Mapa de Lisboa no tempo em que todos tinham escravos

O etnólogo Jean-Yves Loude lançou em 2005 um livro sobre a presença dos negros em Lisboa. O África Festival convidou-o a refazer o seu percurso por essa Lisboa negra

a Quando passeia por Lisboa, o etnólogo francês Jean-Yves Loude vê uma cidade que poucos vêem. O autor de Lisboa na Cidade Negra (Dom Quixote) voltou à cidade a convite do África Festival - que termina hoje à noite no cinema São Jorge com o documentário Lusofonia A (R)evolução (às 22h) - e refez os passos que tinha feito há alguns anos em busca da tal cidade negra. Vamos, então, guiados por ele. O percurso começa no número 4 da Travessa da Peixeira, em São Bento, o "centro do triângulo crioulo", que é "o melhor lugar de observação para fazer esta pesquisa", explica Loude, cabelo meio despenteado, sorriso constante, entusiasmo inabalável quando se trata de falar deste tema.
Foi nesse número 4 que morou durante algum tempo, recorda. E de repente, com o seu sotaque francês cerrado e os rrrs muito enrolados lança-se a cantar uma morna de Bana que fala da Travessa da Peixeira e dos perigos de cair na sopa de peixe e nos encantos das sereias cabo-verdianas.
Quando, vindo de Cabo Verde onde viveu muitos anos, e decidido a procurar informação sobre esse país em Portugal, Jean-Yves chegou aqui pela primeira vez não tinha ainda a ideia de fazer um livro sobre a "cidade negra". Mas estava disponível e essa cidade revelou-se-lhe aos poucos, naquilo a que chama "uma espécie de Jogo da Glória" que reproduz no livro como uma investigação em busca de uma mulher misteriosa de quem o protagonista só ouviu a voz.
E esse percurso de Jean-Yves oscila sempre entre a cidade de hoje - da Cova da Moura à Feira do Relógio e de conversas com General D a jantares em restaurantes africanos - e a cidade do passado. É dessa que nos fala agora. "No início do século XVI e no século XVII os negros formavam dez por cento da população. O livro vai à procura dessa memória silenciosa, escondida". Por exemplo, o Cais do Sodré e o largo da Câmara, do pelourinho, locais de chegada, de venda e de castigo dos escravos, que eram normalmente leiloados ao lado de cavalos e outros animais.
"A Casa dos Escravos está assinalada nos mapas do século XVI, numa zona próxima da actual Praça do Município", escreve Jean-Yves no seu livro. "Ao desembarcar, os escravos eram agrupados em pavilhões, na Casa dos Escravos. Aí eram registados, divididos em lotes e submetidos à inspecção meticulosa dos potenciais compradores". Mas nem todos estavam em condições de serem leiloados. "Alguns eram muito fracos, magros", conta o autor ao P2, "e havia famílias especializadas na engorda dos escravos fracos".
Jean-Yves continua a guiar-nos nesse percurso pela cidade. "Vamos depois ao Rossio, ao Largo de São Domingos - a Ginginha, na esquina, é um bom ponto de observação da presença africana hoje", diz. Mas há dois ou três séculos aquele era o sítio dos caiadores negros que ali se ofereciam para trabalhar. "Os negros trabalhavam em todos os lugares, como pescadores, estivadores, nas minas, nas forjas, em Alcácer do Sal nas salinas". As mulheres eram empregadas nas casas, ou alugadas ao dia, à semana ou ao mês para venderem, nas ruas, mexilhões, tremoços ou favas.
"Memória escondida"
Para os negros ficavam as tarefas que os brancos não faziam e que Jean-Yves descreve no livro: "As casas não têm comodidades. Existe apenas uma sala ou um armário onde está colocado um grande recipiente de barro que recebe, note bem o eufemismo, as contribuições familiares da semana. Quando está cheio há duas soluções: despejar as matérias fecais na rua depois das dez da noite, por vezes sobre a cabeça dos transeuntes, ou encarregar uma negra de despejar o pote longe, isto é, nas águas douradas do Tejo".
"Sabe qual era a diferença entre o rei e uma prostituta?", continua Jean-Yves. "Nenhuma. Ambos tinham escravos para trabalhar para eles. Dizia-se que os únicos que não tinham escravos naquele tempo em Lisboa eram os mendigos". Essa presença africana ficou registada em alguns quadros ou esculpturas que ainda podem ser vistos na cidade: no Museu do Chiado, com a cabeça de um jovem negro atribuída a Soares dos Reis e Os Negros de Serpa Pinto, de Miguel Ângelo Lupi; no Museu da Cidade, com a gravura O Menino Jesus, o Aguadeiro e o Dragão Português; numa imagem do Chafariz do Rei (em Alfama) no século XVI, que mostra a importância dos negros como aguadeiros; ou até nos quatro santos negros que se escondem na capelinha de Nossa Senhora do Rosário, no interior da Igreja da Graça.
A partir de metade do século XVIII as leis impediam a importação de escravos, e o número de negros em Lisboa começou a diminuir significativamente. Mas nunca desapareceram. "No Dicionário do Fado, de 1903, diz-se que os melhores cantadores de fado do século XIX são os cocheiros negros", sublinha Jean-Yves.
O que o etnólogo encontrou quando chegou pela primeira vez a Lisboa foi uma cidade muito mais negra do que ela própria estava preparada para admitir. Por isso é que fala de uma "memória escondida". Agora que regressou mais uma vez para participar no Festival África confessa que esta história da ligação dos negros a Lisboa, no passado e no presente, é para ele "uma fonte de alegria". Mas, acrescenta, com um gesto de desânimo: "É cedo para partilhar esta visão. Ainda somos muito poucos a pensar assim".