Morreu Alexandre Babo, um homem com sete décadas de teatro e luta antifascista

Alexandre Babo fundou a Associação Portuguesa de Escritores e o Teatro Experimental do Porto
a Em sete décadas da história portuguesa foi advogado, dramaturgo e crítico de teatro, lutou contra o fascismo e a persistência do clero nos círculos de poder político, legal e civil. Alexandre Babo, fundador do Teatro Experimental do Porto e da Associação Portuguesa de Escritores, morreu sexta-feira, em Cascais. Tinha 91 anos.
Muitos poderão não reconhecer hoje o seu nome. "A falta de memória faz esquecer pessoas fundamentais da nossa cultura, nomeadamente nas artes de palco", disseram à Lusa a actriz Alina Vaz, sua amiga desde a década de 1960, e o encenador João Mota, que sublinha o seu papel na luta antifascista antes do 25 de Abril.
"Era um homem absolutamente apaixonado pelo teatro, bem-disposto, inteligente, culto e simpático", disse Alina Vaz, referindo ainda o seu papel "interventivo em prol dos direitos dos actores e de todos os ligados ao teatro". Júlio Gago, da direcção do Teatro Experimental do Porto, que foi seu amigo, recordou "o homem de tertúlia e debate, o espírito vivo e o resistente ao regime fascista".
Nascido em Lisboa em 1916, Alexandre Babo chegou à Faculdade de Direito de Lisboa em 1933 e três anos depois à Maçonaria, parte da Acção Anticlerical e Antifascista e do Bloco Académico Antifascista, onde lutou contra o salazarismo (como advogado, interveio nos julgamentos do Tribunal Plenário do Porto em defesa de acusados políticos). Fez também parte do Conselho do Porto do Movimento de Unidade Democrática e da Comissão Distrital da Campanha do General Norton de Matos. Em 1941 fundou com Amaral Guimarães e Abílio Mendes as Edições Sirius. Após o fim da Segunda Guerra Mundial mudou-se para Paris como delegado da revista Mundo Literário.
Foi director do Círculo de Cultura Teatral e do Teatro Experimental do Porto e, em 1959, fundou no Porto, com Luís de Lima e Fernando Gaspar, o Teatro Moderno. Em 1960 mudou-se para Londres, onde foi correspondente e cronista do Jornal de Notícias. Voltou para Lisboa quatro anos depois, quando começou a fazer crítica de teatro. Em 1973 foi um dos fundadores da Associação Portuguesa de Escritores.
Segundo o site da Sociedade Portuguesa de Autores, terá publicado 17 obras, sete de teatro - entre as quais Encontro e Jardim Público - e dez de ficção - por exemplo, Na Pátria do Socialismo e No Meu Tempo.
O seu corpo está hoje em câmara--ardente na Igreja Paroquial da Parede. O funeral é amanhã, em horário a anunciar.