OMS recomenda uso de DDT dentro das casas para combater a malária

Todos os anos morre um milhão de pessoas por causa da malária, uma doença parasitária transmitida pela picada de mosquitos. Nos últimos 30 anos pouco se tem usado o insecticida mais eficaz, demonizado pelos motivos que o tornam tão eficaz: a sua persistência no ambiente. Mas a urgência de lutar contra uma doença cujas vítimas vivem nos países mais pobres do mundo está a trazer de volta o DDT. Por Clara Barata

Umas baforadas de DDT nas paredes e nos telhados. Por residual que seja a quantidade de DDT nas superfícies, fica lá durante longos períodos - um ano ou mais. E, durante esse tempo, protege os habitantes da casa da picada dos mosquitos do género Anopheles que transmitem o parasita da malária, como uma rede mosquiteira invisível. É esse o efeito pretendido pela nova recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS) para usar este insecticida sistematicamente nas zonas mais afectadas pela maláriaA seguir à II Guerra Mundial, o DDT (o seu nome completo é dicloro-difenil-tricloroetano, mas também é conhecido pelas designações clorofenotano e dicofano) começou a ser usado e abusado como um químico milagroso na luta contra pulgas, piolhos, percevejos, baratas e até pragas agrícolas. Foi usado pelos Aliados para controlar vectores do tifo e da malária, doenças transmitidas pela picada de mosquitos. O DDT permitiu eliminar a malária da Europa e da América do Norte e, em 1955, a OMS iniciou um programa para a erradicação da malária do mundo baseada no DDT.
Mas como costuma acontecer com os produtos considerados milagrosos, o DDT acabou por revelar problemas (ver Perguntas & Respostas) e tornou-se mesmo um dos principais inimigos do início do movimento ambiental. E o abuso levou também ao surgimento de insectos com genes que conferem resistência ao DDT. Por tudo isto, este insecticida tornou-se sinónimo dos perigos do uso indiscriminado da tecnologia.
Mas, em teoria, qualquer país continuou a liberdade para usar DDT. A Convenção de Estocolmo, em 2001, procurou banir o seu uso, mas a sua utilidade no combate à malária impediu um acordo. "O DDT é o insecticida mais eficaz no combate à malária", não se cansou de afirmar Arata Kochi, director do programa global da luta contra a malária da OMS.
No entanto, se não era proibido, preto no branco, o DDT não era recomendado pelas agências humanitárias A malária mata um milhão de pessoas por ano, cerca de 90 por cento delas em África, e países pobres como os afectados por esta doença parasitária não podem ir contra os ditames das agências internacionais. O Banco Mundial, por exemplo, tornou uma condição indispensável para a concessão de empréstimos a proibição do DDT, recorda um artigo publicado em Agosto na revista Nature Medicine.
Mas esta maré começou a inverter-se em Maio de 2006, quando a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), um dos maiores dadores internacionais, anunciou que passava a apoiar o uso de DDT dentro das habitações, tal como a OMS fez agora.
"Devemos tomar decisões baseadas na ciência. Uma das melhores armas que temos contra a malária é o uso de insecticida no interior das casas. E dos cerca de 12 insecticidas aprovados pela OMS para isso, o mais eficiente é o DDT", afirmou Kochi, citado num comunicado de imprensa desta organização das Nações Unidas
Há provas de que o uso regular e correcto de insecticidas nas habitações pode reduzir a transmissão da malária em 90 por cento. "Todas as agências para o desenvolvimento e os países onde a malária é endémica têm de agir em concordância com a posição da OMS sobre o uso do DDT nas habitações. Os dadores devem investir em programas de apoio técnico para garantir que estas intervenções se fazem correctamente", disse Richard Tren, director da organização Africa Fighting Malaria.
Actualmente, dez países africanos utilizam o DDT em aplicações nas casas e a OMS deve começar a aplicar estas novas directrizes no Iémen, no Sudão e em dois outros países na África Oriental. A forma como as recomendações serão aplicadas é importante: o DDT não deve ser usado na agricultura, nem de maneiras que estimulem o surgimento de resistência. Por isso, a sua aplicação tem de ser muito bem controlada, e esse é o principal desafio desta medida.
Mas claro que já surgiram críticas. A organização Beyond Pesticides, por exemplo, emitiu um comunicado em que considera que a dependência do DDT "provoca mais problemas a longo prazo do que os que resolve no curto prazo." Mas os dados sobre os efeitos do DDT na saúde humana têm sido bastante inconclusivos, ou têm sido afastados receios que de que tenha grande toxicidade para os humanos.