O mestre da táctica e do conflito

A melhor obra do "Zé do Boné" foi a que libertou o FC Porto dos seus complexos de inferioridade e o preparou para as conquistas. Por Bruno Prata

Dele se contam mil e uma histórias, sendo cada vez mais difícil distinguir a realidade da fabulação relatada pelos que não resistem a colar-se à sua imagem - nalguns casos, o contacto ter-se-á resumido à escuta de uma tirada de José Maria Pedroto vinda lá de longe, da mesa de cartas envolta pelas nuvens de fumo saídas dos seus cigarros fumados uns atrás doutros na Petúlia, confeitaria portuense que era um dos portos de abrigo daquele que muitos ainda consideram o melhor treinador português de todos os tempos.

Visceralmente intuitivo, frontal e ardiloso, mas também culto, paternalista, estudioso e visionário, segundo a generalidade dos que trabalharam às suas ordens ou o defrontaram. Truculento, duro, irónico, noctívago e supersticioso, na perspectiva dos que preferem destacar-lhe predicados menos bondosos, mas que também acabam por ser tidos por virtudes no mundo em que ficou célebre. Pedroto, o "Zé do Boné", morreu fez ontem 25 anos.

O FC Porto, seu clube de coração, assinalou a data com uma homenagem que incluiu missa, jantar, concerto musical e a promessa de Pinto da Costa de lhe dedicar a conquista do campeonato que está na decorrer. Um programa de fato de gravata para distinguir quem passou a vida de fato de treino a desbravar horizontes, travar batalhas importantes dentro e fora dos relvados e a marcar um antes e um depois no nosso pontapé na bola.

Pinto da Costa ficará na história do futebol nacional como o líder carismático e controverso, eventualmente até como o herói epónimo que levou o FC Porto ao sucesso. Mas se o executante do plano operacional foi ele, o ideólogo chamou-se Pedroto. A sublevação que nos anos 80 do século passado começou a derrubar a ditadura dos resultados imposta pelo Benfica e pelo Sporting foi executada e terminada pelo presidente. Mas o mentor foi o técnico que muitos tratavam por "mestre". Porque Pedroto foi mais do que um treinador. "Foi a figura mais fascinante que conheci entre os homens de futebol", disse um dia Fernando Vaz, que o treinou e defrontou e garantiu igualmente um lugar especial nos compêndios da bola.

Aquecer no relvado

Pequeno e franzino, Pedroto foi um dos melhores médios portugueses nos anos 50 (17 vezes internacional). Foi também um treinador sagaz como talvez só Artur Jorge e José Mourinho conseguiram ser em Portugal, mesmo que sem os títulos supranacionais deles. Pedroto foi autor de muitas e boas obras, mas aquela em que todos reconhecem a sua assinatura foi a que libertou o FC Porto dos complexos de inferioridade, fase embrionária do sucesso interno e do arranque do projecto europeu.

Justo reconhecimento, mesmo que Pedroto tenha também inovado na concepção táctica, na acção psicológica junto de comandados e adversários, na disciplina e no profissionalismo. Dele se diz ter sido o primeiro em Portugal a obrigar os jogadores a aquecerem no relvado, antes de descerem ao balneário para a derradeira palestra. O primeiro a introduzir preparadores físicos, a obrigar os jogadores a fazerem alongamentos no final de cada treino e ainda o primeiro a estudar verdadeiramente as armas e as debilidades dos adversários. "Claro, objectivo, pragmático! Era assim Pedroto", escreveu na sua autobiografia Pinto da Costa, fã do poder de argumentação do treinador, apurado na dialéctica dos cafés que ambos frequentaram.

Pedroto nasceu a 21 de Outubro de 1928, em Almacave, freguesia urbana do concelho de Lamego. Foi o mais novo de 11 filhos. Quando o pai, capitão do exército, morreu, a família mudou-se para o Porto. Pedroto tinha sete anos e foi, em regime de internato, para o Colégio Araújo Lima, paredes-meias com o Campo da Constituição. Foi lá que cultivou a adoração por "Pinga" (jogador que iria imitar no estilo) e foi lá que se iniciou no futebol - aos dez anos, foi inscrito nos infantis do FC Porto. Tinha pouco físico, mas muito talento. A II Guerra Mundial não tardou e com ela as restrições alimentares, razão por que a família Pedroto se mudou para Pedras Rubras. Com alguns amigos, formou o FC Pedras Rubras, onde rapidamente acumulou as funções de presidente e de capitão de equipa.

