Saudades do comboio na Linha do Sabor

O comboio deixou de apitar na Linha do Sabor a 1 de Agosto de 1988, mas as memórias e as ruínas parecem ser muito mais antigas. O P2 foi ver o que resta daquela via estreita que ligava o Pocinho a Duas Igrejas, junto a Miranda do Douro, e encontrou estações lindíssimas ao abandono, uma região ainda isolada e um povo cheio de saudades. Por Pedro Garcias (texto) e Paulo Pimenta (fotos)

Manhã triste como são as manhãs de Outono quando acordam debaixo de nevoeiro. O mundo não acaba no Pocinho, mas o lugar parece ter algo de derradeiro destino, o ponto final de uma aventura que deixou ali os seus despojos, prédios a cair, armazéns velhos, casas entaipadas de cimento com desenhos a imitar janelas, os restos de uma memória em que a pequena aldeia era ponto de derivação ferroviária para Barca d"Alva, e para o Planalto Mirandês. Agora, o último silvo do comboio não passa dali, soando tão raramente que já nem as crianças atrai.

A tristeza da manhã é a tristeza do lugar. A estação, pintada de novo, e os entrepostos de adubos e de cimento são o que resta em bom estado dos tempos em que tudo girava em torno do comboio e uma região inteira desaguava no cais de embarque, carregada de tudo, até da vontade de fugir do desterro e da miséria. Hoje, a gente é pouca, um ou outro estudante, a mulher que vai em tratamentos ao Porto, turistas procurando a beleza do Douro.

Há a promessa governamental de recuperar a ligação a Barca d"Alva para fins turísticos, mas a formidável odisseia de levar o comboio até Miranda do Douro deve ter terminado para sempre naquele dia 1 de Agosto de 1988, quando uma automotora saiu de Duas Igrejas e foi colhendo até ao Pocinho todos os pequenos materiais que podiam ser reutilizados noutras linhas, candeeiros pequenos, relógios das estações, coisas assim.

Abílio Carvalho, 72 anos, morador em Carviçais (Moncorvo), era o maquinista, o carrasco inocente da linha. "Deixei a automotora no Pocinho, segui num comboio até ao Porto e cruzei-me com outro onde vinham os altos comandos de Campanhã. Fiquei intrigado. No Porto, mandaram-me levar um comboio até Ermesinde e foi então que vi lá parada a automotora que eu tinha trazido de Duas Igrejas. Só depois é que fiquei a saber que os altos comandos tinham ido buscar a última automotora do Sabor e encerrado a linha." Semanas depois, Abílio Carvalho conduziu também o último comboio entre Barca d"Alva e o Pocinho. Triste sina.

Só passaram 21 anos e, no entanto, a Linha do Sabor parece ter muitas mais décadas de ruína. O início do troço está ocupado pelo entreposto da Cimpor e a velha ponte ferro-rodoviária sobre o Douro encontra-se fechada ao trânsito, com ar de fóssil industrial. Mais ou menos 282 metros de orgulho para a indústria e a engenharia nacionais da altura a apodrecerem sobre o Douro.

A travessia, com portagem, foi inaugurada a 14 de Junho de 1909, integrada na antiga Estrada Real N.º 9, que ligava Celorico da Beira a Miranda do Douro. Era vista como "a ponte levadiça para o Eldorado" (Águedo de Oliveira, jornal Mensageiro de Bragança, 1964), pois a seguir a ela viria o comboio que escoaria os cereais e o gado do Planalto Mirandês, o mármore e alabastro de Santo Adrião e o minério da serra do Reboredo que iria abastecer a Siderurgia Nacional.

A rampa mais longa do paísO comboio chegou a 17 de Setembro de 1911 e começou por ligar apenas o Pocinho a Carviçais, de modo a servir as minas do Reboredo, no alto de Moncorvo. O segundo troço, entre Carviçais e Lagoaça, já no concelho de Mogadouro, só foi aberto a 6 de Julho de 1927; a ligação de Lagoaça a Mogadouro deu-se a 1 de Junho de 1930; e o troço Mogadouro-Duas Igrejas foi inaugurado a 22 de Maio de 1938. Por falta de dinheiro, a linha, construída ao passo do manso burro mirandês, ficou por ali, a apenas dez quilómetros de Miranda e da fronteira com Espanha. Mesmo assim, era um estirão, 105 quilómetros ao todo e uma serra pelo meio, o Reboredo, a dividir o Douro montanhoso do Planalto Mirandês.

