Os rostos do escândalo BPN

Vítor Constâncio

O Banco de Portugal (BdP), liderado por Vítor Constâncio, não sai bem da fotografia. Desde logo porque autorizou Oliveira Costa a presidir a uma instituição financeira. O ex-secretário de Estado dos Assuntos Fiscais esteve associado no início dos anos 90 a uma megafraude fiscal envolvendo empresas de Aveiro - um processo arquivado que nunca foi a julgamento. Constâncio justificou-se dizendo que Oliveira Costa tinha sido secretário de Estado e membro do BEI. Mais tarde fechou os olhos às denúncias públicas. O PÚBLICO revelou uma teia de relações ao mundo dos grandes interesses e da política, noticiou a ligação do banco a El-Assir, o negociante de armas, e chamou a atenção para os gestores que se recusaram a certificar as contas e a rotatividade de auditores. Desde 2003, na Exame, o crescimento rápido do BPN era questionado, mas o BdP não actuou, e, se actuou, foi sem consequências. Só em 2007, com a crise à porta, reconheceu o problema. C.F.Oliveira Costa

José Oliveira Costa, ex-presidente do BPN e grande accionista, pediu a demissão dos órgãos sociais do grupo SLN/BPN em Fevereiro de 2008. Em plena crise financeira, o clima era já de guerra aberta entre investidores, incapazes de mobilizar os fundos necessários para tirar o banco do lodo em que se afundara. Mesmo assim, o ex-CEO não imaginava que nove meses depois seria detido acusado de uma megaburla que levou o banco à falência. Em Maio foi a São Bento prestar declarações na comissão de inquérito. A audiência só se realizou depois de ter ouvido todos os outros intervenientes chamados ao Parlamento. A sua intervenção foi uma peça de defesa brilhante: atacou quem o tinha atacado (Dias Loureiro, Joaquim Coimbra, Miguel Cadilhe); defendeu os supervisores (que o investigam) e desviou de si as atenções acusando um ex-secretário de Estado de Durão Barroso, José Briosa e Gala, de ter recebido 180 mil euros para "nada fazer". No fundo, disse uma coisa: esta aventura não foi só dele. C.F.

Dias Loureiro

Em Novembro de 2008, o PÚBLICO noticiou que o ex-governante intermediou a aquisição de duas sociedades em Porto Rico pela Sociedade Lusa de Negócios, de que era accionista e administrador. Uma operação ocultada das autoridades. A partir daí, o ex-ministro de Cavaco, que hoje é constituído arguido neste processo, viu o seu nome arrastado para a praça pública, acusado entre outras coisas de fraude fiscal. No rescaldo do cavaquismo trocou os gabinetes ministeriais por lugares em órgãos sociais de instituições e posições accionistas em empresas, como a Plêiade, que lhe abriria caminho até ao BPN/SLN. Sentou-se à mesa do rei de Espanha, que lhe apresentou o amigo El-Assir, cliente e grande devedor do BPN. Foi o libanês que vendeu à SLN as empresas de Porto Rico. Mas avaliou mal o impacto público da Comissão de Inquérito parlamentar ao BPN. C.F.

Nuno Melo

Nos meses que durou a comissão de inquérito à nacionalização do BPN, o deputado do PP Nuno Melo foi uma das vozes mais críticas do Banco de Portugal. O actual eurodeputado não poupou Vítor Constâncio, acusando-o de "não saber admitir os erros" e apontando o dedo àquilo que considerou "falhas graves e reiteradas de supervisão" que contribuíram para agravar a situação do banco e culminaram com a sua nacionalização. Do CDS partiram os pedidos de algumas das audições parlamentares que se vieram a revelar mais esclarecedoras na desmontagem da trama das irregularidades no BPN e SLN, nomeadamente as de antigos quadros do grupo. A.B.