A proximidade levá-lo-ia aos juniores do Leixões. Foi no clube de Matosinhos que recebeu a sua primeira lição de vida. Num jogo no Bessa, fintou todos os adversários que lhe surgiram, guarda-redes incluído, mas em vez de marcar golo, colocou primeiro a bola em cima da linha fatal, arranjou os calções, alisou o cabelo, e só então é que, de calcanhar, rematou para o fundo da baliza. Saiu nos ombros dos colegas de equipa, mas no balneário estava um treinador mal disposto. Chorou e nunca mais esqueceu a reprimenda.

O serviço militar levou-o para Tavira. Entrou na Escola de Sargentos e passou a jogar pelo Lusitano de Vila Real de Santo António. Recebia 100 escudos (50 cêntimos) por vitória, 60 por empate e 20 no caso de derrota. Ali, desperta o interesse de vários clubes. Quem ganha a corrida é o Belenenses, que lhe paga 25 contos para o convencer. Dias depois, por querer manter a palavra, Pedroto recusou um cheque de 80 contos do FC Porto. Em Belém, encontrou Fernando Vaz, que o transformou de avançado promissor em médio da selecção (foi chamado por Cândido de Oliveira em 1952).

No ano seguinte, mudou-se para o FC Porto, que fez uma colecta para pagar os 500 contos (335 para o clube de Belém e o resto para o jogador), então recorde de transferências. O FC Porto construía uma boa equipa, com jogadores como Miguel Arcanjo, Jaburu e Hernâni. Em 1956, treinado por Yustrich, chegou ao título que acabou com o "jejum" de 16 anos. Conquistaria também o campeonato de 1959 e as taças de Portugal de 1956 e de 1958.

Já enquanto jogador mostrava lidar mal com a derrota e ainda um lado zombeteiro que, muitos anos mais tarde, lhe valeu uma rara crítica de um adversário. "O célebre Pedroto tinha um grande defeito. Como não lhe bastasse já a sua nítida superioridade técnica para iludir os adversários com jogadas magistrais, gostava, quase sempre, de gozá-los no momento em que os fintava", recordou um dia Curado, um antigo jogador da Académica que certa vez o deixou estendido no campo por já não suportar ouvir tantos "olés".

Despedido

Ainda jogador e com apenas 25 anos, Pedroto tirou o curso de treinador (ministrado por Cândido de Oliveira), não demorando a dar-lhe uso. Foi o primeiro técnico português com uma especialização tirada na afamada Federação Francesa (apresentou uma tese final com aquilo que considerava serem os 17 princípios de jogo, obtendo uma brilhante classificação - entre os 87 inscritos, apenas cinco foram aprovados, sendo Pedroto o único estrangeiro a obter o diploma).

Tinha então 31 anos e o carácter e a personalidade tornavam-no um líder natural. O bom trabalho na formação do FC Porto levou-o também à selecção de juniores. Em 1961, com jogadores como António Simões e Fernando Peres, Portugal venceu o Torneio Internacional da UEFA, que antecedeu o Europeu da categoria. A primeira experiência de Pedroto com uma equipa sénior foi na Académica, durante duas épocas, seguindo-se o Leixões e o Varzim. Na Póvoa revelou a qualidade de jogo que se tornaria na sua imagem de marca, sempre com muita posse de bola e virado para o ataque.

A experiência acumulada permitiu-lhe regressar ao FC Porto, em 1966. Durante três épocas rondou o êxito, mas venceu apenas uma Taça de Portugal (67/68). No campeonato, somou dois terceiros lugares e um segundo, após disputa pelo título com o Benfica e imediatamente antes de ser despedido. Tudo começou quando o presidente Afonso Pinto de Magalhães não quis pagar mais sete contos para que a viagem de regresso da Luz fosse de avião. "Não posso fazer guerra e poupar balas e gasolina", reagiu Pedroto.

