Jardins de Queluz Adónis volta a levantar a cabeça

Depois de dois anos fechados, para uma intervenção de restauro, os jardins do Palácio
de Queluz reabriram. As obras ainda não terminaram, mas as estátuas de chumbo
voltaram de Londres com as feridas tratadas e a directora acredita que já era tempo
de devolver os jardins ao público. Por Alexandra Prado Coelho

a Há décadas que a cabeça de Adónis se inclinara para a frente. Desde o dia em que uma árvore, caída no meio de uma tempestade, a atingira directamente que a estátua não fazia justiça à sua elegância original. Agora, esta foi-lhe devolvida e Adónis pode novamente erguer a cabeça perante o olhar apaixonado de Vénus. Há mais de um ano que os dois amantes, e vários outros conjuntos de esculturas em chumbo dos jardins do Palácio Nacional de Queluz, tinham desaparecido dos seus locais habituais para fazerem uma longa viagem até ao atelier de restauro de Rupert Harris, em Londres. Agora - e depois de, durante dois anos, grande parte das áreas exteriores do palácio ter estado fechada aos visitantes - as estátuas voltaram aos seus lugares e os jardins foram reabertos ao público.
Desde que tomou posse, em Setembro do ano passado, que a nova directora do museu do Palácio de Queluz, Isabel Cordeiro, estabeleceu como prioridade a reabertura dos jardins, que considera "absolutamente indissociáveis" do palácio. Esta foi, no final do século XVIII, a residência de Verão da família real, a rainha D. Maria I e o príncipe consorte D. Pedro III, e, como tal, o exterior era tão importante como o interior.
Era nos 16 hectares de jardins que a família real organizava as suas festas, assistia a espectáculos de fogo-preso, a touradas e a cavalhadas (torneio a cavalo), era no Jardim Botânico que D. Pedro III cultivava ananases, era nos jardins que os visitantes descobriam gaiolas com pássaros exóticos, pavões, catatuas, galinhas-de-angola, águias e falcões. Era também junto aos jardins, na parte de baixo do Pavilhão Robillion, que se situavam as jaulas onde estavam presos os animais mais perigosos, leões, tigres, macacos. E se as gaiolas dos pássaros há muito que desapareceram, as jaulas ainda permanecem, hoje vazias.
Apesar de as obras estarem longe de terminadas, Isabel Cordeiro assume a decisão de reabrir os jardins neste momento. Acredita que os visitantes vão gostar de acompanhar as obras de restauro que ainda continuarão durante mais um ano, sobretudo nas 18 fontes e lagos.
O que foi determinante para avançar com a reabertura, há pouco mais de uma semana, foi o trabalho feito no chamado coberto vegetal - os bosquetes foram limpos, os buxos aparados, houve uma tentativa de recuperar algumas espécies e outras novas foram introduzidas, na zona dos jardins superiores, os mais próximos do palácio. Foi estudando documentos antigos, sobretudo os meticulosos registos de todas as compras feitas pelo palácio, que se identificaram muitas espécies de flores que existiam nos jardins na época de D. Pedro III e de D. Maria, algumas das quais se está a agora a tentar reintroduzir.
Falta sempre muita coisa
"O que é que falta? Há-de faltar sempre muita coisa", suspira a directora. "Um jardim histórico nunca pode estar terminado." Neste caso, falta, por exemplo, concluir a recuperação dos tais 18 lagos e fontes desenhados (como muitas outras coisas nos jardins e no palácio) por Jean-Baptiste Robillion, e ligá-los à infra-estrutura de abastecimento de água. Este arquitecto francês, antigo ourives que trocara França por Lisboa na sequência da morte do seu mestre, viria a assumir grande parte dos trabalhos em Queluz, depois de o arquitecto inicialmente responsável, Mateus Vicente de Oliveira, ter sido chamado para ajudar na imensa tarefa de reconstrução de Lisboa depois do terramoto de 1755.
