Rómulo de Carvalho, ou a importância de se chamar António

Centenário do nascimento é assinalado com uma exposição baseada no espólio do autor, que a família doou à Biblioteca Nacional, e através do qual se pode fazer um retrato do poeta.

Escolheu chamar-se António, o nome de um tio de quem gostava muito. Teve a ideia de lhe juntar Gedeão no início de um ano lectivo, no então Liceu D. João III, em Coimbra, porque um dos seus alunos se chamava assim. Estava encontrado o pseudónimo literário de Rómulo de Carvalho, em 1954-1955. "António é o meu nome", o último verso do Poema de me chamar António, dá agora título a uma exposição na Biblioteca Nacional, em Lisboa. Até 6 de Janeiro, pode ver-se parte do espólio do poeta que foi professor de liceu, pedagogo, historiador da ciência, divulgador científico e, por vezes, carpinteiro. "António é um nome que tinha para ele um grande significado, porque teve vários Antónios nos seus antepassados e um tio materno, por quem tinha grande afeição", conta o filho (que é físico) Frederico Carvalho. Lembra uma passagem nas Memórias do pai, 1100 páginas manuscritas, numa letra miudinha, e ainda inéditas: "Fixei uma frase em relação ao tio António que diz que era uma daquelas pessoas que nunca deviam morrer."
O acaso ditou a escolha do apelido literário. "Sentiu necessidade de procurar um pseudónimo, na altura em que iam ser publicados os primeiros poemas, que coincidiu com o início do ano escolar. Havia um jovem que se chamava Gedeão, e ele achou graça. Quis marcar uma distância entre o professor e o poeta." Os primeiros poemas apareceram em 1956, em Movimento Perpétuo.

Data da morte em brancoMas a queda para a poesia e os pseudónimos já lhe vinha de criança. Aos 11 anos, quis continuar Os Lusíadas e atreveu-se a escrever o Canto XI. Está exposto, ao lado do jornal de escola A Mocidade, concebido por Rómulo de Carvalho, explica Fátima Lopes, responsável, com Manuela Rêgo, pela exposição. Como director desse jornal, chamou-se Eurico Mantegazza. Tinha 14 anos.
Manteve sempre grande capacidade de organização, de que são exemplo as Memórias. Nelas, atravessa quase todo o século XX, desde que nasceu, a 24 de Novembro de 1906, em Lisboa, ainda na monarquia, e escreveu a última página duas semanas antes de falecer, a 19 de Fevereiro de 1997. Deixou um espaço em branco para a data da morte. À parte, fez o índice: "Nasci" é o primeiro capítulo, "Adeus", o último.
O manuscrito pode ver-se agora, mas quem quiser saber mais sobre o que ia na alma de Rómulo de Carvalho poderá fazê-lo para o ano, quando as Memórias forem editadas.
Quem percorre o espólio, doado pela família à Biblioteca Nacional, onde chegaram 55 caixas arquivadoras, apercebe-se de como Rómulo de Carvalho registava e guardava isto e mais aquilo.
Por exemplo, Fátima Lopes pára junto de dossiers com recortes de imprensa: "Deu-se ao luxo de fazer uma bibliografia passiva de António Gedeão. Anotava tudo, tudo. Era muito metódico." Cada referência numa notícia ao poeta era sublinhada a tinta vermelha.

Contar as músicas que passavam na rádio
Para reforçar como era "um homem muito meticuloso", Fátima Lopes pega no programa de um recital de poesia, com os nomes de Jorge de Sena, Mário Cesariny ou Ary dos Santos riscados a encarnado, com a nota: "Os poemas cortados foram proibidos pela censura."
Se restassem dúvidas de como era organizado, bastaria ver a listagem, com a sua letra, das vezes que os seus poemas musicados passaram na rádio em 1975. Foram 31.973 vezes em Portugal e 7279 no estrangeiro. A sua obra poética tornou-se popular nos anos 70 e a lista era-lhe enviada pela Sociedade Portuguesa de Autores. A Pedra Filosofal, cantada por Manuel Freire, aparecia no topo, com 12.628 vezes em Portugal, 3319 no estrangeiro. Foi símbolo da luta antifascista. Seguem-se Aurora Boreal, Fala do Homem Nascido, e Lágrima de Preta - que António Gedeão mandou analisar, influenciado por certo pelo espírito científico de Rómulo de Carvalho, e "nem sinais de negro/nem vestígios de ódio./Água (quase tudo)/E cloreto de sódio".
Como é que alguém poderia ter escrito tanto, enquanto se empenhava no ensino de físico-química? "É uma pergunta que tanta gente faz. Era super-organizado", diz Frederico Carvalho, filho do primeiro casamento de Rómulo de Carvalho (teve uma filha, Maria Cristina, do segundo). "Há pessoas que ocupam o tempo com outras coisas. O meu pai fazia as leituras e escrevia a partir das leituras. Era um rato de biblioteca. A base da sua grande produção são as notas, os apontamentos."
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Fazia poemas
enquanto passeava
Também tinha grande facilidade em escrever poesia, lembra. "Gostava muito de dar passeios e, na sua cabeça, formavam-se os poemas. Depois, era só sentar-se a escrevê-los." Gostava tanto de fazer álbuns de viagens que trazia para casa os objectos mais improváveis. "Pena de pombo de Trafalgar Square", é a legenda por baixo do vestígio colado da ave.
Álbuns com fotos de família eram outra das suas predilecções, e era ele quem construía as encadernações, com tecido florido. A construção de caixas de madeira, para arrumar a papelada, ou até da mobília do primeiro escritório revela como gostava de trabalhar a madeira. Se não tivesse sido professor e poeta, gostaria de ter sido marceneiro.

Poeta virou contista, disse Prado Coelho
Há ainda as peças de teatro, e uma novela, A Poltrona (1973), que o poeta e ensaísta Jacinto do Prado Coelho tanto apreciou, pelo que se lê num cartão de agradecimento. "Teve António Gedeão, nosso comum amigo, a gentileza de me oferecer A Poltrona. E foi uma agradável surpresa, porque não esperava ver o poeta "virar" contista e porque o livro, uma vez iniciada a leitura, me "agarrou" até ao fim."
Era reservado - "os grandes amigos eram uma meia dúzia", diz o filho. "Não exprimia opiniões. Não era explícito o que pensava do regime, adivinhava-se que era da oposição", diz um dos seus alunos, nos anos 60, Nuno Crato.
Nunca lhes falava dos poemas. "Foi uma revelação quando descobrimos que tinha livros. Não misturava a vida familiar, poética com as aulas." Nuno Crato nunca se esqueceu do dia em que levou um livro ao professor, para que lho autografasse. "Mas eu não sou essa pessoa!", ouviu de Rómulo a propósito de António. "Ficou incomodado, não queria falar desse assunto no liceu, mas lá assinou o livro a contragosto."