Os anos de Bush ou o fim da "ilusão de Império"

a George W. Bush crê, e bem, que só o tempo e a História poderão avaliar o seu mandato. Para a maioria dos contemporâneos, estrangeiros ou americanos, o juízo está feito: falência. Herdou uma América que era vista como "a hiperpotência irresistível" ou "a potência indispensável". Deixa ao sucessor uma América menos poderosa e mais consciente dos seus limites - o que, noutras circunstâncias, não seria grande pecado. Mas a "tempestade perfeita" nascida da invasão do Iraque deixou a cena internacional às portas do caos. A fatalidade consuma-se com a explosão da crise financeira, de que não foi o responsável directo mas que constitui a maldição final da sua presidência.Depois de, no primeiro mandato, ter assumido o objectivo de reformular o mapa do mundo, dedicou os três últimos anos a tentar corrigir os efeitos da cadeia de desastres iniciada em 2003.
Durante a campanha eleitoral de 2000, George W. Bush, que não tinha altos desígnios em política internacional, apelou à humildade na relação com os outros países. No discurso de posse, prometeu defender "os nossos aliados e os nossos interesses", mostrando "resolução sem arrogância". Que aconteceu?
Bin Laden e o 11 de Setembro montaram-lhe uma emboscada. A viragem é manifesta no dia 12 de Setembro de 2001, em que proclama: "Encontrámos a nossa missão". A missão era a "guerra contra o terrorismo", o combate entre o Bem e o Mal, rapidamente transformado numa operação de "engenharia geopolítica global" que deu lugar à arrogância, à desmesura e, por fim, à perda.
A era unipolar
O 11 de Setembro marca um corte nas relações internacionais, "através da reacção dos Estados Unidos e, ainda mais, através da reacção do mundo àquela reacção", anotou o politólogo francês Pierre Hassner.
O traumatismo abre o caminho à "tomada do poder" pelo clã do vice-presidente Dick Cheney e do secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, e à marginalização dos realistas, como o secretário de Estado, Colin Powell. Cheney, Rumsfeld e o neoconservador Paul Wolfowitz, número dois do Pentágono, convertem Bush a uma nova doutrina que substitui o paradigma da Guerra Fria: fazer da guerra contra o terrorismo a alavanca para um ambicioso projecto de remodelação do Médio Oriente, de forma a consolidar a hegemonia americana no mundo e estabelecendo uma nova ordem internacional.
Se Cheney e Rumsfeld encarnam um imperialismo clássico, Wolfowitz representa os neoconservadores, paladinos de um imperialismo ideológico: a imposição de democracias, pela persuasão ou pela força, é o que melhor serve os interesses americanos, da segurança ao controlo dos recursos energéticos, do terrorismo à proliferação nuclear. O Pentágono substitui o Departamento de Estado como primeira fonte da política externa.
A derrapagem começa no Iraque. Em 2001, o ataque ao Afeganistão, santuário da Al-Qaeda, teve uma legitimação internacional. Derrubar Saddam, objectivo provavelmente decidido em Janeiro de 2002, é o primeiro acto de um vasto jogo de dominós, que deveria refazer por etapas o mapa do Médio Oriente. A "cereja no bolo" seria a resolução do conflito israelo-árabe, de momento relegado para segundo plano: "A estrada de Jerusalém passa por Bagdad."
A América concebia-se então como a hiperpotência, não distinguindo entre supremacia e omnipotência. "Pela primeira vez na era moderna, o mais poderoso Estado do mundo pode agir no palco global sem os constrangimentos das outras grandes potências. Entrámos na era unipolar americana". Era a "ilusão de Império", escreveu em 2004 o americano G. John Ikenberry.
A chamada "Doutrina Bush" consistiu na teorização da guerra preventiva, no unilateralismo, na troca das alianças permanentes por "coligações de voluntários" de geometria variável consoante o inimigo, na marginalização da ONU, no desprezo pelos tratados e compromissos internacionais. E no desconhecimento dos limites da força militar: os EUA derrubaram facilmente Saddam, mas irão perder na frente política.
Abriu-se uma crise diplomática com os aliados europeus que Rumsfeld, com desprezo, dividiu entre "nova e velha Europa".
