Em Paris, com a Patti Smith Histórias do fã português

O líder fundador dos UHF, António Manuel Ribeiro, foi a Paris assisitir a dois concertos da "mulher que não vem nos tops". Da experiência saiu este "texto de afectos"

a Quando em 1975 o rock crescia em pressão dos dois lados do Atlântico, encontrei-me numa montra de Almada (ainda havia discotecas de rua) com a capa do LP Horses de Patti Smith, logo aqui a marcar a diferença, um grupo com uma líder destacada dos outros acompanhantes, Patti de Nova Iorque, da Greenwich Village, poesia de Rimbaud e Verlaine à sombra de Morrison, o rock renascia para mim na entoação iniciática de "Jesus died for somebody"s sins but not mine..." (em Gloria, de outro Morrison, nascido na Irlanda).Com o palco em penumbra roxa despido de artefactos, o anúncio de não se poder fumar, tirar fotos ou gravar o espectáculo fez a maralha sentada no chão erguer-se para a primeira manifestação de ansiedade: homens de fato grisalhos, secretárias, estudantes, alguns freaks, exibicionistas de algumas minorias, intelectuais com farda de intelectuais, gordos e gordas, magros e magras mal vestidos saídos de algum trabalho à pressa, por grosso opositores deste Sarkozy mal amado que admira as reformas da Segurança Social que Sócrates inventou, alguns adolescentes porque talvez, se calhar apenas um português, outros, há sempre outros entre os uns e os outros em Paris, a sala cheia, esgotada para os dois dias, e a Patti Smith de regresso ao seu meio de cumplicidades.
Penso que alguma da chamada "esquerda americana", os não alinhados pelo escrutínio da eterna conspiração de todos contra nós, procuram na Europa, nesta cidade que tem o poder de respirar histórias da história em cada persiana corrida, em cada cruzamento, em cada candeeiro iluminando sombras, a lavagem de todas as culpas que as sucessivas invasões americanas (inclui as económicas) justificam estonteantemente e das quais a new age se pretende dirimir. Estávamos todos lá, por todo o nosso passado tocado por esta mulher que não vem nos tops.
De alguma forma, em dois dias seguidos (28 e 29 de Maio) na sala do velho Olympia, juntaram-se vozes à intenção de Bono em confrontar os mandaretes do G8 que fazem de deuses na Terra, com reunião marcada na Alemanha. Porque também é disso que trata um concerto da Patti Smith: o poder da palavra a chamar o povo, a improvisação contínua e solta, tocar o contemporâneo das nossas vidas em discursos politizados, o caminho pela espiritualidade que nos envolve, tudo impulsionado pela força da guitarra eléctrica, a justeza contínua do baque da bateria, o tempo lento, a pulsação cardíaca e o espaço escolhido para as palavras - lava-te no rock e muda o mundo, ouvir-se-á. E o chão tremeu, o chão do velho teatro, naquelas duas noites sem cadeiras na plateia, a sala mítica dos anos 1960/70 que exibe imagens gigantes de um certo Jimi Hendrix que por ali andou em feedback, antes de sucumbir ao vómito mortal em 1970, Hendrix revisitado nas duas noites com Are you experienced?, que pertence ao lote de Twelve, o CD de versões editado recentemente. Olho o longo corredor que nos leva à sala e sente-se o encantamento das noites de Piaf e Amália e Aznavour, e uma plêiade de famosos vocais de todos os quadrantes e estilos.
O alinhamento
Ao longo dos dois concertos ouvir-se-á Helpless de Neil Young, a fechar o único regresso ao palco na primeira noite; Gimme shelter dos Stones no segundo dia, e ela tinha todo o abrigo garantido pelos amigos de Paris; Within you without you nos dois concertos, celebrando os 40 anos sobre a edição de Sergeant Pepper"s Lonely Hearts Club Band, que uma rádio americana iria meter no ar às zero horas desse dia, dir-nos-á, com a jovem Patti mortificada pela ansiedade adolescente; White rabbit da veia alucinogénia dos Jefferson Airplane, cuja introdução, no primeiro dia, entrou pelo improviso puro de uma Patti adormecida no trajecto de autocarro desde a Bretanha, olhando por entre a névoa da manhã um Olympia sem janelas como um submarino, que a conduziu às apalpadelas no escuro ao submundo parisiense, às cegas, por inscrições na parede, nem sumérias nem egípcias, túneis e fossas, entre excrementos e urina (Pissing in a river, mais tarde), eu a pensar que ela ia chegar ao Père Lachaise e encontrar o túmulo vazio