Passar a ponte do Pocinho era o grande momento, e o mais divertido, pelo menos para o escritor José Rentes de Carvalho, radicado na Holanda mas com ligações familiares à aldeia de Estevais, no concelho de Moncorvo. Recorda-o no livro Ernestina, um dos mais belos retratos da vida transmontana do século passado: "O silvo frouxo da locomotiva fez rir. A troçar do modo ronceiro do comboio, os rapazes que passeavam no cais puseram-se a acompanhá-lo a passo, só subindo antes da ponte com que de novo e pela última vez se atravessava o Douro. Mas no começo da encosta fronteira voltaram a descer, alguns dando-se mesmo o tempo de mijar, e, subindo a corta-mato, apareceram depois como por mágica na próxima curva antes de o comboio lá chegar."

Mal passava o rio, o comboio começava a subir, galgando as encostas viradas ao Douro, às casas da aldeia da Lousa penduradas sobre o precipício, à quinta do Vale Meão que a lendária D. Antónia, a Ferreirinha, tinha construído poucos anos antes. Era uma subida penosa, 25 quilómetros de ascensão contínua até Felgar e 540 metros de desnível, a mais longa rampa ferroviária do país. Foi esse primeiro troço que inspirou o tema popular Eu vou a Miranda ver os pauliteiros. "O comboio vai a subir a serra, parece que vai mas não vai parar, sempre a assobiar vai de terra em terra, dê por onde der quero lá chegar", diz a canção.

Até Moncorvo, o comboio seguia por lugares inabitados, 12 quilómetros que, embora já não tenham carris, ainda conservam a nostalgia das viagens à janela, passadas entre a introspecção e a revelação de uma paisagem que ia mudando de acordo com a época do ano. Na vila, foram poupadas algumas dezenas de metros de carril, mas é uma memória coberta de ervas e silvas. Já perto da estação, a linha está cortada por uma cancela e dali até ao velho edifício é um estaleiro só, da câmara local.

Mais à frente, e até à estação do Carvalhal, onde era embarcado o ferro extraído nas minas do Reboredo, a linha é agora uma ecopista, muito utilizada, sobretudo no Verão, mas que, para os mais saudosistas da ferrovia, pode ter hipotecado de vez o regresso do comboio.

Aires Ferreira, o socialista que lidera a câmara há duas décadas, pensa exactamente o contrário. "Havia pessoas que já se tinham apropriado da linha, algumas evocando até o usucapião, e a melhor forma de a conservar é mantê-la sob o uso público", defende.

Com a construção do primeiro troço de ecopista foi recuperada a estação do Larinho, que já deu lugar a uma cafetaria. Foi ali que Lauro António filmou a chegada à estação do Fundão de António Lopes, o jovem de 12 anos protagonista do filme Manhã Submersa e do romance de Vergílio Ferreira. Nessa altura, a Linha do Sabor era a única que ainda tinha automotoras a carvão e foi no Larinho que António fez a viagem que o levaria ao seminário.

Actualmente, está em obras o segundo troço da ecopista, que vai ligar o Carvalhal a Carviçais. Pelo meio, ainda havia o apeadeiro dos Estevais. Um dia, "o padre da freguesia pediu a pedra à Refer, o apeadeiro foi arrasado e a pedra utilizada na construção do lar de terceira idade", conta o escritor Rentes de Carvalho. Menos mal.

A segunda fase do projecto da ecopista prevê também a recuperação das estações de Carviçais (ao abandono) e de Moncorvo, a primeira para funcionar como centro etnográfico, a segunda para servir de apoio à via verde e, provavelmente, acolher o actual Museu do Ferro, que funciona num espaço acanhado junto à Igreja Matriz. Os planos da autarquia contemplam ainda o prolongamento da ecopista até ao Pocinho. A Câmara de Moncorvo está já, de resto, a pagar desde 2003 uma renda an