Moctezuma O rei azteca está de volta

Quem era Moctezuma? Que reino era o seu? Porque é que se deixou aniquilar? É a estas perguntas que uma exposição no Museu Britânico tenta responder 500 anos depois, com peças nunca reunidas, algumas recentemente encontradas. No México ainda lhe chamam traidor. Terá sido um visionário? Por Alexandra Lucas Coelho, em Londres

O mundo mudou a 8 de Novembro de 1519. Muito do que somos hoje é o resultado desse dia. O ouro venceu a magia, Deus venceu os deuses, os homens venceram a natureza. Foi o encontro de Cortés, o conquistador espanhol, com Moctezuma, o rei azteca.

Aconteceu às portas de Tenochtitlan, a grande capital azteca, por cima da qual hoje se ergue a Cidade do México.

Há 500 anos, os lagos desta região ainda estavam cheios de água e Tenochtitlan ficava numa ilha, cercada por água e campos, com os dois vulcões ao fundo, cobertos de neve. Eis a paisagem que Hernán Cortés e os seus homens avistaram.

Moctezuma já ouvira relatos sobre as "torres ou pequenas montanhas que flutuavam nas ondas do mar". Os navios espanhóis tinham feito expedições em terra maia, nos dois anos anteriores. E a 21 de Abril de 1519, quando Cortés chega a Veracruz, encontra emissários de Moctezuma à sua espera, com ouro e jóias. Decide avançar por terra, acompanhado de 300 homens, até à capital desse rei tão rico.

Tenochtitlan aparece-lhes então a 8 de Novembro, como uma cidade de fábula, cheia de palácios, jardins e templos no alto de grandes escadarias. Atordoados, sem palavras para tamanho esplendor, os espanhóis vêem Moctezuma chegar, precedido pelos seus nobres e carregado numa liteira.

Não sabem que nenhum mortal deve olhar o rei e por isso olham-no bem. É um homem magro, de estatura média, pele escura, barba longa e fina, face longa mas alegre, revelando ternura e gravidade, descreveu o cronista Bernal Díaz del Castillo. Terá um toucado de plumas verdes, manto bordado e sandálias decoradas a ouro.

Cortés desmonta e prepara-se para o abraçar, mas a tanto não chega. Se nenhum homem deve ver a cara do rei, muito menos tocá-lo. A comitiva de Moctezuma trava-lhe o braço.

Trocam colares e oferendas. O rei azteca conduz Cortés e os seus homens ao palácio que fora de seu pai, para que ali fiquem alojados, e mais tarde visita-os com ouro, jóias, plumas e tecidos ricos.

Tudo o que vai acontecer a partir daqui - a prisão e a morte de Moctezuma, o massacre de centenas de milhares, a destruição total de Tenochtitlan, as epidemias que devastam a população índia - está contido neste primeiro encontro.

O que é que Moctezuma viu nos espanhóis? Como permitiu que o vissem e lhe falassem? Por que abriu caminho ao aniquilamento de uma civilização refinada na arte e na arquitectura, na matemática e na astronomia, que inventara calendários e toda uma poesia, para além de ser guerreira exímia?

São as questões centrais da exposição Moctezuma: Aztec Ruler, organizada por ingleses e mexicanos, que está no Museu Britânico até 24 de Janeiro.

2010 é o ano em que o México celebra o centenário da sua revolução e o bicentenário da sua independência, ou seja, o fim do domínio colonizador que começou quando Moctezuma acolheu Cortés.

Reunindo esculturas, máscaras, jóias, mapas, códigos e dezenas de objectos nunca reunidos, alguns dos quais descobertos em escavações recentes, Moctezuma: Aztec Ruler propõe "voltar atrás 500 anos e considerar de forma nova" um dos principais reinos ameríndios, "a sua resposta à invasão europeia, e o lugar da revolução mexicana nos grandes levantamentos políticos do século XX", resume no catálogo Neil MacGregor, director do Museu Britânico.

A explicação tradicional para o comportamento de Moctezuma é que ele associou Cortés com Quetzalcoatl, a serpente emplumada, adorada pelos toltecas, que tinham sido expulsos daquelas terras por um deus rival e voltariam para clamar a sua terra.

