O primeiro mergulho português em fontes hidrotermais

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O DR

Pela primeira vez, uma missão totalmente portuguesa visitou as fontes hidrotermais e, para assinalar o acontecimento, deixou no fundo do mar um marco: uma tampa branca com a sigla "PT". Ficou na chaminé da última de sete fontes hidrotermais visitadas pelo robô submarinoLuso, num mergulho que começou às 16h58 de quinta-feira (hora de Lisboa) e terminou já na madrugada do dia seguinte.

Eram 3h24 de sexta-feira quando oLusofoi içado para o navio oceanográficoAlmirante Gago Coutinho, da Marinha, e o que se seguiu foi uma azáfama: todos à sua volta na popa, com os capacetes e coletes salva-vidas, ora a confirmar se estava tudo bem, ora a recolher as amostras de bichos, água, rochas e sedimentos trazidos lá de baixo.

Tantas vezes visitadas por submersíveis e robôs de outros países, as fontes hidrotermais em profundidade dos Açores nunca tinham tido uma missão cem por cento portuguesa, desde os cientistas e o navio envolvidos até ao veículo de exploração.

O Luso foi comprado por Portugal a uma empresa norueguesa, no ano passado, por três milhões de euros, para, numa primeira fase, estar dedicado sobretudo ao projecto de extensão da plataforma continental. Este foi o 47.º mergulho, ainda com o apoio técnico de dois pilotos da empresa norueguesa, a formar um grupo de portugueses como pilotos de veículos operados a distância (ROV).

O sítio do mergulho foi o campo hidrotermal Lucky Strike, o primeiro a ser descoberto em águas portuguesas, em 1992, por uma equipa norte-americana. Encontra-se a 180 milhas náuticas a sudoeste do Faial, e a 1700 metros de profundidade, numa zona com três pequenos vulcões a rodear um lago de lava arrefecida. É à volta desse lago que estão as chaminés hidrotermais. Algumas lançam um fluido negro, carregado de metais, como cobre, ferro ou vestígios de ouro, que chega aos 330 graus Celsius. Chamam-lhes chaminés "negras". Outras emitem um fluido mais incolor, as chaminés "brancas".

A equipa a trabalhar com a Estrutura de Missão para a Extensão da Plataforma Continental (EMEPC) queria visitar uma chaminé famosa do Lucky Strike, a Torre Eiffel. Mas essa não foi a primeira visão que o Luso transmitiu do fundo do mar para quem estava a bordo. No início, as suas câmaras mostraram lava e sedimentos, depois andou à caça das fontes, movendo-se como se estivesse em câmara lenta. Ao todo, visitaram-se sete fontes, e só à quinta é que foi encontrada a desejada Torre Eiffel do Atlântico.

"Esta é a primeira missão totalmente portuguesa. Se me tivessem dito há 15 anos que hoje estaríamos com esta capacidade instalada, rebolava-me a rir", resumiu o geólogo Nuno Lourenço, o chefe da missão. "Conseguimos mergulhar num campo hidrotermal e temos capacidade técnica para recolher imagens de grandíssima qualidade."

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