A literatura de cordel em 550 folhetos

Arnaldo Saraiva mostra a sua colecção na Biblioteca Municipal Almeida Garrett, no Porto. A exposição encerra hoje

Arnaldo Saraiva colecciona folhetos de cordel desde quase sempre, mas só há um mês reuniu os 550 exemplares dispersos em gavetas, caixas e envelopes avulsos para os mostrar pela primeira vez, a convite da Biblioteca Municipal Almeida Garrett (BMAG), do Porto. Só por isso, a exposição Folhetos de Cordel e Outros da Minha Colecção, que hoje encerra, já foi um acontecimento. Mas também por outra razão, bem menos pessoal: "Nunca se tinha feito uma exposição de literatura de cordel em Portugal", afirma o coleccionador e catedrático da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde é regente da cadeira de Literaturas Orais e Marginais.Reunindo folhetos e folhas volantes publicados entre 1602 (Declaratória apostólica em favor dos padres pregadores contra os padres ermitãos...) e 1982 (João Soldado que meteu o diabo no saco), a exposição constitui uma razoável amostra do universo da literatura de cordel. "O critério de selecção foi pedagógico, porque este é um mundo muito desconhecido: escolhi vários tipos de capas, de formatos, de géneros, de colecções, de épocas e até de países, porque achei curioso incluir exemplares de Espanha e do Brasil. Há certos ciclos de bandidos, heróis ou pícaros portugueses que atravessam o Atlântico: o Zé do Telhado e o Bocage, por exemplo", explicou ao PÚBLICO Arnaldo Saraiva.
Entre folhetos bizarros como Súplica que faz um cão aflito, ao Presidente de uma Câmara Municipal, a fim que lhe seja revogada a sentença de morte, há verdadeiros sucessos editoriais (às vezes com tiragens de dez mil exemplares) como o Testamento que fez Manuel Brás, mestre sapateiro, sucessivamente reeditado no século XVIII, e contos que "marcaram, às vezes durante séculos a fio, o imaginário das massas", como as histórias de João de Calais (de que Arnaldo Saraiva já inventariou 31 edições diferenciadas) e da Princesa Magalona. "Há muita gente que ainda não percebeu o valor cultural e sociológico da literatura de cordel. Mas ainda hoje a iniciação à literatura se faz através da tradição oral: canções de embalar, contos populares, provérbios, quadras, orações", nota.
A colecção exposta na BMAG ilustra a diversidade genética da produção de cordel em Portugal, desde a sua introdução, com o nascimento da imprensa, à extinção em meados do século XX, com a implantação do rádio e da televisão: monólogos, dissertações, cartas, autos, farsas, tragédias, provérbios, operetas, novelas, contos, oráculos, elegias, coplas, hinos, fados e canções, géneros representativos de uma economia com enorme vitalidade. "Havia muita gente a viver do cordel: os cegos que os vendiam à cintura, escritores profissionais, editoras praticamente especializadas como a Barateira", enumera.
Em Portugal, essa economia desapareceu, no Brasil continua particularmente activa e até Bin Laden já entrou no cordel: a colecção de Arnaldo Saraiva inclui exemplares bem recentes, como Carta de Satanás a Roberto Carlos (a reacção do cordel ao sucesso de Quero que vá tudo pró inferno), Adeus Princesa Diana, O terrível assassinato dos seis empresários portugueses ou A Tragédia em Nova York. "Não se justifica a depreciação da literatura de cordel, porque há tão má literatura de cordel como má literatura culta. Há várias espécies de banda desenhada ou de literatura cor-de-rosa que podemos considerar herdeiras da tradição do folheto, mas hoje há outras válvulas de escape, como a telenovela", argumenta o coleccionador.
Na ausência de um catálogo abrangente dos folhetos publicados em Portugal - ou mesmo das colecções da Biblioteca Nacional, da Sala Jorge de Faria da Universidade de Coimbra, da Torre do Tombo e da Biblioteca Pública Municipal do Porto -, Arnaldo Saraiva desconhece se há exemplares únicos entre aqueles que adquiriu ao longo dos anos em mercearias, quiosques e alfarrabistas, ou mesmo em viagens de comboio e na Feira de Espinho. "Essa divulgação é do interesse público. É a vida portuguesa, e é a vida vista do lado mais popular - o que é muito relevante, num tempo em que há tanto interesse pela história das mentalidades", diz. Foi também por isso que editou o catálogo da sua colecção - a portuguesa: "Do Brasil tenho muitos mais, cerca de 3000. Talvez a seguir possa fazer uma exposição sobre o cordel brasileiro".