Filho Único na Avenida, efectivamente, da Liberdade

Podia ser num espaço institucional. Mas não. Será nos quartos, salas e terraço do nº 211 da Avenida da Liberdade que alguma da música mais livre feita em Portugal poderá ser ouvida hoje

a É no nº 211 da Avenida da Liberdade, em Lisboa, essa via rápida no coração da cidade, onde não se passa grande coisa. Hoje, a partir das 21h30, pela terceira vez, ali se realizará um acontecimento peculiar, denominado Avenida, ideia da associação Filho Único, de Pedro e Nelson Gomes, que concentrará mais de uma vintena de projectos de música dos mais diversos quadrantes. Os mais próximos do rock, e respectivos hibridismos, serão recebidos pela combustão sonora de Afonso Simões + Manuel Mota ou Jooklo Duo + Tiago Miaranda dos Loosers, ou pelo rock incisivo dos The Act Ups e Time Machine. Quem gosta de dar-se à dança não vai perder o funaná ou o kuduro de Kotalume e DJ Marfox, ou as evocações dançantes dos Photonz e de Portable.
Sonoridades mais tranquilas ouvir-se-ão na guitarra de Tó Trips dos Dead Combo, nos diálogos entre Nuno Rebelo e Marco Franco ou nas divagações instrumentais do Norberto Lobo Trio.
Haverá ainda concertos mais próximos do silêncio, com Sei Miguel, Stellar Om Source ou PCF Moya, ou situações invulgares que poderão ser proporcionadas por Kazike ou pela actuação dos artistas plásticos Ana Santos e Pedro Barateiro. Único requisito exigido: que sejam prestações desafiantes, personalizadas, livres.
É um evento que poderia perfeitamente acontecer num espaço institucionalizado como o Centro Cultural de Belém, a Gulbenkian ou a Culturgest. É isso que acontece em tantos outros países. "Poderia ser num espaço desses", argumenta Pedro Gomes, "mas agrada-nos fazer isto na grande avenida, que não é, de Lisboa, num espaço sem identidade, onde podemos fazer o que nos apetece, precisamente por causa disso. Não existe nada. Ou seja, podemos fazer tudo".
Diariamente o espaço é coordenado pelo artista plástico António Bolota e ali tem ateliers de vários artistas como Francisco Tropa, João Queiroz ou Pedro Barateiro. Há cerca de um ano, a Filho Único realizou ali o primeiro Avenida, "feito com pessoas chegadas, ao nível estético e humano", conta Pedro Gomes, "porque não sabíamos como iria decorrer".
Situações invulgares
Correu bem, com imensa gente, circulando pelos corredores, de sala em sala, de quarto em quarto. O segundo, nas vésperas de Natal, correu melhor. Há avidez por acontecimentos capazes de encenar situações invulgares em espaços alheios aos circuitos habituais.
"É um evento que permite cruzamentos estéticos e sociais", argumenta Pedro Gomes. "Até pela forma espacial como funciona apagam-se barreiras. Um roqueiro pode chegar lá e acabar a noite a ouvir funaná e alguém que vai para dançar pode acabar a ver uma performance do Pedro Barateiro. Uma outra pessoa depara-se com o Sei Miguel e interroga-se porque é que nunca o tinha ouvido." "A surpresa é possível ali", conclui Nelson Gomes.
Segundo ele, o evento acaba por reflectir o que a dupla faz ao longo do ano, programando eventos para os mais diversos espaços (Maxime, Lux, B Leza, Galeria ZDB, Museu do Chiado ou a Sé Patriarcal de Lisboa) apostando em músicas onde a ideia de ousadia esteja sempre presente, independentemente das famílias, seja rock, improvisada, experimental, dança ou electrónica.
"A nossa actividade é plural, os nossos interesses são diversificados e gostamos de sugerir essa multiplicidade às pessoas", diz Nelson. "Desde o primeiro momento que uma das coisas que nos move é mexer com os espaços, e a cidade, onde trabalhamos mais, que é Lisboa. Queremos que, cada vez mais pessoas gostem de mais coisas, adquirindo tolerância, abertura e interesse por coisas completamente heterogéneas", completa Pedro Gomes. "A Avenida é isso: é um espelho reflector, dentro de um edifício, com vários quartos abertos para o exterior, que nos permitem ver o que é Lisboa, e Portugal, hoje em dia."
Nova geração de músicos
A dupla ficou conhecida na ZDB, em Lisboa, tendo aí concretizado a programação musical durante três anos, entre 2003 e 2006. Em 2007 formaram a Filho Único. Os americanos Animal Collective em Cacilhas, Panda Bear no B Leza, Charlemagne Palestine e Colleen na Sé Patriarcal, os Buraka Som Sistema no Ateneu Comercial de Lisboa ou o Festival Whre's The Love na ZDB são alguns dos muitos eventos com a sua marca. "Saímos da ZDB porque queríamos ter tempo para pensar no que estávamos a fazer", diz Nelson. "O volume de trabalho era incompatível com a renovação da actividade. Não havia espaço mental para reflexão e, esteticamente, já tínhamos feito o que tínhamos que fazer ali."
Em parte, graças à sua actividade, Lisboa conseguiu acompanhar nos últimos anos, em simultâneo, ou mesmo antes das grandes capitais, o eclodir de várias correntes e tendências musicais. Mas eles preferem destacar outro fenómeno: o impacto mais directo da sua actividade sente-se no brotar de uma nova geração de músicos portugueses libertos de amarras estilísticas. Formações como os Loosers, Caveira, Gala Drop, Frango, Fish And Sheep, Tropa Macaca ou Aquaparque, compostas por músicos familiarizados com a atitude e os espectáculos delineados pelos Filho Único.
"O objectivo inicial, em 2003, era trazer a Portugal bandas que não vinham aqui regularmente, diz Nelson. Depois, as ambições foram aumentando. "Existem muitas ilhas em Portugal, mesmo nas músicas independentes e de vanguarda. Acreditamos numa estrutura que ligue, de igual forma, músicos distintos, de gerações diferentes", diz Pedro Gomes. "O Avenida serve para isso."

Avenida

Tó Trips, Norberto Lobo Trio, Sei Miguel, Nuno Rebelo e Marco Franco, entre outrosLISBOA Avenida da Liberdade, nº 211. Hoje, às 21h30