À chegada ao Porto, obrigou a equipa a ficar no lar dos jogadores até ao jogo seguinte. Custódio Pinto, Américo, Gomes e Alberto desobedeceram com o argumento de que tinham de tratar dos negócios. Foram afastados pelo treinador, que viu a aposta numa equipa de segundos planos resultar numa derrota em casa com a Académica e num empate em Tomar. Foi demitido, mas exigiu uma indemnização de 452 contos, 300 dos quais por danos morais. Como resposta, a assembleia geral do FC Porto decidiu que não poderia voltar a ser funcionário do clube.

Regresso ao Norte

Pedroto comprometeu-se com o Setúbal, recebendo 350 contos de prémio de assinatura. Foram cinco épocas de sucesso, somando um segundo lugar (1971/72), o melhor campeonato de sempre dos setubalenses, dois terceiros e dois quartos. Isto, para além de boas campanhas na Taça UEFA (foi duas vezes aos quartos-de-final). A relação acabou quando a direcção impôs aos jogadores um regulamento que os obrigava a pedir autorização para falarem aos jornais, casarem-se ou irem à praia. Pedroto bateu com a porta, uma demissão que os jornais rotularam contra a "lei da rolha".

O 25 de Abril de 1974 estava à porta quando Pedroto regressou ao Norte, para treinar o Boavista. No primeiro ano levou-o ao quarto lugar. No segundo, foi vice-campeão, após disputa animada com o Benfica treinado por Mário Wilson, com quem travou batalhas verbais violentíssimas (por este chegou a ser acusado de "mestre do conflito"). Nos dois anos no Bessa, venceu outras tantas Taças de Portugal.

Entre 1974 e 1976, foi também seleccionador. Sem resultados brilhantes, talvez porque ao futebol português continuassem a faltar-lhe "os últimos 30 metros", como o próprio Pedroto acusava. Acabou por se demitir por não ser satisfeita a reivindicação para que todos os técnicos recebessem um livre-trânsito para os jogos. Social-democrata próximo de Sá Carneiro, o seu passado sindicalista vinha dos tempos em que foi um dos impulsionadores do Sindicato Democrático dos Profissionais de Futebol (Sinbol).

Supersticioso e noctívago por natureza, era obcecado com os rituais antes e depois dos jogos. Nunca usava roupa nova (nem queria que ninguém usasse) em dia de jogo. Gostava de pescar, mas passava noites à volta de mesas de cartas a jogar a ricardina (variante da sueca, em que as regras dependiam do seu humor). À sua volta sobravam os copos de whisky e o fumo de tabaco. No Café Orfeu ou na Pastelaria Petúlia, os parceiros mais frequentes eram Hernâni Gonçalves, Pinto de Sousa, Valentim Loureiro, os jornalistas Nuno Brás e José Saraiva, e Pinto da Costa. Este último foi uma noite gozado por o FC Porto ter perdido para o Boavista a corrida ao leixonense Albertino. No dia seguinte aceitou o convite de Américo de Sá para chefiar o departamento de futebol e não tardou a convencer Pedroto a regressar às Antas. Antes, a assembleia geral do FC Porto anulou a decisão que impedia o seu regresso.

A contratação, estabelecida em casa de Pinto da Costa a 1 de Fevereiro de 1976, manteve-se secreta entre os dois e só seria revelada a 23 de Junho. Pedroto ainda terminou a época no Boavista (acabou o Campeonato no segundo lugar e venceu a Taça de Portugal), mas Pinto da Costa foi contratando os jogadores que ele indicava: por exemplo, Freitas (Belenenses), Duda (Sevilha), Taí (Boavista) e Torres (Setúbal), que fizeram uma mescla com o talento de António Oliveira, Octávio Machado e Fernando Gomes. Foi um regresso messiânico, como se Pedroto tivesse sido escolhido para resgatar o FC Porto das trevas.