O Grande Médio Oriente
O jogo dos dominós é simples: a invasão do Iraque levaria à sua democratização e esta contagiaria toda a região, do Egipto à Arábia Saudita, do Líbano ao Afeganistão. Aos renitentes, como a Síria ou o Irão, seria aplicada a "mudança de regime".
Em Maio de 2003, Bush anunciou um projecto de remodelação político-social do Grande Médio Oriente, que será lançado no início do ano seguinte. Visava a modernização e a democratização do mundo islâmico, do Magrebe ao Paquistão.
Declarara Bush no discurso sobre o Estado da União: "Enquanto o Médio Oriente permanecer um lugar de tirania, desespero e cólera, continuará a produzir homens e movimentos que ameaçam a segurança dos Estados Unidos e dos nossos amigos. Assim, a América prossegue uma estratégia de avanço da liberdade no Grande Médio Oriente."
Modernização não significa democratização. "A democracia não se pode exportar", advertiu em vão Samuel Huntington.
Em 2005, escrevia um jornalista libanês: "Após décadas de seca, parece que chove democracia no Médio Oriente": eleições no Iraque, anúncio da "eleição democrática" do Presidente do Egipto, minieleições sauditas, a sublevação pacífica no Líbano e a preparação de eleições na Palestina. "Terá Bin Laden desencadeado uma revolução democrática no Médio Oriente?", interrogava-se o britânico Timothy Gorton Ash.
E o neoconservador Charles Krauthammer apelava: "As revoluções não estacionam; ou avançam ou morrem. Estamos na aurora de um glorioso, delicado e revolucionário momento no Médio Oriente."
Áreas houve, como a Ásia ou África, em que a política de Bush alcançou sucessos. Mas será o fiasco no Médio Oriente que quase tudo domina, suscitando a ideia de que, afinal, "o mundo se tornou mais perigoso".
Os anos de contrição
Primeiro, foi o "desaparecimento" das armas de destruição maciça (ADM) de Saddam. Rapidamente Wolfowitz explicou que a guerra continuava a ser justa, porque visava a democracia, e que as ADM foram o pretexto para obter um consenso para a invasão.
A seguir, foi o caos iraquiano e o atolamento no terreno, a contagem dos mortos, o sentimento de "impotência da vitória". As revelações sobre a tortura em Abu Ghraib e Guantánamo têm efeitos morais devastadores. Depois, é o resto: a Palestina, onde o Hamas vence as eleições, o Afeganistão, onde os taliban regressam, o Irão, que desafia Washington com o seu programa nuclear.
A partir de fins de 2005, a situação agrava-se a um ponto que faz temer a condensação de várias crises num conflito que poderia incendiar o Médio Oriente. Nos EUA, muda a opinião pública, inicialmente favorável à cruzada de Bush. A rejeição da América no mundo, e não apenas entre os árabes, atinge níveis preocupantes.
No Verão de 2006, soa a hora dos realistas. Bush desfaz-se de Rumsfeld e Wolfowitz, Cheney perde influência. Os neoconservadores são marginalizados. Em Dezembro, o relatório da comissão Baker-Hamilton (Grupo de Estudo para o Iraque) faz um implacável diagnóstico da falência da política internacional da Administração Bush, destruindo o mito de que "estamos a vencer no Iraque" e propondo uma "ofensiva diplomática geral", nos antípodas do unilateralismo e da "guerra ao terror" dos neoconservadores.
A mudança não demora. É a correcção das relações com a Europa (iniciada em Janeiro de 2004). No Iraque, o general Petraeus impõe uma estratégia em que a iniciativa política prevalece sobre a força militar. É relançado, embora numa base simbólica, o processo de paz israelo-palestiniano. É travada a tentação de aventura militar no Irão. Enfim, através de Condoleezza Rice, a diplomacia é restaurada.
Bush abandona a Casa Branca quando começava a aprender que a "guerra ao terror", mais do que eliminar o terrorismo, se tornara na arte de criar novos inimigos. Resta-lhe pensar que o seu sucessor será forçado a dar continuidade a parte do que ele fez (e desfez) no fim do seu mandato.