O outro factor decisivo para que os jardins pudessem ser reabertos foi o regresso das esculturas que tinham viajado até Londres (duas delas não eram expostas desde 1967). Estes trabalhos - Eneias e Anquises, Meleagro e Atalante, Baco e Ariadne, Vertumo e Pomona, Vénus e Adónis e Rapto de Proserpina - do escultor britânico John Cheere (1709-1787) foram, aliás, fundamentais para o envolvimento neste processo do World Monuments Fund-Britain. Houve, conta Isabel Cordeiro, da parte dos britânicos uma grande curiosidade por este conjunto de trabalhos em chumbo (a estatuária em chumbo foi moda em Inglaterra na segunda metade do século XVIII, mas, quando saíram de moda, as estátuas foram, na maioria dos casos, derretidas ou abandonadas).
E assim as estátuas portuguesas voaram até à capital britânica para um trabalho de restauro muito específico: as armaduras interiores, em ferro, foram todas substituídas por aço inoxidável e as figuras mitológicas foram tratadas das inúmeras feridas que tinham (as fendas são normalmente invadidas por plantas, que começam a crescer do interior das estátuas, tufos verdes a nascer do chumbo).
Animais exóticos
Além disso, houve trabalho de restauro, nos próprios jardins, das estátuas em pedra, para combater as colónias de líquenes e musgos, mas evitando deixá-las imaculadas, para não parecerem deslocadas em relação ao palácio.
As intervenções nas esculturas, lagos e no Canal de Azulejos (um exemplo único, 110 metros de painéis de azulejos da segunda metade do século XVIII) faziam parte da proposta original apresentada em 2003 pela associação World Monuments Fund-Portugal ao Instituto Português do Património Arquitectónio - até agora, o WMF (tanto o de Portugal como o do Reino Unido) suportou custos no valor de 1,5 milhões de euros e deverá investir mais um milhão; o Igespar (ex-Ippar) contribuiu com 800 mil euros para a criação das infra-estruturas de rega e de abastecimento de água aos lagos; e o Instituto dos Museus e da Conservação com 250 mil euros para a recuperação e manutenção do coberto vegetal (programa que só foi lançado no início do ano).
"Esta é uma das intervenções mais relevantes em termos de jardins históricos em Portugal", frisa Isabel Cordeiro. Há coisas que não se vêem mas que são fundamentais: foram, por exemplo, retiradas as espécies que, com as suas raízes cada vez maiores, estavam a ameaçar a estrutura do Canal de Azulejos. O leito do canal, por onde corre o rio Jamor, também sofreu obras, mas o trabalho nos azulejos ainda não começou.
Por enquanto, ainda há feridas à vista, e o Jamor corre timidamente pelo mesmo caminho onde há mais de dois séculos a família real se divertia, fechando a comporta, deixando subir a água no canal até ao nível dos azulejos e passeando de barco enquanto a orquestra de câmara da rainha tocava na Casa de Música, decorada em chinoiserie, sobre o canal, que à noite era iluminado com archotes em forma de cornucópias de talha dourada.
A partir de 1807, e da partida da família real para o Brasil, acabou o período áureo do Palácio de Queluz. A Casa da Música, ou Casa Chinesa, desapareceu, sobrevivendo apenas num desenho antigo. Tal como ela, desapareceram a Barraca Rica (dizem que tão ricamente decorada como o próprio palácio), as estátuas coloridas de cortesãos, pastores e camponeses, o Jardim do Labirinto com as suas esculturas e lagos por onde as pessoas se podiam perder, as gaiolas de pássaros exóticos, os leões nas jaulas e os búfalos e veados nos jardins.
Mas muito chegou até nós desses jardins onde D. Pedro III recebia as encomendas das estátuas vindas de Londres e só então decidia onde iria colocá-las - para, mais tarde, as mudar de sítio como quem muda a mobília da casa. E agora, com as estátuas em chumbo de regresso e algumas espécies de plantas a serem reintroduzidas, podemos regressar (pelo menos um pouco) a esse passado. Isabel Cordeiro não tem dúvidas de que a decisão de abrir os jardins mesmo com as obras ainda a decorrer foi a mais acertada: "Eles já estão em condições de serem fruídos. Não os reabrir seria criminoso".