do poeta americano que adormeceu na banheira em 71, mas não, o coelhinho ácido de São Francisco ia fazer das suas (Soul kitchen dos Doors a seguir com balanço e refrões ao alto), a banda a pulsar, um convidado que poderá chamar-se Akim (?) sentado para dedilhar uma complicada guitarra de oito cordas, e o coelho branco que a voz de Grace Slick imortalizou a fazer a sua entrada, os jovens de há trinta/quarenta anos em delírio, LSD e viagens na memória, o primeiro sexo e os falhanços, descobertas com cheiro a incenso e mortalhas na mortalha do tempo como os vestuários fardados da vida profissional - o que temos, não o que somos - exorcizados pelo estímulo do rock.
E para o fim desta análise um dos temas mais brilhantes de Twelve, Smells like teen spirit dos Nirvana, pois claro, que era disso que tratava esta nova reunião com a velha Patti que se esconde em Nova Iorque, a Patti que amou Fred Sonic Smith (Kick out the jams, brothers and sisters...), que se afundou em mutismo depois da sua morte, apesar do pedido do seu único marido para continuar a revolução, intimidade que ela revela no brilhante texto escrito ao entrar recentemente para a galeria do Rock and Roll of Fame.
Patti trouxe o mesmo casaco escuro de 2005 no primeiro dia e uma casaca no segundo. Quis ler Rimbaud na noite do dia 28 e a banda seguiu-a, pediu que lhe trouxessem os óculos para fixar as letras no livro aberto e quando os ajustou no rosto vi por ali passar em nanossegundos os espectros de Joey Ramone e John Lennon, ambos desaparecidos em Nova Iorque, ambos usando óculos redondos, risco ao meio no cabelo longo ondulado, intérpretes de um descontentamento geracional, e um espectro com o tamborim da capa do novo CD, rastos e restos ameríndios, minorias e genocídio, progresso, Jim Morrison de carro com os pais no deserto e os bocados do acidente espalhados (é uma história biográfica).
"We love you, Pattí"
Da sua discografia retiro as prestações de Free money (de Horses, 1975) nos dois dias, para nosso delírio; Ain"t it strange e Pissing in a river (de Radio Ethiopia, 1976); Because the night até às lágrimas com as entranhas da sala a bufarem sob o nosso peso, Privilege (Set me free) e, sobretudo, Rock and roll nigger, que a levou no primeiro dia a saltar para o fosso de segurança à frente do palco, induzindo um discurso político sem rédeas de chamamento das consciências (todos somos negros neste mundo de prisioneiros, juntem-se, unam-se, sejam a irmandade, desçam à rua, sejam milhares, milhões, façamos a revolução...), todos pertencendo a Easter (1978); Frederick (que abre Wave, 1979) e fala de Fred Sonic Smith como professor de clarinete, instrumento que ela irá tocar episodicamente nos dois dias, Fred que foi guitarrista dos MC5 de Detroit, visionário como ela; People have the power, conduzindo um novo momento de exaltação cívica (de Dream of life, 1988); e para o fim o auge natural como um orgasmo colectivo, ribombando nas entranhas de Paris: Gloria, que fechará os dois concertos antes do regresso ao palco para mais três canções, unindo as vozes de todos os franceses que pronunciam peculiarmente "We love you, Pattí", assim, com um forte e agudo acento no i, um momento de intensa comunhão que nos gratifica por termos estado ali a beber as palavras e as imagens de uma personagem de encanto diferente, enquanto os tempos escorrem; por fim o inesperado Perfect day de Lou Reed, para nós, por aquele dia, dir-nos-á, na noite do segundo concerto.
Uma palavra para a banda: Lenny Kaye (guitarras) e Jay Dee Daugherty (bateria), companheiros da primeira hora, simplesmente impecáveis, e o fabuloso Tony Shanahan, condutor da orquestra no piano, nas teclas, no baixo e na voz. E Patti, também, a partir propositadamente as cordas de uma Fender Stratocaster.
Fico à espera, David, que me ligues e digas: a Pattí (em francês) está de volta. Queres vir?

Abertura para o rio (rio-me) das palavras: este texto não é uma encomenda de ninguém, não foi destinado pela agenda de uma redacção onde não trabalho, fui eu que paguei as minhas despesas e decidi ir até Paris rever a Patti Smith que descobri ao vivo no palco do Zénith em Outubro de 2005; é, antes e por tudo isso, um texto de afectos, um riacho de cumplicidades, profundamente subjectivo.António Manuel Ribeiro
31 de Maio de 2007