudo é mau), temos o regresso da feminilidade, graças ao vestido. E a corrida dos homens para se porem trendy e em forma, e estão a ultrapassar as mulheres. Os 14 criadores que vão apresentar colecções na ModaLisboa, a partir de 11 de Março, disseram-nos como se vestem os portugueses e sugerem o que deveríamos vestir.

Katty Xiomara

35 anos

Tema da colecção: Tangram (quebra-cabeças chinês)

Falta-nos

o vermelho energético

A forma como os portugueses se vestem tem vindo a mudar. Há uma maior preocupação. O nosso nível de vida não é sequer comparável ao de alguns países e capitais europeias e, se calhar, a forma de vestir não é comparável. Se formos a Milão, notamos que a atmosfera no que respeita a imagem e vestuário é levada muito mais a sério e isso tem a ver com o nível de vida. Mas creio que existe uma preocupação maior e não se trata só de aparecer bem em determinado momento, mas sim no dia-a-dia, na forma como se aparece no trabalho. Já não é só nos dias especiais. Isso é uma mudança importante.

Somos vistos lá fora de uma forma um bocadinho cinzenta. Mas existem agradáveis surpresas. Ao viajar, e quando me apresento como portuguesa, existe uma surpresa agradável. Hoje já não é tão fácil catalogar e rotular as coisas, mas posso dizer que poderíamos ter um pouco mais de cor. Há uma cor portuguesa, que é aquele vermelho, que utilizamos pouco e que é muitíssimo energético. É muito forte e, se for bem utilizado, funciona muito bem. Não tem de ser uma peça ou um total look, por vezes um pequeno acessório, um pequeno motivo, já faz colorir o cinzento.

O que nos falta é um pouco menos de preconceito, sermos mais abertos, mais ligeiros, mais naturais, mais soltos e mais criativos.

Luís Buchinho

40 anos

Tema: Anos 70 revistos pela década de 90

O estilo não se consegue

só com roupa

Se compararmos com o que se vestia há dez anos, há uma melhoria muito significativa. As pessoas vestem-se melhor e estão mais a par das tendências. Há, no entanto, uma certa reserva por parte de que tem mais poder económico para aceitar novas ideias. Mas há uma grande abertura por parte dos que têm menos poder de compra e que gostariam de vestir-se muito melhor.

De uma maneira geral, temos uma população muito virada para a roupa do quotidiano. O dia-a-dia tem a sua expressão máxima, mas as pessoas guardam sempre uma peça mais especial para ocasiões festivas.

O Norte é mais consumidor de moda do que Lisboa. Há um estilo um pouco mais virado para o fashion alternativo no Norte, há mais diversidade. Por muito cliché que seja, a personalidade conta muito. Quanto mais trabalho, mais acredito nisso. Uma pessoa com estilo tem de ter presença e a presença não é transmitida exclusivamente pela roupa. Uma pessoa com estilo tem de estar atenta ao que está em vigor em termos de corrente e depois tem de conseguir coordenar isso de maneira que se ajuste à sua forma física, à sua idade, ao local onde trabalha e ao lugar onde estiver. Isto é generalista. Depois, há exemplos de mil e uma coisas: há advogados que têm imenso estilo, há advogados que são hiper-retrógrados; há pessoas que trabalham em bancos e que estão bem, e há as que estão mal.

Quanto à moda portuguesa, é algo de que não podemos falar no plural. Há um núcleo muito pequeno de criadores que são procurados e isso deve-se a um ciclo vicioso difícil de quebrar. Uma parte da culpa é dos criadores, outra dos lojistas, outra da imprensa e do público. É uma máquina que ainda tem a engrenagem um pouco perra. Tenho lutado muito e tenho conseguido olear essa máquina. Começo a ver alguns resultados.

Em termos de estilo, estamos de certeza ao nível de Espanha. Já Paris é um caso muito particular, embora aí haja alguma homogeneidade, em que o preto é farda. Mas os portugueses não são assim tão "pretos" e eu escolheria uma cor neutra para [identificar] os portugueses. Porém, se olharmos para a rua, o que vemos é uma mancha cinza. Para mim, o cinza nada tem de cinzentismo, o cinzento é uma nuance muito interessante.

Os portugueses estão mais cuidados, mas ainda não são ousados. O vestido foi uma peça fundamental nesta mudança. Os vestidos e as túnicas-vestidos - no dia-a-dia ou à noite - vieram recuperar uma certa feminilidade que estava perdida. Mesmo que não tenham muito jeito para coordenar peças, o vestido já lhes faz a indumentária toda.

Aleksandar Protic

36 anos

Tema: Pintura de Georgia O"Keefe

Como um casaco de peles

Eu acho que ninguém se veste mal, no sentido mais lato da palavra. Mas noto, desde há um ou dois anos, que as gerações mais novas se vestem melhor do que os jovens de há dez anos. Quando cheguei a Portugal [há 11 anos], percebi que não havia muita gente diferente na rua, não havia muitas cores. Fazia-me um bocadinho de confusão, porque em Paris ou em Londres há sempre gente que se destaca na multidão. Há coisas feias, como as calças com a cintura demasiado baixa e a T-shirt a mostrar o umbigo. Uma coisa que vejo sempre [nas portuguesas] e não gosto são as calças com boca de sino, largas, com o salto de agulha e sapato ou bota em bico a espreitar. É uma coisa tipicamente vinda dos media. Os portugueses vêem muita televisão e nela há pouca moda. E a que há é para certos grupos. Os programas que ensinam a vestir são feitos para dar dicas sociais, básicas, mas para as massas. Não educam no sentido da arte da moda. É sempre a bota bicuda, o vestido de seda para a noite e o vestidinho simples com uma gola alta por baixo para o trabalho. Tudo me parece tão uniforme... Não sei se tem a ver com a oferta de lojas como a H&M, a Zara, a Bershka. Acho que as pessoas não pensam se gostam das roupas que compram, mas sim se estão na moda ou não. Parece-me que os portugueses têm medo de ser diferentes. Talvez por até há 30 anos o país ter vivido tão fechado. Talvez porque não há muita oferta: não encontro sapatos de que goste em Portugal, há muita oferta mais mainstream, mas tudo o que é um pouco diferente não há cá. Os mais jovens, não sei se viajando ou se pela Internet, vão buscar essas peças originais lá fora e isso é óptimo. Normalmente as pessoas que querem ser diferentes não têm dinheiro para comprar roupa gira e diferente. E as pessoas com poder de compra raramente adquirem esse tipo de peças. É um problema típico de um país em transição.

Portugal, para mim, é um casaco de peles. Porque é muito acolhedor. É um país muito cosy. O que digo sempre às minhas clientes e amigas é que comprem menos roupa nas lojas mais baratas. É melhor gastar mais em menos peças, que vão durar anos, são diferentes e bem feitas. Quanto aos homens, é uma opinião muito pessoal, mas penso que a moda de homem não deve ser demasiado diferente, demasiado cuidada. Sou contra os homens-modelo, contra os metrossexuais.

Manuel Alves, da dupla Alves/Gonçalves

"Nasci nos anos 1950"

Tema: Racionalismo espontâneo

Isto já vem do tempo

de D. Afonso Henriques

O panorama é triste. A rua é muito triste porque não se sente. Lisboa não é uma cidade muito cosmopolita. Bom, é um boc