O burqini à conquista do mundo

60 anos depois do biquíni, é a vez da revolução burqini. Porque "os biquínis estão a ficar mais pequenos e as mulheres estão a crescer" ou porque
as mulheres que não querem mostrar o corpo também não querem ficar em casa

a Sempre nadou na piscina Hanzebad, em Zwolle, a 120 quilómetros de Amesterdão. Liselotte Buitelaar, holandesa convertida ao islão, usa véu na rua e prefere um fato-de-banho que lhe tape pernas e braços. Há dias, pediram-lhe que saísse da água. Os responsáveis explicaram depois que estava vestida de forma "chocante" e "assustava" as outras nadadoras. E sem necessidade - há horas destinadas às muçulmanas na piscina de Zwolle. O que esta holandesa tinha vestido chama-se burqini e foi inventado há cinco anos na Austrália. "Não percebo o escândalo. Parece um fato de jogging, mas é próprio para nadar", disse Buitelaar ao diário Volkskrant.
Aheda Zanetti não escolheria exactamente estas palavras para descrever o "seu" burqini. "Único em design", "elegante", "confortável, "viciante." Ou mais simplesmente: "É algo que vai ficar para sempre".
Zanetti não poupa adjectivos. Mas percebe-se. Afinal, ela inventou um fato-de-banho a pensar que lhe seria útil. Que talvez interessasse a jovens muçulmanas australianas, rodeadas de praia, como ela. Melhor seria criar uma empresa, a Ahiida. E de repente, no ano passado, o mundo descobriu-a e esse passou a ser o seu limite. "O site bloqueou e esteve três meses em baixo", recorda. "A verdade é que eu não estava preparada para o mundo."
Voltemos um pouco atrás. Mesmo porque não há qualquer garantia de que o burqini usado por Liselotte Buitelaar seja mesmo de Aheda Zanetti.
Com quatro filhos, Zanetti está no segundo casamento. É australiana, mas nasceu no Líbano, de onde saiu aos dois anos. Usa véu, mas nem sempre usou. Um dia ficou a olhar para a sobrinha enquanto esta jogava ténis, movendo-se a custo para dominar a raqueta debaixo de roupas compridas e largas. Pensou então no quanto gostava da praia e em todos os mergulhos que tinha perdido por não ter a roupa adequada.
"Quando comecei a pensar mais a sério, procurei o que havia no mercado e não encontrei nada como o que tinha na cabeça. Sabia quais eram as minhas necessidades. Tinha a certeza de que não queria tecido a mais a impedir-me os movimentos. Até foi fácil. O desenho pelo menos - eu fui a minha modelo. Mas levei dois anos a descobrir o material ideal. É que há muitos tecidos úteis para os biquínis que não servem para o burqini", contou ao P2, ao telefone na sua loja em Sydney.
Determinada, queria o produto perfeito: "de boa qualidade, confortável, que permitisse nadar à vontade e fosse bonito". Quando se deu por satisfeita chamou-lhe burqini. Porquê? "Biquíni significa fato-de-banho em duas peças. A burqa é um fato que algumas mulheres no Médio Oriente usam para tapar todo o corpo. O que eu criei é um fato-de-banho em duas peças que cobre todo o corpo. Um fato-de-banho islâmico."
100 por cento fabricado em polyester, com protecção 50 aos raios ultravioletas, resiste ao cloro, absorve pouca água e seca rapidamente. Existe em várias cores e em todos os modelos (menos no preto e liso) se constata um pormenor: a única parte estampada é estrategicamente aplicada no peito, "para um pouco de modéstia extra".
Aheda Zanetti continua encantada com o seu burqini. "É usado por muitas mulheres que não são muçulmanas. Algumas têm problemas de saúde, outras querem usar quando estão grávidas, algumas só querem andar mais tapadas." Diz que "é uma mudança de estilo de vida". "Só de pensar que nunca éramos encorajadas a nadar. E agora ninguém consegue tirar estas mulheres da água. Saiam! Vá lá, de certeza que têm de cozinhar", brinca.
Marca registada
A cronologia não é fácil de fazer. Mas é indiscutível que nos últimos dois anos as marcas de fatos-de-banho pensadas para mulheres com preocupações de sobriedade em todas as religiões conquistaram o mundo. E que quando o alvo são as muçulmanas, o nome inventado por Aheda Zanetti pegou. É por isso que ela tanto insiste que o nome burqini se refere apenas ao Ahiida Burqini Swimsuit, "a mais nenhum produto ou modelo".
Hoje, há um sem número de marcas que começaram como a de Zanetti: uma muçulmana a pensar nas suas necessidades. Em Málaga há uma empresa que oferece o Bodykini, "um fato-de-banho desenhado para elevar a performance atlética mantendo o respeito pelos princípios corânicos do pudor". No Canadá, Abeer Al-Azzawi, com apenas 24 anos, é dona da Queendom Hijabs, uma linha de hijabs desportivos a pensar "na mulher que passa pelo ginásio, vai à escola, tem um emprego, e ainda quer mostrar-se modesta e ter estilo".
Na Indonésia, com sucursais no Médio Oriente, Austrália e Sudeste Asiático (e padrões diferenciados para os vários mercados), a Zehba oferece fatos-de-banho "com um design incrível combinado com tecidos de qualidade superior" com os quais as mulheres se sentirão "cobertas e seguras nas tradições islâmicas".
As marcas turcas foram pioneiras, mas tiveram de se renovar, depois de concluírem que era preciso dar tanta importância ao estilo como à quantidade de corpo que os seus fatos cobriam. Antes ofereciam apenas modelos mais parecidos com fatos-de-treino impermeáveis do que com fatos-de-banho.
