A frente de rio e o cenário verde da Margem Sul

Dois problemas essenciais de Lisboa de que ninguém fala

Entre os inúmeros problemas do património e ambiente da cidade de Lisboa que têm sido identificados e discutidos nestas eleições, não se tem falado em dois aspectos de que depende a qualidade do sítio e os valores que caracterizam Lisboa: a sua frente de rio e o "cenário" que a Margem Sul, ainda bastante verde, lhe proporciona.Para além do salvamento da Baixa, são os aspectos que considero mais relevantes para o futuro de Lisboa. Isto porque se situa na margem do maior rio da Península, sobre cujo estuário se debruça, e todas as suas vistas têm por horizonte a outra margem escarpada.
1. Lisboa está, porém, completamente separada do rio pela linha do comboio, que ia inicialmente de Pedrouços a Cascais mas foi prolongada, em 1895, para partir do Cais do Sodré. Inicialmente motivo de progresso e júbilo, esta linha transformou-se com o tempo numa barreira e limite à fruição da sua condição de cidade ribeirinha.
Quando fui responsável pelo projecto do CCB, procurei que o enterramento da linha na frente monumental de Belém permitisse, pelo menos nessa zona, ligar a cidade ao rio. O despacho conjunto da secretária de Estado da Cultura e do secretário de Estado das Obras Públicas de então, que ia permitir a construção de uma vala a céu aberto para rebaixar o comboio desde a Torre de Belém até à Cordoaria, esteve para ser assinado no fim de 1989. Porém, a mudança de governo entretanto ocorrida, fez esquecer o projecto, apesar de o ritmo dos comboios e a consequente eliminação em Lisboa de todas as passagens de nível da linha de Cascais terem reforçado o seu carácter de barreira intransponível. Lisboa é uma cidade com o enorme potencial que a longa frente de rio permitiria mas que aceita, conformada, que esta lhe tenha sido subtraída: para se aproximar do rio constrói viadutos, cada um de pior gosto.
Entretanto, o tempo que decorreu desde 1989 permite pensar numa solução melhor para ligar Lisboa ao rio que a do enterramento parcial da linha férrea na frente de Belém. Isto porque a sua ligação ao metropolitano no Cais do Sodré e, futuramente, em Santos e Alcântara, veio mostrar que o que importa é exactamente ligar a linha de Cascais e a rede do metropolitano, não tendo essa ligação que ocorrer no Cais do Sodré. Por exemplo, levando uma linha de metropolitano até Pedrouços, onde há terrenos suficientes para alojar uma estação de transbordo, que até pode ser semienterrada. Os comboios voltariam à linha de Pedrouços a Cascais e Lisboa ficaria, de uma penada, liberta de toda a barreira da linha férrea. Os resultantes benefícios, nomeadamente económicos, compensariam certamente o investimento necessário.
2. O outro problema condicionante do futuro de Lisboa consiste na manutenção do "pano de fundo" que confere valor estético a todos os seus pontos de vista sobre o estuário do Tejo e que é a "outra banda", verde e de silhueta recortada nas escarpas ribeirinhas do concelho de Almada. É necessário assegurar que este "fundo" da cidade não desaparece. Corre, porém, sérios riscos, pois os lisboetas pensam que a outra margem, sendo íngreme, não é propícia à ocupação por construções e vivem distantes das transformações que aí ocorrem. Por outro lado, como a salvaguarda desse "cenário" verde interessa quase só a Lisboa mas não se situa em Lisboa e sim nas "traseiras" de Almada, os lisboetas não têm ocasião de se pronunciar sobre essas transformações e de controlarem a ocupação da "outra banda".
Em 1990, travei, juntamente com Carlos Pimenta, uma bem-sucedida luta contra o projecto que se designava por "Fecho da Golada" e que consistia no prolongamento, até ao Bugio, do cais de descargas da Trafaria. Com esse projecto, as gruas que se avistam da Torre de Belém teriam bloqueado completamente o horizonte da barra do Tejo. O que se vem passando ao longo da "outra banda" é menos violento, mas pode vir a ter efeitos semelhantes. De facto, todos os anos nascem no outro lado do rio mais silos, mais fábricas no sopé e a meia encosta e surgem novos prédios a rasgar, embora ainda ao longe, a silhueta natural da Margem Sul.
A solução passa por um entendimento entre os municípios de Lisboa (que é quem deve mobilizar o processo) e de Almada, de modo a que, com o apoio do Governo e colaboração do Porto de Lisboa, seja elaborado um Plano de Salvaguarda e Valorização da "outra banda". Será um exercício sem precedentes - o planeamento "em alçado" de um estreito território -, mas uma ocasião ímpar para os lisboetas descobrirem e apreciarem os valores da sua cidade e da paisagem em que se insere. Professor catedrático do IST