Moctezuma seria assim o cobarde que não lutou e morreu desonrado, ao contrário do seu sobrinho Cuauhtemoc, o derradeiro líder azteca, que enfrentou os espanhóis sem quebrar.

"Não estamos a tentar reabilitar Moctezuma", ressalva o curador inglês da exposição, Colin McEwan, ao P2, junto à serpente bicéfala azul-turquesa, uma das peças mais assombrosas. "Mas há códigos que mostram Moctezuma a ser espancado, ou seja, uma versão diferente daquela em que ele aparece como não tendo resistido. É como as armas de destruição maciça: em quem acreditar? A realidade é construída de acordo com a agenda de quem a constrói. Moctezuma podia ter esmagado Cortés, e de repente era prisioneiro dele. Portanto a reputação de Moctezuma no México é a de um traidor. O que queremos aqui é ir mais além da história convencional. Não estamos a tomar partido."

É possível encarar as prendas de Moctezuma a Cortés como submissão, mas também como prova de poder e generosidade. E foi o medo que o levou ao encontro dos espanhóis? Ou arrogância, pensando que os espanhóis vinham ver como ele era grande?

Ambíguo e perturbante, Moctezuma torna-se assim uma grande figura contemporânea, sugere esta exposição.

O seu encontro com Cortés foi descrito por J.M.G. Le Clézio, profundo conhecedor do mundo ameríndio, como o confronto de dois sonhos: "É o extermínio de um sonho antigo pelo furor de um sonho moderno, a destruição dos mitos por um desejo de poder. O ouro, as armas modernas e o pensamento racional contra a magia e os deuses." (Le rêve mexicain ou la pensée interrompue, 1988).

Mexica ou aztecas?

A palavra "aztecas" vulgarizou-se, mas o termo correcto é "mexica". Segundo o mito, os mexica vêm de um lugar primordial chamado Aztlan (lugar da brancura), e por causa disso académicos do século XIX começaram a chamar-lhes aztecas. A exposição do Museu Britânico tem azteca no título, por ser tão imediatamente reconhecível, mas depois, ao longo de todos os textos, chama-lhes sempre mexica.

Não há provas arqueológicas da existência de Aztlan. O mito diz que, por volta do ano 1000, um grupo nómada sai desse lugar primordial guiado pelo deus Huitzilopochtli, e é esse deus que lhes dá o nome de mexica.

Por volta de 1200 - anda Gengis Khan a expandir o império mongol - os mexica instalam-se nas margens do lago Tetzcoco, e no século seguinte fundam Tenochtitlan.

Moctezuma I (avô do nosso Moctezuma) reina em meados do século XV. É a fase em que os incas, mais para sul, se tornam o maior império das Américas e os otomanos conquistam Constantinopla. Na terra dos mexica, às tempestades sucedem secas, neves e fomes terríveis. Desenvolve-se o hábito de capturar guerreiros para oferecer aos deuses, como apaziguamento. Os grandes deuses, fogo e vento, terra e água, são forças naturais.

Quando Moctezuma II nasce, em 1467, é educado na escola dos sacerdotes e na escola dos guerreiros. Espera-se do grande líder que seja um intermediário dos deuses, e lhes assegure sustento e alimento através da guerra. O seu tio Ahuitzotl reina a partir de 1486 e no ano seguinte completa o Templo Maior, sacrificando 20 mil cativos para celebrar.

O Templo Maior tinha 400 metros de cada lado. Estava decorado com filas de crânios, que culminavam em cabeças humanas recentemente decepadas.

Em 1492 Colombo chega à América. Dois anos depois, portugueses e espanhóis dividem o mundo no Tratado de Tordesilhas. Moctezuma tem 27 anos. Em 1498, Vasco da Gama encontra o caminho marítimo para a Índia.

Moctezuma é eleito tlatoani, ou seja, líder supremo de Mexico-Tenochtitlan em 1502. Na língua dos mexica (nahuatl), tlatoani é "aquele que fala bem". Sempre filho, irmão, neto ou sobrinho do anterior líder, mas eleito pelas suas qualidades de sacerdote e guerreiro.

Primeiro, é investido pelos sacerdotes. Usando ornamentos de ouro e pedras preciosas nas orelhas, no nariz e no lábio inferior, coroa de plumas, manto e diadema, Moctezuma queima resina num braseiro para oferecer fumo aos deuses, e, com ossos de jaguar e de águia bem afiados, derrama sangue das orelhas e das pernas. No templo cíclico dos mexica, o sangue é a frescura, o crescimento, a reciclagem da morte em vida.

