Encontros internacionais de música com novo fôlego

A trompa é o instrumento em destaque num ano em que o festival não recebeu apoio do Estado e o seu director também vai fazer de DJ

a É ao som da trompa que começam hoje os encontros internacionais de música de Guimarães. Entre dificuldades e mudanças, parece haver um novo fôlego deste festival dedicado à música clássica. É pelo menos o desejo de António Saiote, destacado maestro e clarinetista, que assumiu no ano passado a direcção artística dos encontros, resultado da fusão de dois acontecimentos diferentes em Guimarães - os Cursos internacionais de música e os Encontros da Primavera.Para além de cursos e masterclasses para músicos de vários níveis, os encontros incluem uma série de concertos. "Há uma ligação entre professores e intérpretes: se convidamos tão grandes professores, não faz sentido convidar outros para serem intérpretes. É juntar o útil ao agradável", diz o maestro António Saiote. Uma das artistas de renome que fará essa dupla função de professora e intérprete num recital no dia 14 de Setembro é a pianista japonesa Nami Ejiri, premiada no concurso Vianna da Motta em 2001.
Modelo internacional
António Saiote explica que o modelo encontrado, de fundir a vertente formativa (os cursos) e os concertos, "é o modelo de alguns festivais do estrangeiro, como os de Marlboro, Aspen [ambos nos E.U.A] ou Oviedo". O director artístico dos encontros diz que, para começar, "tem de deixar de haver um muro entre Portugal e Espanha". António Saiote lembra que estão aqui mesmo ao lado instituições que Portugal devia aproveitar melhor: "Há a escola de Oviedo, mas há também boas orquestras como a da Corunha ou de Santiago. Há um desperdício muito grande", diz.
A trompa é o instrumento em destaque este ano, com o Ensemble português de trompas a abrir hoje o programa no Largo da Oliveira, num concerto com entrada gratuita.
No dia 6 de Setembro será a vez de se apresentarem dois clarinetistas portugueses premiados internacionalmente, David Silva e Horácio Ferreira. Franz Schubert é homenageado no dia 7 com um recital de António Salgado (barítono) e Angel Gonzalez (piano), que interpretam o ciclo de canções A Viagem de Inverno e no dia 15, em que será tocado o Octeto daquele compositor, a fechar os encontros. Antes disso, no dia 8, Gerardo Ribeiro (violino) e Gonçalo Pescada (acordeão) tocam, respectivamente, As Quatro Estações (Vivaldi) e Las Cuatro Estaciones Porteñas (Piazzolla), com a Orquestra Filarmónica das Beiras dirigida pelo maestro António Saiote. Os encontros incluem ainda apresentações de alunos em vários locais da cidade e outras actividades: danças de salão, sessões de poesia, ateliers de expressão corporal. E até António Saiote vai ser DJ num dos dias: "Vou passar a música de que gosto, mas os meus filhos também sugerem coisas", diz o maestro.
A maior parte dos concertos realiza-se no Centro Cultural Vila Flor que, segundo António Saiote, "tem condições excelentes e está muito bem enquadrado na cidade." Mas nem tudo são rosas. Saiote lamenta que este ano o evento não tenha apoio do Estado e diz não perceber porquê: "Os encontros não receberam apoio da SEC [Secretaria de Estado da Cultura] e não é pelo trabalho que lá se faz, porque há muita qualidade." Para o director dos encontros "é pena também que o turismo não esteja ligado à cultura. Era fundamental um esforço nesse sentido. Ainda por cima se Guimarães é candidato à capital da cultura 2012...". Para dar esse salto, segundo Saiote, falta dinheiro e uma orquestra: "Guimarães terá que ter uma orquestra, que é uma estrutura fundamental. Mas essas coisas custam dinheiro."