Jorge de Brito O empresário que Marcelo apoiou

Foi bancário, banqueiro, especulador, empresário, coleccionador de arte, dirigente desportivo. Ao longo de 78 anos de vida acumulou amizades e ódios. Morreu ontem em Lisboa

Jorge de Brito era um homem de duas faces: um ser humano generoso e fiel aos seus amigos, mas também um aventureiro que fundou um império com pés de barro. Se na história da economia portuguesa não deixou marcas relevantes, como amante de arte Brito deixa o seu legado, ao construir antes da Revolução uma colecção de arte contemporânea de referência num país adormecido. Foi uma vida marcada pela polémica que ontem de madrugada terminou em Lisboa.Jorge de Brito morreu no Hospital da CUF, onde estava internado há vários dias. A missa de corpo presente realiza-se hoje, pelas 11h00, na Igreja de St.º António, em Cascais, seguindo o corpo para o Cemitério dos Prazeres, em Lisboa.
Fundador do Banco Intercontinental Português (BIP) e da Brisa, ex-presidente do Sport Lisboa e Benfica, coleccionador de arte, nasceu há 78 anos em Queluz.
A sua ligação à finança começou ainda adolescente. Aos 18 anos, Jorge Rego de Brito era funcionário do BES, lugar que abandonou para partir para Cabinda, onde acreditava poder fazer fortuna. A sua passagem por África foi breve, pois envolveu-se com a mulher de um oficial. De regresso a Lisboa, foi trabalhar para a Fábrica da Abrigada, uma indústria de refractários, onde conheceu uma sobrinha do proprietário, Isabel Henriques, com quem casou e teve seis filhos. Manuel Ricardo Espírito Santo foi o seu padrinho de casamento.
Brito não perdia oportunidade de ganhar bom dinheiro. Nos anos cinquenta, no Algarve, toma conhecimento de que o hotel onde se instalara está à venda pelo equivalente a 11 mil contos (55 mil euros). Celebra ali mesmo negócio, apoiado em livranças acordadas antecipadamente no Banco Espírito Santo para outro fim. Já em Lisboa encontra comprador, a quem pedirá 12 mil contos.
Na época trabalha por sua conta e risco, intermediando negócios e actuando no mercado de capitais, por vezes como "testa-de-ferro" de terceiros. O seu nome surge nos bastidores de vários negócios (BTA, BPA, Cervejas Estrela). Mais tarde, aparece a integrar a administração da casa bancária Augustine, Reis & Cia.
Cruzou a era marcelista, como um raider. De certo modo, o mercado concedia-lhe uma aura de grandeza, pois atirava-se para a frente, procurando lançar um grupo económico ao ritmo da euforia bolsista. Mas faltavam-lhe as bases para intervir.
Em 1970, adquire a Casa Augustine Reis, com o dinheiro aplicado na bolsa e multiplicado. O então primeiro-ministro, Marcelo Caetano, vai apostar em Brito como o empresário do regime. Em 1972, mete uma lança em Africa quando recebe autorização para transformar a casa bancária em Banco Intercontinental Português (BIP), permissão sempre recusada por Salazar. O contexto é de crescimento económico, de dinheiro fácil. O banco emite muito capital, em clima de grande euforia bolsista e especulação. E aparece como um caso singular num sistema financeiro conservador.
Mas Brito não era um campeão de solidez. Como banqueiro, actuava com pouca prudência e grande ligeireza no tratamento do risco. Nas vésperas da Revolução, com a crise do petróleo e as acções em queda, surgiam os primeiros sinais de insolvência. Depois do 25 de Abril, o BIP apresentou problemas de tesouraria para fazer os pagamentos de caixa e foi alvo de intervenção estatal.
Quem o conheceu diz que Brito tinha uma dimensão megalómana, que ditou a sua ruína. Por alguma razão, do seu império "tudo se perdeu". Ao contrário dos grandes empresários da época, como Champalimaud, Mello ou Espírito Santo, Brito foi o que se revelou o mais efémero.
Jacinto Nunes, o governador do Banco de Portugal na altura em que foi nomeada uma gestão pública, manteve contactos com Brito no âmbito das suas funções de supervisão. Diz que o considera "uma pessoa controversa". "Mas era um homem afável, de trato fácil." Era "também insinuante: foi o que lhe deu êxito e o tramou". Mas admite que Brito "agitou o meio financeiro na sua época e marcou a economia para o bem e para o mal".
O advogado Vasco Vieira de Almeida, ex-presidente do Crédito Predial Português, que na época manteve um contencioso com Brito, diz que ele actuava no mercado como um lobo solitário, "sem condições para gerir eficazmente uma organização". E salienta que, olhando para Brito, vê "duas pessoas diferentes". O homem de negócios "ousado", mas que "actuava sem critério, nem conhecimentos de gestão"; e o "ser humano generoso e leal", com "grandes qualidades".
Augusto Ferreira do Amaral, membro do conselho fiscal do BIP, tem outra imagem do ex-banqueiro. Foi "um empresário muito dinâmico e com ideias inovadoras". Mas "entrou na pequena coutada fechada dos grandes capitalistas e como tal foi objecto de certos fenómenos de rejeição e de desconfiança". E se ele, diz, "foi demasiado arriscado e heterodoxo nos princípios, fê-lo porque tinha como grande objecto empresarial lançar-se" no negócio das auto-estradas. Brito percebeu que a expansão das infra-estruturas viárias era um dos grandes temas do desenvolvimento da economia portuguesa. Quando cria o BIP, os seus olhos estão na verdade voltados para o negócio que lhe permitia triunfar na sociedade como empresário e não como especulador. A Brisa, baptizada a partir do seu nome, é obra sua e gerou polémica, pois a concessão das auto-estradas foi-lhe entregue em prejuízo de Miguel Quina.
Ferreira do Amaral lembra que Brito foi surpreendido no "início da sua caminhada pela Revolução e apanhado num situação irregular".