Ano 1 nas Antas

O primeiro ano nas Antas serviu para os ajustamentos necessários, mas Pedroto levou o FC Porto ao título em 1978/79. O clube tinha interrompido o "jejum" de 19 anos à custa de um futebol personalizado e ambicioso, ultrapassando o que o próprio Pedroto rotulara de "complexo da Ponte da Arrábida". De braço dado com Pinto da Costa, Pedroto acentuou o discurso bairrista e em torno da dicotomia norte-sul. Sabia usar a imprensa e algumas das suas frases ficaram célebres: "É tempo de acabar com a centralização de todos os poderes em Lisboa"; "Um campeonato ganho pelo FC Porto vale por dois ou mais dos clubes de Lisboa"; "Um brasileiro é bom, dois é de mais, três é uma escola de samba"; "Quanto a árbitros, em casa serve qualquer um. Fora convém que seja um bom árbitro"; "Temos de lutar contra os roubos de igreja no Estádio da Luz"; "Passamos de pombinhos provincianos a falcões moralizados"; "Quando disse que Mário Wilson era um palhaço, não estava a querer ofender os palhaços". O chorrilho de polémicas em que se envolveu deu menor notoriedade ao seu lado visionário. Evidente quando, por exemplo, afirmou: "O verdadeiro calcanhar de Aquiles do nosso futebol reside no simples facto de quase todos pensarmos que, quando saímos dos estádios, já não somos profissionais de futebol."

Na terceira época nas Antas, Pedroto falhou o "tri", ficando a dois pontos do Sporting. Isso tornou evidente que a sua "guerrilha" desagradava a muitos, mesmo no clube. Era o caso do presidente Américo de Sá, também deputado pelo CDS na Assembleia da República. Este, como não conseguiu desmobilizar Pinto da Costa, substituiu-o por Teles Roxo, dando início ao que ficou conhecido nas Antas como o "Verão quente". Pedroto reagiu acusando o presidente de traidor. Resultado: a equipa técnica foi também substituída, dando azo a uma rebelião no balneário.

Apesar de assediado pelo Benfica e pelo Sporting, Pedroto só começou a trabalhar à oitava jornada, quando Pimenta Machado (provavelmente incentivado por Pinto da Costa) o convidou para treinar o Guimarães. Levou Artur Jorge, que Pedroto já via como seu sucessor. Levou também o jogador António Carlos Bernardino, hoje um treinador conhecido na praça por "Bernardino Pedroto". O apelido terá sido a única herança deste filho nunca registado e fruto de uma relação não assumida e anterior ao casamento do "Zé do Boné".

O Vitória foi quinto nesse ano e quarto no seguinte (Artur Jorge já tinha saído para o Belenenses). Durante este período, Pinto da Costa ganhou a sua luta pelo poder e foi eleito presidente do FC Porto. E, em 1982/83, cumpriu a promessa eleitoral de fazer regressar Pedroto.

A soma do carisma e da perspicácia de Pinto da Costa e de Pedroto tinha resultado não só na reorganização de todo o futebol, mas também numa estratégia de afrontamento dos rivais lisboetas e de todos os poderes instituídos, fossem eles os órgãos dirigentes, a comunicação social ou os políticos. Recorreram amiúde a jogos psicológicos e a argumentos regionalistas e bélicos nas suas lutas contra "o Terreiro do Paço" e o "poder macrocéfalo" de Lisboa.

Com o "Zé do Boné", como Pedroto também ficou conhecido devido à habitual indumentária, o FC Porto terminou no segundo lugar. No início da época seguinte, descobriu que tinha um cancro nos intestinos. Seguiram-se viagens a Londres, onde esteve internado em Janeiro de 1984, numa luta inglória e que o impediu de se sentar no "banco" a partir da décima jornada. A partir daí, António Morais seguia as indicações à distância do seu "mestre". Foi já de sua casa que Pedroto viu o FC Porto falhar por pouco em Basileia a conquista da Taça das Taças.

A 24 de Novembro de 1984, Ramalho Eanes foi ao Porto entregar-lhe a Ordem do Infante. Pedroto estava acamado, mas ergueu-se a custo, vestiu-se, colocou os óculos escuros de massa grossa, e fez questão de ir à porta do quarto receber o Presidente da República. Faleceu na manhã do dia 8 de Janeiro de 1985, com 56 anos. Durante a madrugada, satisfez os últimos desejos, tentando beber um whisky por uma colher e fumar um cigarro. Já não viu o FC Porto campeão europeu. Mas os dados foi ele que os lançou. "Pedroto e Pinto da Costa, quando foram para o FC Porto, criaram um clube", diria mais tarde, Artur Jorge.

Texto adaptado do artigo do mesmo autor publicado no quinto volume da Crónica de Ouro do Futebol Português (edição Circulo de Leitores, Lisboa, 2008)