Estudos sobre efeitos da radiação são ainda muito insuficientes

Os acidentes em centrais nucleares e as bombas permitiram estudar a forma como a radioactividade afecta os humanos, mas as certezas são muito poucas

A 28 de Março de 1979, o núcleo da central nuclear de Three Mile Island, na Pensilvânia, sofreu uma fusão parcial. O reactor acabou por ser controlado, e um relatório feito durante a administração do Presidente Jimmy Carter concluiu que o número de cancros mortais relacionados com o acidente não seria mais do que... um. Poderíamos esperar que, dado o acidente ter sido nos EUA, uma sociedade democrática, ao contrário da União Soviética de 1986, quando se deu o de Tchernobil, existissem bastantes estudos a retratar os efeitos da libertação de elementos radioactivos. Infelizmente, não é o caso.Em 1965, 20 anos depois de as cidades japonesas de Hiroxima e Nagasáqui terem sido atingidas por bombas atómicas, a Comissão das Vítimas da Bomba Atómica anunciou que tinha aumentado de forma significativa a incidência de cancros da tiróide e leucemias. E, mais de meio século depois, recorda a revista Nature esta semana, aumentaram outro tipo de doenças entre os sobreviventes, como problemas cardíacos e dez outros tipos de cancro (cólon, pulmões, mama, ovários e bexiga, por exemplo).
Estas descobertas só se fizeram porque houve um estudo epidemiológico longo, acompanhando a saúde dos sobreviventes e dos seus descendentes - e tanto Tchernobil como Three Mile Island foram há relativamente pouco tempo.
Além disso, nestes casos procura-se avaliar os efeitos de um tipo de radiação diferente: em Hiroxima e Nagasáqui, as pessoas foram submetidas a altas doses de radiação, e todos os tecidos do organismo foram expostos de maneira uniforme. Nos acidentes das centrais nucleares procura-se avaliar os efeitos de baixas doses de radiação, sobretudo devido à deposição no ambiente de isótopos radioactivos, como iodo-131, pelo que cada pessoa pode ter sido afectada de forma diferente.

Resultados polémicos e contraditórios
Em 2004, quando passavam 25 anos sobre o acidente de Three Mile Island, o especialista em baixas doses de radiação Joseph Mangano assinou na revista The Bulletin of the Atomic Scientists (editada por uma organização fundada pelos cientistas que trabalharam no projecto Manhattan) um artigo em que chamava a atenção para a falta de estudos sobre este acontecimento.
A investigação, sublinhava Mangano, tem tido resultados contraditórios e polémicos, o que tem tido o efeito de afastar os cientistas. "Não há nada na literatura científica sobre a mortalidade infantil, hipotiroidismo em recém-nascidos, cancro em crianças, ou cancro da tiróide, embora fossem recolhidos de forma rotineira dados sobre todos estes problemas em 1979."
Mangano atribui esta falta de dados a uma mistura de estudos que não fizeram as perguntas certas e a uma falta de vontade em lidar com um tema controverso. "Verificou-se durante os anos 50 e 60 uma relutância semelhante, que fez com que os cientistas evitassem avaliar as consequências da radiação libertada pela explosão de armas nucleares."
Os testes nucleares, sobretudo nos anos 50 e 60, feitos por nações como os Estados Unidos, Reino Unido, França e União Soviética são um assunto ainda hoje polémico, e dos quais se fala quase sempre em tom de denúncia. Em alguns casos, a radioactividade foi directamente estudada em humanos, e em populações ignorantes do perigo que corriam, que estiveram sujeitas a níveis de radiação bastante perigosos, por vezes em colónias ou locais onde estes países tinham possessões militares.
Esses testes permitiram começar a compreender os efeitos graves da radiação, que se podem fazer sentir sobre o código genético e perturbá-lo ao ponto de levar ao desenvolvimento de cancros. Mas tragédias como o lançamento das bombas atómicas e Tchernobil abriram também uma janela para o estudo da radiação - embora deixem ainda entrever muito pouco.
Com a explosão do reactor 4 de Tchernobil, espalharam-se 6,7 toneladas de materiais radioactivos por centenas de quilómetros e vários países. Mas o primeiro estudo que pretende avaliar os seus efeitos em toda a Europa está ainda a ser preparado pela equipa de Elisabeth Cardis, da Agência Internacional para a Investigação do Cancro, em França.

16 mil mortos por causa de Tchernobil?
Das 570 milhões de pessoas que viviam na Europa em 1986, Cardis diz que 16.000 podem vir a morrer por causa de Tchernobil - um número que representa 0,01 por cento de todas as mortes relacionadas com o cancro no Velho Continente. Mas um quarto de todos os óbitos na Europa deve-se a cancro, pelo que é quase impossível conhecer o verdadeiro impacte de Tchernobil, disse à revista Nature.
"O facto de ainda não discernirmos efeitos na saúde não quer dizer que não existam. Pode ser cedo de mais", comentou Cardis. Por exemplo, o aumento da incidência de cancros da tiróide foi relacionado com o iodo-131. Mas as glândulas salivares, mama e estômago absorvem-no também, embora em menores quantidades, pelo que a possibilidade de vir a sofrer de cancro pode só se concretizar mais tarde.

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