Meio Nobel por isolar o vírus mais famoso do mundo, o HIV

A escolha contemplou três cientistas que identificaram os vírus que estão
na origem de dois flagelos modernos:
a sida e o cancro do colo do útero

a Há quem lhe chame VIH, há quem lhe chame HIV. Tanto faz. De uma forma ou de outra, pode dizer-se que estamos perante o vírus mais famoso do mundo. Vinte e cinco anos após a sua descoberta, os cientistas franceses que o identificaram acabam de receber o Prémio Nobel da Medicina.A celebridade do VIH deve-se à sua absoluta ubiquidade: não há canto do mundo, por mais recôndito que seja, que se possa considerar ao abrigo da pandemia de sida. Muitos países conhecem-no ainda pela sigla inglesa AIDS, mas a escolha do nome também é indiferente: seja qual for a designação, o mundo inteiro sabe do que se trata.
No início dos anos 1980, Luc Montagnier (hoje com 76 anos) e Françoise Barré-Sinoussi (hoje com 61 anos) trabalhavam no Instituto Pasteur, em Paris. Desde 1981, tinha surgido uma nova doença infecciosa que destruía o sistema imunitário das vítimas: a "síndrome da imunodeficiência adquirida" humana ou sida. A nova doença atingia principalmente homens homossexuais e a sua causa permanecia misteriosa.
Em conjunto com o médico Jean-Claude Chermann e outros, os dois premiados isolaram, em inícios de 1983, um vírus inédito nas amostras de sangue recolhidas junto de doentes com sida e baptizaram-no LAV ("vírus associado às linfadenopatias", inchaços dos gânglios linfáticos característicos da doença). Publicaram a sua descoberta na revista Science a 20 de Maio de 1983 e começaram rapidamente a experimentar um teste de diagnóstico da infecção com base nos anticorpos dirigidos contra o vírus.
Lê-se no comunicado emitido ontem pelo Instituto Karolinska, em Estocolmo, que "a descoberta foi um dos pré-requisitos para a compreensão actual da biologia da doença e do seu tratamento anti-retroviral". Estima-se que 25 milhões de pessoas tenham até hoje sido vitimadas pela sida e que 33 milhões de pessoas vivam actualmente com HIV.
Ainda à espera de vacina
Embora ainda não tenha sido possível obter uma vacina preventiva contra a sida, os tratamentos permitem hoje prolongar por muitos anos a vida das pessoas infectadas. Em entrevista ao PÚBLICO em Junho deste ano, Montagnier declarou ter a convicção de que seria desenvolvida, nos próximos anos, uma vacina terapêutica contra o HIV - ou seja, capaz de erradicar (ou quase) o vírus da sida do organismo das pessoas infectadas.
"A importância deste trabalho deve ser encarada no contexto de uma pandemia global e ubíqua que atinge perto de um por cento da população mundial", salienta o mesmo comunicado, acrescentando que "a ciência e a medicina nunca tinham conseguido descobrir, identificar e tratar tão rapidamente uma nova doença".
A escolha do Comité Nobel marca também o fim das dúvidas - para quem ainda as tivesse - acerca da paternidade da descoberta, disputada aos franceses, durante anos e até nos tribunais, por Robert Gallo, dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA.
Vir-se-ia a saber, em 1990, que o vírus que Gallo pretendia ter descoberto em 1984 não era senão o da equipa de Montagnier. Montagnier tinha enviado amostras do seu vírus LAV para vários laboratórios, entre os quais o de Gallo, e esse vírus teria contaminado as amostras de um outro vírus, esse sim isolado por Gallo. A versão oficial foi sempre que a contaminação terá sido involuntária e que em momento algum Gallo tentou apropriar-se do trabalho alheio.
Contactado ontem pela AFP em Abidjan, na Costa do Marfim, onde participava num congresso, Montagnier, hoje presidente da Fundação Mundial para o Estudo e Prevenção da Sida da UNESCO, declarou que a sua "primeira reacção foi pensar em todos os doentes com sida e em todos o que ainda vivem e lutam contra a doença", em particular em África.
Quanto a Barré-Sinoussi, que ainda trabalha no Pasteur e que também se encontra envolvida na procura de uma vacina contra a sida, disse à rádio France-Inter que a sua vida "nunca foi a mesma" depois de 1983.
Françoise Barré-Sinoussi
Naturalidade Francesa
Idade 61 anos
O que fez Fez parte da equipa do Instituto Pasteur que identificou o vírus HIV como o responsável por uma nova síndrome que afectava o sistema imunitário, na década de 1980 (a sida)
Luc Montagnier
Naturalidade Francês
Idade 76 anos
O que fez Liderava a equipa do Pasteur que identificou o HIV; durante anos, a primazia da descoberta foi-lhe disputada pelo norte-
-americano Robert Gallo, que não foi contemplado
Harald zur Hausen
Naturalidade Alemão
Idade 72 anos
O que fez Identificou os vírus que causam 70 por cento dos casos de cancro do colo do útero, na década de 1980. Lançou a ideia de criar uma vacina para evitar a infecção e reduzir os casos de cancro