Depois, para a cerimónia pública, faz uma razia a aldeias que recusam pagar tributos, captura 5000 homens e convida os líderes das terras rivais a assistirem à sua entronização. Serão quatro dias com cantos, danças, tabaco narcótico, cogumelos alucinogéneos e sacrifícios humanos.

Decreta que ninguém pode olhar a sua cara.

Quando os europeus chegam a Tenochtitlan, vêem no palácio de Moctezuma piscinas de água fresca, jardins de cheiro doce, um zoo com tigres, leões, chacais, raposas, víboras e outras cobras. E havia espaço para tribunais, lugar para prisioneiros, acrobatas, artesãos, dançarinos e tocadores. Ouviam-se tambores, flautas, sinos.

À volta de Moctezuma, cozinhavam-se mais de 300 refeições por dia, com pássaros, coelhos ou perus. A bebida real era o chocolate, grãos de cacau torrados e moídos, batidos com água rapidamente e deitados do alto para fazer espuma. Servia-se em taças de ouro à mesa de Moctezuma, e também era moeda de troca e tributo.

Quatro mulheres lavavam-lhe as mãos e depois ele fumava tabaco com âmbar líquido num cachimbo.

Também gostava de flores, por simbolizarem o fogo e o seu poder sobre a terra. Cheirar flores, tal como beber chocolate, era algo dos reis.

Entre ele e o chão havia sempre uma pele de jaguar, para evitar o contacto com o mundo terreno. Tinha esculturas em forma de águia, onde se derramava o sangue ritual, e pedras em forma de coração, o órgão que alimentava os deuses.

Protegia pobres, viúvas e órfãos, como era próprio de um Estado guerreiro. Era pródigo a dar prendas, demonstrando a sua riqueza. Nas guerras, capturava algodão, penas, ouro, pedras preciosas, para além de vítimas. Ao longo de 16 anos de reinado, enfrentou rebeliões, fomes, terramotos e tempestades de neve.

Até que, num espelho de obsidiana, terá tido a visão de uns homens que seriam os espanhóis. A obsidiana era polida até ficar como um espelho negro, e na exposição do British Museum há um belo exemplo. Os mexica acreditavam que aí se revelaria o destino.

Quando Cortés chega, Moctezuma é um homem maduro. Terá 52 anos.

Prisão e morte

No dia seguinte ao primeiro encontro, Cortés visita Moctezuma no seu palácio e fala-lhe no cristianismo. Depois sobe ao Templo Maior e fica horrorizado com os sinais de sangue. Pede que uma cruz e uma imagem da virgem lá sejam postas. Moctezuma recusa.

Mas entretanto chegam notícias de que soldados espanhóis foram mortos na costa. É o pretexto de Cortés. A 14 de Novembro, entra no palácio com 30 homens armados, acusa Moctezuma de resistência e ameaça matá-lo, caso ele não o siga. Moctezuma consulta os deuses e declara que, por amizade, vai viver uns tempos com os espanhóis. É carregado numa liteira para os aposentos de Cortés e feito prisioneiro.

Primeiro tratam-no bem. Mantém mulheres e criados e continua a tomar banho duas vezes ao dia, para espanto dos espanhóis, que nunca tomam banho. Cortés convence-o de que os verdadeiros senhores dos mexica são os espanhóis ao serviço do império de Carlos V e que o reino tem de ser transferido para o seu poder.

Depois vai ao Templo Maior, destrói os ídolos e exige que imagens da virgem e de um santo sejam postas num altar.

Rivalidades espanholas levam-no a partir a 20 Abril de 1520, deixando o capitão Pedro de Alvarado no poder.

A 16 de Maio, Alvarado massacra a nobreza mexica, milhares de pessoas. Cortés regressa a 24 de Junho, num clima de revolta. Até aqui, Moctezuma continuava a ser relativamente respeitado pelo seu povo, mas depois da mortandade, há um apelo às armas contra a submissão aos espanhóis. Cortés ordena a Moctezuma que vá ao tecto do palácio dizer ao povo para parar com os ataques. Há uma chuva de flechas e de pedras, e o ainda rei dos mexica é atingido por três pedras.

