Torne-se perito

O Primeiro de Janeiro Um jornal de cultura perto do fim

Nos seus tempos áureos, o Janeiro chegou a vender mais de 120 mil exemplares. Esta semana, a publicação foi suspensa. Pode ser que regresse como gratuito, mas receia-se que seja o fim de mais um jornal centenário por onde passaram Camilo, Antero de Quental, Eça de Queirós, Ramalho Ortigão, Gomes Leal e António Nobre. Por Luís Miguel Queirós

a O Primeiro de Janeiro nasceu no dia 1 de Dezembro de 1868, quando o Comércio do Porto já contava mais de uma década e o Diário de Notícias cumpria o seu quarto aniversário. Com o encerramento do primeiro, em 2005, tornou-se o mais antigo diário do norte do país. Descontada uma semana de suspensão que lhe foi imposta, em 1907, pelo ministro João Franco, é a primeira vez, nos últimos 140 anos, que o Janeiro não sai à rua. O actual proprietário, Eduardo Costa, garante, através da directora Nassalete Miranda, que se trata apenas de uma pausa para refrescar o grafismo e criar um novo site na Internet, e promete que o Janeiro regressará às bancas em Setembro. Mas a redacção foi despedida em bloco e os jornalistas receiam não vir a integrar o novo projecto, que poderá passar pela conversão do jornal em gratuito. E não é de excluir que o título tenha a mesma sorte do Comércio do Porto, encerrado em 2005.
Se o fecho d' O Primeiro de Janeiro vier a confirmar-se, será um fim inglório para aquele que provavelmente chegou a ser, nos seus anos de ouro de meados do século passado, o melhor diário português.
Jornal da burguesia liberal do Porto, foi desde o início uma publicação assumidamente progressista. Nasceu da revolta dita da Janeirinha, provocada por um imposto de consumo que o ministro Joaquim António de Aguiar pretendeu impor no país. Os comerciantes do Porto encerraram as lojas, o povo saiu à rua, e o governo caiu. Em Junho desse ano, alguns dos promotores do movimento criaram o jornal A Revolta de Janeiro, que foi o antepassado directo d' O 1º de Janeiro, fundado no dia 1 de Dezembro, e que só no ano seguinte começou a grafar o nome por extenso.
Os homens que criaram o Janeiro não eram empresários jornalísticos. Eram intelectuais empenhados na luta cívica e política. Daí que, inicialmente, o diário indicasse, no respectivo cabeçalho, que era o órgão do Centro Eleitoral Portuense. Sabendo-se quão breve foi o tempo de vida médio das muitas dezenas de periódicos políticos que surgiram em Portugal na segunda metade do século XIX, o mais natural era o Janeiro não ter chegado sequer ao final da década. Imaginar, à época, que poderia vir a ser centenário, seria pura fantasia.
Pai e filho
O proprietário do jornal era o dono da tipografia que o imprimia, António Augusto Leal. O Janeiro vendia pouco e só sobrevivia graças ao financiamento de um abastado comerciante que fizera fortuna no Brasil, Gaspar Baltar. A dada altura, ainda em 1869, Baltar terá achado que, uma vez que o jornal vivia à sua custa, talvez não fosse má ideia ser ele a administrá-lo. Assumiu, pois, a orientação do Janeiro, cuja direcção viria depois a passar para o seu filho e homónimo.
Pai e filho salvaram o jornal. Em boa verdade, a história do Janeiro só começa com eles. Mantiveram uma linha editorial de oposição, mas não queriam um pasquim político; ambicionavam, sim, construir um grande jornal de informação. E conseguiram-no. O pai tinha jeito para o negócio. E não se intrometia na edição, que deixava a cargo do filho e de um grupo de homens de letras. Em 1870, o Janeiro, que já passara pelas ruas do Almada e pela da Fábrica, instala-se na Rua de Santa Catarina, onde passa a dispor de tipografia própria. Por esta altura, tirava três mil exemplares. No final da década, já ia em 15 mil. Em 1884, adquire uma inovação tecnológica que, ainda hoje, nenhum jornalista dispensa: o telefone. Só tinha uma linha, claro, e o número era fácil de decorar: 46.
Director por 40 anos
Nesse final do século XIX, consolida a imagem que ainda era a sua no pós-25 de Abril: um jornal liberal, mas sem vinculações partidárias óbvias, centrado no noticiário político e na cultura. Camilo, Alberto Pimentel, Guilherme de Azevedo, Guerra Junqueiro, Latino Coelho, Ramalho Ortigão, Antero de Quental, Oliveira Martins, Eça de Queirós, Gomes Leal, António Nobre, para citar apenas alguns, colaboraram regularmente nas suas páginas. Que jornal dos nossos dias se pode gabar de um elenco de colaboradores comparável?
