Uma celebração da música de câmara

Joseph Haydn faleceu no mesmo ano do nascimento de Felix Mendelssohn (1809), há precisamente dois séculos, mas, apesar de pertencerem a gerações diferentes, há na sua obra uma forte linha de continuidade. Ambos cultivaram a música de câmara com primor e Mendelssohn foi um dos compositores da era romântica que demonstrou maior veneração pelos clássicos, o que não será alheio à formação musical de modelo setecentista que recebeu. A combinação das obras destes dois compositores neste ano de efemérides tem sido recorrente e o Schostakovich-Ensemble também não resistiu à fórmula no último dos seus programas como Ensemble Associado do Centro Cultural de Belém. Sob a designação Haydn e Mendelssohn, entre dois mundos foram inteligentemente agrupadas duas das mais conhecidas obras de Haydn - o Trio para piano, violino e violoncelo Hob XV: 25, Cigano, e o Quarteto op. 76, n.º 3, Imperador - e duas peças de Mendelssohn raramente ouvidas: a Sonata para violino e piano em Fá Maior (1838) e o Sexteto para violino, duas violas, violoncelo, contrabaixo e piano, op. 110.
O Schostakovich-Ensemble possui uma formação variável em função do repertório, recorrendo a um conjunto de colaboradores relativamente amplo. Ultimamente, a violinista russa Tatiana Samouil (concertino da Orquestra Sinfónica do Teatro La Monnaie de Bruxelas, onde tocam também outros elementos do grupo) tem sido uma presença assídua. No recital de sábado foi a alma da interpretação, destacando-se pela bela sonoridade que tira do seu instrumento e por um estilo que combina elegância e expressividade. Se no Trio Cigano, de Haydn, que deve a sua popularidade ao seu contagiante Rondó all'Ongarese, nos ofereceu fraseados de belo recorte numa boa sintonia com o piano de Filipe Pinto-Ribeiro e com o violoncelo (mais discreto, mas assim o impõe a natureza da obra) de Justus Grimm, na Sonata para violino de Mendelssohn mostrou a sua vertente mais apaixonada e apostou de forma vigorosa no brilhantismo técnico.
A arte da música de câmara, no sentido em que esta deve privilegiar o justo equilíbrio no diálogo entre as várias forças envolvidas, encontrou a sua melhor expressão no Quarteto Imperador, de Haydn, no início da segunda parte. No célebre segundo andamento, com as variações sobre o tema do hino imperial austríaco, foi possível apreciar bem a acuidade dos sucessivos instrumentistas, quer na qualidade de som na enunciação do tema, quer na destreza técnica das rápidas figurações que o vão envolvendo. Em geral, a prestação foi bastante viva, com fraseados e articulações bem cuidadas e atenção aos numerosos contrastes da partitura.
O Sexteto de Mendelssohn era a obra mais curiosa do programa devido à sua instrumentação peculiar (com duas violas) e ao grande destaque que dá ao piano, parecendo quase um concerto para este instrumento. Escrito quando Mendelssohn tinha apenas 15 anos, combina traços distintivos do talento do compositor e uma certa desenvoltura de escrita com ecos da melhor música de salão da época. É uma obra de grande fulgor juvenil, à qual o pianismo de Filipe Pinto-Ribeiro (com uma articulação clara e uma energia rítmica propulsora) imprimiu um carácter lúdico, que muito entusiasmou a audiência.

Cristina Fernandes