Loira de olhos azuis
Muito antes destas marcas feitas por muçulmanas e para muçulmanas verem a luz do dia, em 1999, na Holanda, uma jovem designer sentiu curiosidade em relação às raparigas que via sempre com os mesmos hijabs negros. "Eram da minha idade e usavam roupas muito pouco atractivas", explica Cindy Van Den Breman.
Interessou-se ainda mais depois de uma polémica com o hijab - um tribunal holandês decidiu que, por razões de segurança, os professores de educação física poderiam expulsar uma aluna que usasse hijab. E a designer que estava a ponto de se formar, acabou por terminar o curso com um projecto destinado às muçulmanas.
A medo, procurou a ajuda das interessadas. "Estava assustada. Eu não sou muçulmana. Será que tinha o direito de me interessar? Deixariam uma loira de olhos azuis ocupar-se das suas necessidades?", disse ao P2. As reacções não podiam ter sido melhores e em menos de nada nascia a Capsters, uma linha desportiva em quadro modelos - aeróbica, skate, ar livre e ténis -, de desenhos e cores simples e fortes.
Desde que Van Den Breman se pôs a olhar para as raparigas da sua idade e uma holandesa foi expulsa da piscina de Hanzebad, em Zwolle, passaram quase dez anos e muitas discussões sobre o hijab e a burqa (que um partido já quis proibir) na Holanda.
Entretanto "o grupo de raparigas e mulheres que se cobrem cresceu", nota. "Sentiram-se estigmatizadas e tornaram-se mais consciente da sua identidade." Há mudanças positivas, desde logo no estilo: "Estas raparigas hoje estão mais na moda do que muitas holandesas. O hijab é apenas uma parte, combina com a mala, com os sapatos, já é um acessório e não apenas um item religioso".
Mas falar na holandesa expulsa da piscina por usar burqini é também olhar para um país que, na sua opinião, mudou para pior. "Às vezes tenho alguma vergonha. Vivíamos num país conhecido pela tolerância, pela abertura, e transformámo-nos numa sociedade xenófoba."
A Yuka Nakamura, doutoranda em Educação Física e Saúde na Universidade de Toronto que tem estudado a participação das muçulmanas no desporto, agrada que estas raparigas tenham mais por onde escolher. Mas defende que a prioridade é flexibilizar as regras. "Não é mais importante garantir a participação de raparigas que à medida que chegam ao liceu são cada vez menos activas, do que saber se elas vão para as aulas de educação física com calças em vez de calções curtos?", pergunta.
Pudor judeu e cristão
Muito longe de Sydney ou Toronto, em Jerusalém, Galia Peled também criou uma marca de roupa destinada a quem quer desfrutar da praia com pudor. E que era antes de mais para si própria.
"À medida que os meus filhos cresciam, descobri que cada vez desfrutava menos das férias por não ter nada para vestir com a modéstia apropriada. Não queria ir para uma praia só de mulheres quando o meu marido e os rapazes estavam na praia dos homens", diz ao P2. "No meu país, muitas mulheres vão para a água completamente vestidas, mas acredite que também não é nada divertido."
A solução de Galia Peled foi encontrar a sua própria solução. "Inicialmente, esperava que a minha roupa de banho fosse bem recebida por outras judias religiosas como eu, mas muito depressa percebi que não era assim. Despertou muito interesse entre cristãs nos EUA e o mais emocionante para mim, enquanto israelita, estão a ser as vendas para muçulmanas em todo o mundo."
Nos EUA, os fatos Princess desta israelita enfrentam muita concorrência. Há a Aquamodest, dirigida à "comunidade judaica ortodoxa" e "às mulheres que iam à praia, lago, piscinas e parques aquáticos em vestidos de algodão". Há os fatos Swim Modest e as SwimShirts, desenhados por Diane Hopkins, uma mãe de sete filhos, cansada de "esperar que as lojas tivessem escolhas mais decentes". E há a marca Modest Swimwear de Crystal E. Huyben, que cresceu numa família de quatro irmãs, onde todas queriam "agradar ao Senhor na forma de vestir" e não ter de "baixar os padrões".
Grandes marcas resistem
"As mulheres estão a crescer e os biquínis estão a ficar mais pequenos", nota Aheda Zanetti, a australiana que acha que o seu burqini é tão revolucionário como foi o biquíni.
Sessenta anos depois do biquíni, as grandes marcas hesitam em explorar este novo filão. Cindy Van Den Bremen diz que muitos fabricantes repararam nos seus Capsters "mas não quiseram queimar-se". Abeer al-Azzawi contactou grandes empresas para lhes oferecer as suas Queendom Hijabs, mas estas recusaram.
A Nike, por exemplo, patrocina a velocista do Bahrein Ruqaya al-Ghasara, que o mundo vai ver em Pequim - Ghasara corre com um fato completo e hijab (até já usou um com o símbolo da Nike, segundo a marca por iniciativa própria). A mesma empresa já se juntou à ONU para equipar voleibolistas somalis num campo de refugiados no Quénia - uniforme completo. A Speedo vestiu a selecção de natação paquistanesa para os Jogos da Commonwealth em Manchester, há seis anos. Mas nenhuma marca se lançou neste mercado. E só muçulmanas são mais de 650 milhões no mundo.
Yuka Nakamura não lamenta esta resistência. Fica o negócio para as pequenas empresárias. Mas discorda: "Presume-se que apoiar o desejo das mulheres taparem o corpo é sexista e patriarcal. Mas outros podem argumentar que sexista e patriarcal é dar-lhes calções curtos e tops de alças como "a melhor" roupa para fazer exercício".