E as primeiras grandes reportagens - o incêndio do Teatro Baquet, a revolta do 31 de Janeiro, a visita ao porto de Pedro II do Brasil ou as comemorações henriquinas de 1894 - eram assinadas por nomes como João Chagas ou José Maria Alpoim. O segundo veio a ser ministro da Justiça, e Chagas chegou mesmo a chefiar o Governo.
Baltar pai morre em 1899 e o filho assume a direcção, a meias com Joaquim Pacheco. É a segunda etapa do Janeiro, que se prolongará até 1919, quando a empresa é vendida a um grupo de financeiros de Lisboa, que coloca na direcção um jornalista vindo do Século, Jorge de Abreu. Esta administração dura apenas quatro anos, mas é no seu consulado que o Janeiro se muda para um majestoso imóvel, na mesma Rua de Santa Catarina, onde iria manter-se até ao início dos anos 90, quando o prédio, que ocupava quase um quarteirão inteiro, é vendido à Sonae e convertido no shopping Via Catarina.
Em 1923, o jornal é de novo vendido, desta vez a uma empresa detida, entre outros, por Manuel Pinto de Azevedo e Adriano Pimenta, que assume a direcção. Uma sucessão de mortes leva a que o Janeiro, neste período entre as duas guerras mundiais, mude várias vezes de director. Adriano Pimenta morre em 1926 e regressa Jorge de Abreu, que co-dirige o jornal com Marques Guedes. Abreu morre em 1932 e, em 1936, Guedes deixa a direcção.
No dia 15 de Setembro desse ano, Manuel Pinto de Azevedo Júnior, filho de um dos proprietários, assume a liderança do diário. É uma data histórica para o matutino. Esse Janeiro que chegou à década de 70 como o jornal mais lido pelas classes média e alta do Porto e de todo o norte do país, foi, em grande medida, obra de Pinto de Azevedo, que se manteve em funções durante 40 anos, até 1976.
Um jornal pró-Aliados
Se o Janeiro sempre privilegiara a cultura, Pinto de Azevedo mantém a tradição. Boa parte dos mais relevantes escritores e pensadores portugueses do século XX colaborou nas páginas do suplemento literário do jornal, criado em 1942 e dirigido, entre outros, por Jaime Brasil, uma referência do jornalismo cultural português, e pelo poeta presencista Alberto de Serpa. Mesmo nestes últimos anos, apesar da progressiva decadência do diário, o Das Artes e das Letras continuava a ser, para muitos académicos e intelectuais portuenses, um dos raros espaços onde podiam intervir regularmente.
Pinto de Azevedo honrou também a tradição liberal do matutino e, em plena ditadura salazarista, manteve como colunistas figuras da oposição como Abel Salazar ou Norton de Matos.
É nos anos da Segunda Guerra que o Janeiro irá impor-se definitivamente como aquilo a que hoje chamaríamos um jornal de referência. Ostensivamente favorável à causa dos Aliados, quando o regime se inclinava ainda abertamente para as potências do Eixo, o jornal, equipado com a mais moderna tecnologia de impressão da época, publicava diariamente mapas detalhados, que assinalavam os avanços e recuos das forças em confronto. Que diário de implantação regional se atreveria hoje a abrir com a secção de Internacional? O Janeiro fê-lo durante décadas e não perdeu leitores por isso. Aos domingos, chegava a tirar mais de 120 mil exemplares. Em parte graças ao uso pioneiro da cor, e também à BD: o Príncipe Valente, Os Filhos do Capitão e as tiras do Zé do Boné e do Coração de Julieta.
E que jornal compraria um imóvel por puro sentido do dever cívico, como o Janeiro fez com a casa-oficina de Soares dos Reis, que adquiriu em 1938 para que ali pudesse ser instalado um museu que preservasse a memória do escultor?
Jornal de referência quando o termo ainda não se usava, liberal, independente, parecia ter todas as condições para vingar no pós-25 de Abril. Mas não vingou.
Pinto de Azevedo deixa a direcção em 1976, fazendo-se substituir por Alberto Uva, e morre dois anos depois. A sua viúva, que detinha 61 por cento das acções da empresa, cede-as, por um preço simbólico, a Freitas do Amaral, que, por sua vez, patrocina a criação de uma sociedade por quotas - o Consórcio Difusor de Notícias -, que ele próprio nunca integrará, e para o qual convida algumas figuras do CDS, designadamente Rui de Oliveira, Mário Gaioso e Miguel de Sousa. Estes administradores serão depois substituídos por outros nomes da confiança pessoal do então líder do CDS, como Carlos Pardal, Paulo Marques ou Augusto Ataíde. Para a direcção, entra Freitas Cruz, que se manteve em funções entre 1978 e 1981.
Agustina e as bolachas
Foi neste período que o Janeiro, que já dava sinais de alguma decadênci