Colecção resiste O gosto pela arte herdou-o do pai, um ourives de Lisboa. Aos 18 anos, ainda apenas um bancário, já adquiria obras de arte às prestações. Foi sempre um investidor compulsivo. Também na arte. Comprava de tudo - coisas boas e coisas más -, deu de "comer"a muitos artistas plásticos, lançando as suas carreiras. A sua intuição e faro apurado para os negócios fizeram-no emergir como o maior coleccionador de obras da pintora Helena Vieira da Silva. Outros nomes sonantes de pintores nacionais da sua colecção são Júlio Pomar e Paula Rêgo; entre os estrangeiros encontravam-se telas de Serge Poliakoff e Sónia Dellaunay.
Para o director do Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian, Jorge Molder, Brito "foi fundamental para a arte contemporânea entre nós". Considera-o uma "figura central na colecção" do Centro, "que muito deve ao seu espírito de reflexão e coleccionador". Molder menciona "a sua generosidade, uma vez que numerosas obras foram oferecidas" ao Centro quando da sua construção, em 1988 (os desenhos da pintora Vieira da Silva, preparatórios das tapeçarias da Universidade de Basileia). O mesmo responsável salientou o facto de a colecção criada por Brito ter resistido à turbulência dos tempos por intervenção de um conjunto importante de pessoas (quando o Banco de Portugal interveio no BIP, assegurou que as obras de arte se mantivessem em Portugal).
Já banqueiro, e assim que as suas dificuldades financeiras começaram a surgir, Jorge de Brito serviu-se da arte: enviava para Londres obras de Vieira da Silva para serem leiloadas, dispondo-se a adquiri-las de imediato, e sempre a preços exorbitantes. A primeira consequência era a valorização das suas próprias telas.
Antes do 25 de Abril, houve quem o conhecesse apenas pela sua colecção de arte e pelas suas porcelanas da Companhia das Índias. Após a Revolução esteve preso em Caxias, por 19 meses, sem culpa formada. Brito quis colocar a sua colecção a salvo, contactando para tal Luís Mello do Rego, que organizou o transporte para Espanha. O primeiro carregamento correu bem, passando a fronteira junto a Melgaço, mas o segundo foi apreendido pela polícia franquista.
Logo que saiu da cadeia voou para a Suíça para negociar arte, e envidou todos os esforços para reaver parte da sua colecção. O Governo espanhol exigiu, porém, 27 milhões de pesetas de imposto de luxo e reteve as peças. O caso só veio a público quando a organização da Europália, em 1991, pediu autorização ao empresário para expor algumas das suas peças, que continuavam guardadas nos cofres do Banco de Espanha. Com Diana Ralha