Rui Vieira - O homem que dizia que era o Jardim Botânico da Madeira

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O último presidente da Junta Geral da Madeira sobreviveu ao antigo regime e foi deputado ao Parlamento Europeu. E sem ele o "mostruário vivo das plantas" da ilha não seria o que é

a Foi uma das personalidades mais marcantes da administração pública madeirense na segunda metade de século XX. Morreu no sábado, aos 83 anos, de cancro. Na presença de representantes dos diversos quadrantes políticos e da sociedade madeirense, num inequívoco tributo à sua competência técnica ao serviço da comunidade, empenho no desenvolvimento de multifacetadas actividades e dedicação sem limites à investigação na área da botânica, unanimemente reconhecidas, foi ontem a enterrar no Cemitério de Nossa Senhora das Angústias, na freguesia de São Martinho onde nasceu a 29 de Março de 1926, precisamente o ano em que se levantou um regime para cair em 1974.Engenheiro agrónomo, formado em 1951 pelo Instituto Superior de Agronomia de Lisboa, Rui Vieira entrou para o quadro dos Serviços Agrícolas da Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal - estrutura administrativa de que era presidente quando foi extinta, em Março de 1975, para dar lugar à Junta de Planeamento da Madeira, que assegurou as suas competências no período revolucionário no arquipélago.
Director da Estação Agrária, trabalhou essencialmente em sanidade vegetal, horto-fruticultura, viticultura e floricultura. Foi director da escola Prática Elementar da Agricultura, desde a sua criação em 1954, e do Jardim Botânico da Madeira, desde a sua fundação em Abril de 1960, instituições em cuja organização e funcionamento tomou parte activa.
"Eu era o Jardim Botânico", dizia para sintetizar as dificuldades encontradas para concretizar o projecto de transformar a antiga Quinta Reid ou do Bom Sucesso no "mostruário vivo das plantas que existem na Madeira", enriquecido com o Herbário Histórico do Seminário do Funchal, à guarda do Jardim Botânico no qual está incorporado desde 1982.
Além da parte administrativa e da coordenação do trabalho agrícola, ocupava-se da catalogação de livros e revistas e da permuta de sementes com outros institutos. "As poucos foram chamando algumas pessoas e, hoje, o Jardim Botânico tem uma quadro técnico bastante valioso e é um instituto internacional de categoria", reconhecia numa entrevista publicada, no Jornal da Madeira, quando lançou o seu último estudo - Flora da Madeira - Plantas Vasculares Naturalizadas no Arquipélago da Madeira, uma "compilação das plantas que foram introduzidas na ilha, consciente ou inconscientemente, e que depois se tornaram selvagens, adquirindo um comportamento mais ou menos idêntico às plantas naturais da Madeira".
Estas plantas, alertava, ocupam hoje grandes espaços territoriais, afectando ou a agricultura ou os sistemas naturais da flora madeirense, nomeadamente a própria laurissilva, que principia a ser negativamente atingida por estas espécies.
Então, como nos inúmeros livros e estudos publicados, o engenheiro agrónomo e investigador foi advertindo que o interesse em preservar os ambientes naturais não era "uma coisa folclórica", mas um assunto relevante. Até porque a subida de temperatura resultante das alterações climáticas que se verificam a nível mundial pode resultar numa tendência invasora, a maiores altitudes, das plantas naturalizadas, afectando esse grande Património Mundial que é a floresta laurissilva, avisara.
Causa pública
Membro de várias associações filantrópicas, culturais, científicas e agrárias, nacionais e internacionais, este homem de baixa estatura física notabilizou-se sobretudo pela sua dedicação à causa pública e pela reconhecida capacidade de planeamento.
Figura do antigo regime, no qual seria nomeado presidente da Junta Geral do Distrito (1971/74) e deputado da Acção Nacional Popular (ANP) à Assembleia Nacional (1965/69), o seu perfil de técnico isento permitiu-lhe escapar a comprometedoras conotações salazaristas ou marcelistas. "Eu não sou um homem revolucionário, sou geneticamente conservador na boa assunção do termo," disse ao Diário de Notícias. "Mas sempre fui monárquico constitucional por convicção, nunca me senti bem no seio destas questões republicanas."
Depois do 25 de Abril, assumiu cargos políticos: nas estruturas governativas de transição, como vogal, com o pelouro da agricultura e pescas, da Junta Regional e de Planeamento da Madeira (1976), presidida pelo governador militar Carlos Azeredo; num governo resultante de eleições regionais, como director do Planeamento (1980), no segundo executivo presidido por Alberto João Jardim, apesar da pouca proximidade a este sobrinho do homem forte da ANP na Madeira, Agostinho Cardoso.
Convidado para candidatar-se pelo PS/CDS à câmara do Funchal, em 1989, acabou por não aceitar liderar a coligação que, encabeçada pelo socialista Emanuel Jardim Fernandes e pelo seu filho Ricardo Vieira, então líder do CDS na Madeira, ficou a poucos votos do PSD. Mais tarde viria a integrar, como independente, a lista do CDS ao Parlamento Europeu, onde esteve como deputado (1995/96). Mas, como na antiga Assembleia Nacional, voltou a concluir: "A vida parlamentar diz-me pouco. Sou um homem que gosta de trabalhar e ver coisas activas imediatas e não coisas que levam muito tempo a realizar", confessou ao Diário de Notícias. Decidir e executar foi o poder pelo qual Rui Vieira se deixou fascinar durante toda a vida.