Retrato do artista com os seus jovens

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Antonio Campos

Aos 26 anos é um veterano da adolescência. No seu caso, é o mesmo que dizer que é um veterano dos filmes. Aos 13 anos realizou a primeira curta, "Puberty", na New York Film Academy. Tinha 17 quando realizou "First Kiss", e manteve-se junto da puberdade nos dez anos seguintes. Em 2005, com "Buy it Now", recebia o prémio Cinéfondation de Cannes (a Cinéfondation, criada para descobrir novos cineastas, selecciona curtas de escolas de cinema de todo o mundo). Antonio tinha já 22 anos - mas não deveríamos dizer: tinha apenas 22 anos? - e continuava perto dos jovens. Já tinha um pé fora e continuava com um pé dentro. Isso foi evidenciando nos filmes algo da ordem da documentação, mas com uma ligação silenciosa, uma empatia que não definha com a distância. Porque entretanto se torna memória.
"Relaciono-me com aquela geração mais do que com alguém mais velho. Percebo-os e ao mesmo tempo experimento as coisas de forma mais objectiva. Ainda estou lá. Lembro-me. Mas é também memória distanciada".

É esse equilíbrio entre a objectivação e uma empatia tocada já pela melancolia que atordoa em "Afterschool". É bonito encontrar isso já em "Buy it Now", a curta em que uma adolescente de hoje, Chelsea Magan, leiloa a virgindade no e-Bay.
"I want your pussy, but I want to see your face and your body first." Alguém compra e quer o produto e Chelsea sai do seu quarto, cápsula espacial forrada a Britney Spears, Eminem, Paris Hilton e outras marcas, e vai para um quarto de hotel proceder à troca.
No plano final está em casa, mãe em fundo - as mães sempre desfocadas, ou do lado de lá da linha telefónica, nos filmes de Campos - e a alça de uma mala de marca em primeiro plano.

O documentário e a ficção

"Buy it Now" não é uma curta, são duas: uma versão "narrativa" e um "documentário". Campos coloca uma legenda no início desta última versão a contar que era estudante de cinema, conheceu a rapariga, ela pediu-lhe que montasse o material que ela filmara; ele teria sido só montador... Na verdade, isto é apenas um solavanco na experiência do espectador que começa por querer acreditar - é mesmo real? - e depois reconhece (os mesmos) actores nas duas versões. Por exemplo, a mãe, na versão "narrativa" e na versão "documentário", é Rosemarie DeWitt, actriz que na altura não era conhecida mas hoje pode ser reconhecida como a irmã de Anne Hathaway em "Rachel Getting Married", de Jonathan Demme. O logro evidencia-se, mas não há nada a esconder. Campos só quer assinalar na consciência do espectador uma crença de hoje: o vídeo.
"Fiquei fascinado pela ideia de que é fácil hoje fazer as pessoas acreditarem que algo é real. É a razão por que fiz a versão documentário: quanto pior o aspecto [o vídeo], mais as pessoas acreditam."

"Buy it Now" foi, afinal, realizado com a cumplicidade das actrizes. E Chelsea foi o elo de ligação para verdadeiras Chelseas. Antonio pediu-lhe que mantivesse um diário da personagem. Que se responsabilizasse pelas entradas. A "figura" chegou a ter página no mySpace.
Esta experiência, com algo de deceptivo, é uma forma, muito de Antonio Campos, de chegar a este mundo de simulações - e de decepções - que é a adolescência em frente ao YouTube. E o que é que em "Buy it Now" já era, percebemos agora, muito de Antonio Campos? A forma de objectificar os corpos, tornando-os opacos, vedados à aproximação psicológica.

Temos, assim, a experiência de Chelsea tal como Chelsea é percepcionada pelos outros. Temos uma sequência brutalmente surda, o sexo com o ecrã dividido, a mão dela, inerte, a um canto; o homem sobre ela, noutro; e noutro ainda o colchão... eis algo da humanidade de Chelsea. Em síntese, isto é Antonio Campos, por dentro e por fora (e a transbordar):
"As minhas personagens podem parecer vazias, mas é ao contrário: estão tão cheias que não podem expressar isso. Por isso os meus actores têm que ser actores mas o que estão a pensar não me interessa. Prefiro que não denunciem as coisas. Prefiro o mistério. Saber que se passa alguma coisa mas não saber o quê".

Biografia

Dois anos depois de "Buy it Now", Campos regressou a Cannes para a competição de curtas com "The Last 15". Sabemos desde o genérico que um adolescente se quer suicidar, e o resto do filme são os últimos 15 minutos dele, à mesa com a família. O que a vida custa a esta família! - das propinas à comida para o cão... E o que custa viver com esta família! Os movimentos da vizinha de cima estão a fazer o estuque do tecto cair sobre este pai, mãe e filhos.

