As quatro dinastias

Em certo sentido, este regime em que vivemos, caduco e exangue, já produziu quatro tipos de dinastias políticas. Talvez "não haja homens", como apregoou Vasco Pulido Valente. Mas, por causa da dinâmica das coisas, a verdade é que os "homens" que têm existido descendem de cada uma daquelas dinastias. É possível pensar o regime como uma sucessão sistemática de umas para as outras. Mas atenção: a especialidade de Portugal é que a sucessão não resultou de nenhum processo de continuidade ou herança. Cada dinastia seguinte emergiu do esgotamento da anterior.

Comecemos pela Revolução. Derrubada a ditadura, de onde vieram os políticos que fundaram os partidos e lideraram os primeiros governos? Evidentemente: da família dos históricos. Mário Soares, Sá-Carneiro, Freitas do Amaral ou Álvaro Cunhal foram os chefes históricos das elites políticas da democracia. Foram personagens da transição, com todas as suas contradições e limites. A autoridade que eles tinham na sociedade portuguesa era vivencial e histórica.

O destino dos históricos é quase sempre senatorial. No caso de Sá-Carneiro acabou em tragédia. Mas não existindo entre nós, como dantes se dizia, uma câmara alta, a alternativa para o efeito passa pelo cargo de Presidente da República. O histórico Soares tornou-se Presidente contra o histórico Freitas, porque chegar a Belém, como Manuel Alegre tentará aproveitar nas próximas presidenciais, é também um prémio de carreira.

Estamos a mexer no baú, mas há aqui uma lição impagável. Em meados dos anos oitenta a entronização de Soares assinalou o fim dos históricos. Mudaram-se os tempos e Portugal precisou de uma vaga tecnocrática. Passámos então à segunda dinastia abrilista, muito ao agrado da nossa cultura política: os professores.

Em cem anos Portugal tem mostrado queda para os professores que fazem política. Afonso Costa ensinava Direito Comercial, Salazar Finanças Públicas. Quando foi preciso um nome para o substituir, o Estado Novo foi à universidade estender o tapete a Marcello Caetano. Os professores que fazem política costumam ser aclamados em Portugal por dois amargos motivos: primeiro, carregam uma autoridade que a maioria dos portugueses, na sua incultura e inferioridade, tem por indiscutível (os "doutores de Coimbra", como disse Almeida Santos nas europeias); segundo, gozam de uma certa presunção de inteligência que os torna supostamente aptos para governar. O peso dos professores-políticos é directamente proporcional à fraqueza da sociedade civil.

Cavaco Silva pertence a esta escola da política professoral. Mesmo hoje na Presidência, para tranquilidade dos portugueses, continua a exercer o cargo como um professor que só quer falar do que sabe. No fundo, o Professor que dá uma aula para uma turma dividida, como todas as turmas, entre aplicados e repetentes.

Avanço para a terceira dinastia. Que faz qualquer professor que se preze? Cria discípulos. Foi o que tentou Cavaco: Durão Barroso foi um dos seus melhores alunos, Manuela Ferreira Leite a sua mais fiel discípula. Mas, com a evasão barrosista e a derrota de Ferreira Leite, o facto é que a força do cavaquismo está no dono.

Nesta História do regime, pelo meio foi crescendo a última dinastia: os "chefes de partido", políticos puros formados nas jotas, nos gabinetes ministeriais, nas clientelas, no mercado dos lugares. Com Sócrates, o primeiro que não possui nem a autoridade dos históricos, professores ou discípulos, esta escola sectária e partidocrática começou a mandar no país. Talvez fosse uma fatalidade. Mas, precisamente por isso e pela enorme suspeição que ela provoca, chegou a altura de querer uma coisa diferente. Digo-vos que a quinta dinastia do regime deverá ser portadora de outra autoridade. Alguém que, depois dos manobristas partidários, seja representativo e reconhecido, não pelo partido, mas sobretudo pela sociedade. Jurista