Primeiro prémio Luso-Espanhol de Arte e Cultura para José Bento

José Bento dedicou-se à tradução do castelhano para português, o que, diz Saramago, presidente do júri, "se faz por amor a uma literatura, ou não se faz"

O poeta e tradutor português José Bento ganhou ontem a primeira edição do Prémio Luso-Espanhol de Arte e Cultura, dotado com 75 mil euros. O júri, presidido por José Saramago, que ontem se reuniu em Madrid, no Ministério da Cultura de Espanha, decidiu por unanimidade."José Bento não dirá nada aos meios de comunicação espanhóis, mas perguntem por ele nos círculos poéticos de Espanha", aconselhou Saramago em conferência de imprensa. "José Bento, que agora tem 74 anos, começou a traduzir do castelhano em 1958 [Platero y Yo, de Juan Ramón Jiménez], quase meio século de vida entregue ao trabalho de traduzir de um idioma a outro", destacou o prémio Nobel da Literatura. "Ainda mais traduzindo poesia, com a dificuldade que assim comporta, e sendo poeta, tendo a sua primeira obra poética [Sequência de Bilbau] aparecido 20 anos depois de iniciar o seu trabalho como tradutor", referiu Saramago. "Tem uma obra poética importante em português, que não é muito ampla, e dedicou-se à tradução do castelhano para português, o que se faz por amor a uma literatura, ou não se faz."
Definindo José Bento como "pessoa discreta, tímida que não aparece e trabalha", Saramago sublinhou que os 62 títulos por ele traduzidos revelam "um grande amor pelas letras de Espanha e da América Latina". Entre os poetas e escritores traduzidos por José Bento, num total de 62 títulos, estão Pablo Neruda, António Machado, San Juan de la Cruz, Jorge Luís Borges, Francisco de Quevedo, Miguel de Unamuno, Miguel Hernandez, Garcia Lorca, Maria Zambrano e Octávio Paz. Foi com tradução de José Bento que, no ano passado, foi editado Don Quixote de Miguel de Cervantes (ver texto ao lado).
A proposta para o prémio foi da escritora espanhola Clara Janés, membro do júri, que integrava ainda o arquitecto Siza Vieira, o professor de literatura espanhola José Adriano de Carvalho, José Luís Borau e Carlos Hernández Pezzi. Bastou hora e meia de reunião para haver uma decisão. "Foi uma decisão por unanimidade e com alegria vamos dar a José Bento uma grande alegria", assegurou José Saramago.
A ministra da Cultura de Espanha, Carmen Calvo, admitiu que a partir deste prémio se traduzam mais obras de José Bento em Espanha. Actualmente, apenas dois livros - En el Silencio de Noviembre e Algunas Sílabas, ambos traduzidos em 2000, estão editados em castelhano.