Dinossauro anão descoberto na Alemanha foi baptizado Europasaurus

O paleontólogo português Octávio Mateus faz parte da equipa que classificou o fóssil como sendo
de um género novo para a ciência

Como qualquer outro saurópode, tinha o pescoço comprido, andava em quatro patas e perdia-se por plantas. O Europasaurus holgeri deveria ter um ar pachorrento, como outros dinossauros herbívoros quadrúpedes do período Jurássico. Mas não era como os outros, pelo menos em tamanho, que podiam ultrapassar os 20 metros. Para saurópode, era um anão, revela a equipa de paleontólogos que estudou os seus ossos, num artigo publicado hoje na revista Nature.A história do primeiro caso de nanismo confirmado de um dinossauro começou em 1998, quando um coleccionador de fósseis alemão, Holger Lüdtke, descobriu os primeiros ossos numa pedreira no Norte da Alemanha, em Oker, e depois telefonou para o Museu ao Ar Livre de Münchehagen, na Alemanha, a comunicá-lo.
Em 1999, paleontólogos do museu foram à pedreira, ainda hoje em funcionamento, fazer as primeiras colheitas de fósseis, e eis que a sorte grande, em versão dinossáurica, estava a sair aos cientistas. Passariam os três anos seguintes a recolher material naquele local onde, há 150 milhões de anos, morreu não apenas um dinossauro, mas uma manada.
Octávio Mateus, paleontólogo do Museu da Lourinhã, um dos autores do artigo científico, assinado em primeiro lugar por Martin Sander, da Universidade de Bona (Alemanha), também participou na colheita dos ossos do novo saurópode.Para ele, nesta história tudo começou em 2001, quando foi a um congresso, visitou o museu e ficou fascinado com os ossos do novo saurópode. Os paleontólogos alemães convidaram-no então a participar na descrição destes fósseis.
"É de um novo género e espécie para a ciência", explica Octávio Mateus, de 31 anos. "Vai chamar-se Europasaurus, para celebrar esta nova Europa que todos estamos a construir, e porque é o resultado de uma joint-venture entre dois países", acrescenta.
"Temos pelo menos 12 indivíduos. É uma manada espectacular, com indivíduos de diversas idades. Temos desde muito pequenos, com um metro e meio, até adultos. Mas o mais interessante é que os adultos são anões", conta o paleontólogo.
Juntando todos os fósseis, os cientistas têm quase todo o esqueleto completo, incluindo o crânio, e muitas peças repetidas.
Na idade adulta, o Europasaurus holgeri não ultrapassaria os cinco a seis metros de comprimento. Já é um tamanho jeitoso, mas para um dinossauro do grupo dos saurópodes não passava de um minorca. "Todos os saurópodes semelhantes ao Europasaurus, como o Brachiosaurus, atingiam 20 e tal metros. Ele tinha apenas seis metros: é um bom comprimento, mas para um saurópode daquele grupo é bastante pequeno."
No artigo, diz-se que os saurópodes foram os maiores animais que pisaram as massas terrestres, com formas verdadeiramente gigantescas nalguns casos: "Pequenas espécies com uma massa corporal inferior a cinco toneladas eram muito raras, e os ossos pequenos de saurópodes geralmente são de juvenis."

Nanismo ligado à insularidade
A equipa também apresenta uma hipótese para o aparecimento deste saurópode anão. "A paleogegrafia sugere o nanismo insular como uma explicação para o tamanho diminuto do corpo do Europasaurus", escreve a equipa. "Durante o Jurássico Superior, toda a Europa era um arquipélago, não um continente como actualmente, e a zona da Alemanha era uma ilha. As ilhas tendem a proporcionar a evolução das espécies para nanismo, por causa da inexistência de recursos, o que é este o caso", explica, por sua vez, Octávio Mateus.
Naqueles tempos, as maiores ilhas daquelas paragens teriam 200 mil quilómetros quadrados: "Tais ilhas não seriam capazes aguentar saurópodes corpulentos. O antepassado do Europasaurus rapidamente se tornou anão, quando ou migrou para a ilha, ou em resposta ao encolher das massas de terra causadas pelo aumento do nível do mar", lê-se no artigo.
O antepassado do Europasaurus era, ao que parece, o Camarasaurus, um saurópode que viveu, por exemplo, na América do Norte.
Já houve outras suspeitas de nanismo, em dinossauros do Cretácico Superior, que viveram há cerca de 65 milhões de anos, encontrados na Roménia, em particular o saurópode Magyarosaurus dacus e o Telmatosaurus transylvanicus, do grupo dos hadrossauros, também chamados bicos-de-pato. Mas as provas centravam-se mais nas pegadas do que nos poucos ossos. "Estas suspeitas são agora confirmadas a partir do estudo dos tecidos ósseos. Nunca foram tão bem documentadas como agora", refere Octávio Mateus.
Com esta descoberta, mostra-se que as vaquinhas do Jurássico, como há quem por brincadeira chame aos saurópodes, também podiam ser pequeninas, apesar de ser hábito imaginarem-se com tamanhos monstruosos a pastarem pachorrentamente por uma paisagem verdejante.