No final, a música no genérico denuncia a costela brasileira do realizador. Campos começa por dizer que se calhar quis fazer um comentário: aquelas personagens seriam mais felizes se se calassem e ouvissem música brasileira. Depois concede que há um pedaço de biografia, e refere a cena em que o pai da família grita com a vizinha de cima. "Tenho um áudio com o meu pai a protestar com a vizinha dele." Um áudio... seguem-se as confissões de Antonio, coisas que levou a peito quando quis ser cineasta:
"Quando era miúdo já queria fazer filmes e a minha mãe dizia-me: 'tens de filmar aquilo que conheces'. Levei isso a peito. Fiquei obcecado por documentar o máximo que pude, sem as pessoas saberem. E uma das coisas que fiz, e ainda faço, é gravar, em som, tudo o que se está a passar. Há dez anos a minha avó estava no hospital, com cancro, e houve uma briga entre duas tias minhas sobre o que fazer com a mãe delas. Eu tinha comigo um gravador, e tenho essa gravação, de 1997. Não poderia ter escrito uma cena assim, com aquela intensidade: elas gritam no corredor do hospital, uma delas afasta-se, eu e a minha irmã vamos falar com a outra para apaziguar - eu tinha 14 anos. Fascina-me a dinâmica de uma família. A forma como as pessoas se tornam emocionalmente e financeiramente endividadas perante uma família. 'The Last 15' é o princípio desse exame".

Vai continuar: a próxima longa é a história de uma mãe e do filho em três fases da vida deste, criança, adolescente e adulto. Campos levará a peito a biografia, até porque vai colocar membros da sua família no "cast". (E com este filme a figura da mãe deixará de estar desfocada.)
"É interessante perceber como mudando muita coisa nada muda. Foi isso que me fascinou no Kubrick: passa-se tanta coisa e acaba-se sempre no início. 'Laranja Mecânica' começa num sítio, leva-nos por uma viagem incrível e acabamos no mesmo lugar; em 'Eyes Wide Shut' parece que acontece muito mas nada acontece. Lutamos, queremos que as coisas vão para outro sítio, mas ficamos encerrados num ciclo. Falava de uma gravação que fiz há 12 anos. Tenho áudios já deste ano, quando o meu avô morreu. É a mesma coisa, o mesmo tipo de ansiedade, os mesmos conflitos."

Mas a sensação é que algo foi encerrado com "Afterschool". Mal o conhecemos e ele parte. Não o vimos crescer, mas apanhamo-lo em retrospectiva, agora que se tornou grande. Cineasta.
Ouve obsessivamente uma canção para o próximo filme. "The End of the World" (1963), por Skeeter Davis (1931-2004). "Don't they know it's the end of the world/ it ended when you said goodbye". A canção é arrasadora, vamos tomá-la como promessa.

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Aos 26 anos é um veterano da adolescência. No seu caso, é o mesmo que dizer que é um veterano dos filmes. Aos 13 anos realizou a primeira curta, "Puberty", na New York Film Academy. Tinha 17 quando realizou "First Kiss", e manteve-se junto da puberdade nos dez anos seguintes. Em 2005, com "Buy it Now", recebia o prémio Cinéfondation de Cannes (a Cinéfondation, criada para descobrir novos cineastas, selecciona curtas de escolas de cinema de todo o mundo). Antonio tinha já 22 anos - mas não deveríamos dizer: tinha apenas 22 anos? - e continuava perto dos jovens. Já tinha um pé fora e continuava com um pé dentro. Isso foi evidenciando nos filmes algo da ordem da documentação, mas com uma ligação silenciosa, uma empatia que não definha com a distância. Porque entretanto se torna memória.
"Relaciono-me com aquela geração mais do que com alguém mais velho. Percebo-os e ao mesmo tempo experimento as coisas de forma mais objectiva. Ainda estou lá. Lembro-me. Mas é também memória distanciada".

É esse equilíbrio entre a objectivação e uma empatia tocada já pela melancolia que atordoa em "Afterschool". É bonito encontrar isso já em "Buy it Now", a curta em que uma adolescente de hoje, Chelsea Magan, leiloa a virgindade no e-Bay.
"I want your pussy, but I want to see your face and your body first." Alguém compra e quer o produto e Chelsea sai do seu quarto, cápsula espacial forrada a Britney Spears, Eminem, Paris Hilton e outras marcas, e vai para um quarto de hotel proceder à troca.
No plano final está em casa, mãe em fundo - as mães sempre desfocadas, ou do lado de lá da linha telefónica, nos filmes de Campos - e a alça de uma mala de marca em primeiro plano.

O documentário e a ficção

"Buy it Now" não é uma curta, são duas: uma versão "narrativa" e um "documentário". Campos coloca uma legenda no início desta última versão a contar que era estudante de cinema, conheceu a rapariga, ela pediu-lhe que montasse o material que ela filmara; ele teria sido só montador... Na verdade, isto é apenas um solavanco na experiência do espectador que começa por querer acreditar - é mesmo real? - e depois reconhece (os mesmos) actores nas duas versões. Por exemplo, a mãe, na versão "narrativa" e na versão "documentário", é Rosemarie DeWitt, actriz que na altura não era conhecida mas hoje pode ser reconhecida como a irmã de Anne Hathaway em "Rachel Getting Married", de Jonathan Demme. O logro evidencia-se, mas não há nada a esconder. Campos só quer assinalar na consciência do espectador uma crença de hoje: o vídeo.
"Fiquei fascinado pela ideia de que é fácil hoje fazer as pessoas acreditarem que algo é real. É a razão por que fiz a versão documentário: quanto pior o aspecto [o vídeo], mais as pessoas acreditam."