Três dias depois, a 30 de Junho, o soldado-cronista Bernal Díaz del Castillo toma conhecimento da morte de Moctezuma: "Não houve nenhum de entre nós que o tenha conhecido que não tenha chorado como se fosse nosso pai, o que não é de espantar, porque ele era tão bom."

Até hoje não se sabe se morreu das feridas ou assassinado pelos espanhóis.

De 30 de Junho para 1 de Julho é a chamada Noite Triste. Cortés e os seus tentam fugir, são atacados e centenas morrem. Seguem-se meses de resistência dos mexica. O líder, sobrinho de Moctezuma, é Cuauhtemoc. Quando cai nas mãos dos espanhóis, torturam-no para que revele onde está o ouro. Não revela e é enforcado.

O cerco a Tenochtitlan acaba a 13 de Agosto de 1521. Cortés toma como amante a filha favorita de Moctezuma, que depois há-de casar com três nobres espanhóis.

Em 1524 chegam os padres franciscanos conversores, para que Deus vença os deuses, e décadas depois os jesuítas. Pizarro conquista os incas em 1532 e Atahualpa, o último imperador inca, é executado no ano seguinte.

Os europeus trazem a morte de muitas maneiras. Calcula-se que no fim do século XVI cerca de 90 por cento dos indígenas tenha morrido de epidemias.

O passado é o futuro

O comportamento de Moctezuma "reconfigurou o continente americano para sempre", e o mais difícil para nós é "o sentido de absoluta predestinação que dominava cada aspecto da vida indígena", escrevem no catálogo Consuelo Sáizar, presidente do Conselho Nacional para a Cultura e as Artes, e Alfonso de Maria y Campos, director-geral do Instituto Nacional de Antropologia e História, parceiros do Museu Britânico.

Esta exposição, dizem, é "uma demonstração da força cultural dos mexica antes da conquista". Moctezuma estava no processo de consolidar um império que em menos de cem anos dominara uma grande parte da Mesoamérica. Como povo, os mexica tinham, pois, grande vitalidade. Mas como indivíduos eram atormentados por dúvidas sobre o destino, como mostra a poesia, e esta tensão dá "um estranho sentimento contemporâneo" à arte antiga que aqui vemos.

Moctezuma foi lamentado por alguns e desprezado por muitos. Ainda hoje não é celebrado no México. Então, a pergunta dos curadores é: "Os seres humanos são fazedores da história ou vítimas?" Não há uma resposta única. Os vestígios "são tão parciais e fragmentárioss que não será nunca possível afirmar com certeza quais eram as suas motivações".

Mas foi sobre as ruínas de Tenochtitlan que o México escolheu erguer e reeguer a sua maior cidade, hoje uma das maiores metrópoles do mundo, como se cada líder prolongasse a história dos líderes-deuses.

Há uma continuidade, disse Octavio Paz.

Ou um regresso, como no templo circular dos mexica, em que de 52 em 52 anos os homens receavam a noite eterna e a vinda de feras selvagens que comeriam toda a gente.

Moctezuma reiniciou o tempo no fim de um desses ciclos, em 1507. As grávidas tinham sido encarceradas, para não se transformarem em feras, as crianças tinham usado máscaras, para não se transformarem em ratos. O rei fez arder um coração dentro de um corpo humano no cimo do Templo Maior, e o fogo foi carregado em tochas por toda a cidade.

Mas o fim só viria com a chegada dos espanhóis.

E 500 anos depois da queda de Moctezuma, é a Moctezuma que podemos perguntar porquê, como a um espelho de obsidiana, revelador do futuro.

Aquilo que vemos não será o mesmo que os colonizadores viram.

"Se é verdade que Moctezuma se mostrou fraco, irresoluto, tomado pela perturbação interior que destruirá a maior parte dos reinos índios", escreveu J.M.G. Le Clézio, "também é verdade que perante o irremediável se soube mostrar um verdadeiro soberano que tenta antes de mais poupar o seu povo e a sua cidade".

Na grande poesia dos mexica há esta passagem do Canto de Axayácatl, pai de Moctezuma: "Eras festejado, / divinas palavras fizeste, / apesar disso morreste. / Quem tem compaixão dos homens, tortuosamente inventa."

O P2 viajou a convite do Turismo Britânico e da British Airways