"Buy it Now" foi, afinal, realizado com a cumplicidade das actrizes. E Chelsea foi o elo de ligação para verdadeiras Chelseas. Antonio pediu-lhe que mantivesse um diário da personagem. Que se responsabilizasse pelas entradas. A "figura" chegou a ter página no mySpace.
Esta experiência, com algo de deceptivo, é uma forma, muito de Antonio Campos, de chegar a este mundo de simulações - e de decepções - que é a adolescência em frente ao YouTube. E o que é que em "Buy it Now" já era, percebemos agora, muito de Antonio Campos? A forma de objectificar os corpos, tornando-os opacos, vedados à aproximação psicológica.

Temos, assim, a experiência de Chelsea tal como Chelsea é percepcionada pelos outros. Temos uma sequência brutalmente surda, o sexo com o ecrã dividido, a mão dela, inerte, a um canto; o homem sobre ela, noutro; e noutro ainda o colchão... eis algo da humanidade de Chelsea. Em síntese, isto é Antonio Campos, por dentro e por fora (e a transbordar):
"As minhas personagens podem parecer vazias, mas é ao contrário: estão tão cheias que não podem expressar isso. Por isso os meus actores têm que ser actores mas o que estão a pensar não me interessa. Prefiro que não denunciem as coisas. Prefiro o mistério. Saber que se passa alguma coisa mas não saber o quê".

Biografia

Dois anos depois de "Buy it Now", Campos regressou a Cannes para a competição de curtas com "The Last 15". Sabemos desde o genérico que um adolescente se quer suicidar, e o resto do filme são os últimos 15 minutos dele, à mesa com a família. O que a vida custa a esta família! - das propinas à comida para o cão... E o que custa viver com esta família! Os movimentos da vizinha de cima estão a fazer o estuque do tecto cair sobre este pai, mãe e filhos.

No final, a música no genérico denuncia a costela brasileira do realizador. Campos começa por dizer que se calhar quis fazer um comentário: aquelas personagens seriam mais felizes se se calassem e ouvissem música brasileira. Depois concede que há um pedaço de biografia, e refere a cena em que o pai da família grita com a vizinha de cima. "Tenho um áudio com o meu pai a protestar com a vizinha dele." Um áudio... seguem-se as confissões de Antonio, coisas que levou a peito quando quis ser cineasta:
"Quando era miúdo já queria fazer filmes e a minha mãe dizia-me: 'tens de filmar aquilo que conheces'. Levei isso a peito. Fiquei obcecado por documentar o máximo que pude, sem as pessoas saberem. E uma das coisas que fiz, e ainda faço, é gravar, em som, tudo o que se está a passar. Há dez anos a minha avó estava no hospital, com cancro, e houve uma briga entre duas tias minhas sobre o que fazer com a mãe delas. Eu tinha comigo um gravador, e tenho essa gravação, de 1997. Não poderia ter escrito uma cena assim, com aquela intensidade: elas gritam no corredor do hospital, uma delas afasta-se, eu e a minha irmã vamos falar com a outra para apaziguar - eu tinha 14 anos. Fascina-me a dinâmica de uma família. A forma como as pessoas se tornam emocionalmente e financeiramente endividadas perante uma família. 'The Last 15' é o princípio desse exame".

Vai continuar: a próxima longa é a história de uma mãe e do filho em três fases da vida deste, criança, adolescente e adulto. Campos levará a peito a biografia, até porque vai colocar membros da sua família no "cast". (E com este filme a figura da mãe deixará de estar desfocada.)
"É interessante perceber como mudando muita coisa nada muda. Foi isso que me fascinou no Kubrick: passa-se tanta coisa e acaba-se sempre no início. 'Laranja Mecânica' começa num sítio, leva-nos por uma viagem incrível e acabamos no mesmo lugar; em 'Eyes Wide Shut' parece que acontece muito mas nada acontece. Lutamos, queremos que as coisas vão para outro sítio, mas ficamos encerrados num ciclo. Falava de uma gravação que fiz há 12 anos. Tenho áudios já deste ano, quando o meu avô morreu. É a mesma coisa, o mesmo tipo de ansiedade, os mesmos conflitos."

Mas a sensação é que algo foi encerrado com "Afterschool". Mal o conhecemos e ele parte. Não o vimos crescer, mas apanhamo-lo em retrospectiva, agora que se tornou grande. Cineasta.
Ouve obsessivamente uma canção para o próximo filme. "The End of the World" (1963), por Skeeter Davis (1931-2004). "Don't they know it's the end of the world/ it ended when you said goodbye". A canção é arrasadora, vamos tomá-la como promessa.