Festival de Berlim Isabelle e Isabella

Isabelle Huppert ao seu melhor nível no novo Chabrol e o filme de Hong Kong Isabella ganharam
o oitavo dia do festival

E, chegados ao penúltimo dia da competição oficial, revela-se a verdade sobre a 56ª edição do Festival de Cinema de Berlim. L"Ivresse du Pouvoir, o aguardado novo filme de Claude Chabrol, é "mais um" Chabrol; que o mesmo é dizer um óptimo filme, um dos melhores exibidos na Berlinale 2006, mas que nada traz de novo à obra do realizador francês, tão incapaz de fazer maus filmes, como de se desviar um centímetro do seu percurso. O mesmo se passa com a selecção oficial de Berlim, que este ano foi apenas "mais uma" selecção, sem nada de escandaloso ou ofensivo, mas sem aquelas surpresas que electrizam os corredores de um festival.
Até poderia ter havido pelo menos uma, não fosse a sensação incómoda de já termos visto isto em qualquer lado - no caso, em Wong Kar-Wai ­- que Isabella (Hong Kong), de Pang Ho-Cheung, deixa. E, contudo, Isabella é claramente das melhores obras a concurso: um grandioso filme romântico de enorme delicadeza e grande elegância formal sobre começar de novo, ambientado nos últimos meses de Macau sob administração portuguesa de 1999, antes da transição de poderes para a China (há duas cenas com diálogos em português e o genérico final corre ao som de Mariza).
O título do filme, Isabella, é mais do que apenas o nome da sua actriz principal, a modelo Isabella Leong; é uma espécie de "palavra-chave" para aceder aos seus segredos.
Isabella era a namorada de liceu de Shing, que abortou de uma gravidez adolescente; 18 anos mais tarde, Shing, agora um polícia aguardando o momento em que vai ser o bode expiatório de um caso de corrupção, descobre que a entretanto falecida Isabella não abortou e a jovem que o segue é sua filha. A relação que se estabelece entre Shing e a jovem Yan é ambígua, perturbante - dir-se-iam mais namorados do que pai e filha -, mas também de uma candura emocionante, quase inocente, de quem aprende verdadeiramente o que é ter alguém que olhe por nós.
Isabella é um interlúdio idílico em pleno olho do furacão, melodrama lírico e arrebatado que peca apenas pela excessiva sombra tutelar do existencialismo lírico de Wong Kar-Wai; mas Pang Ho-Cheung, de quem é o sexto filme, prova ter desembaraço suficiente para se vir a afastar do "mestre".
É, a par do injustamente olvidado Grbavica e do descompensado Der freie Wille, dos objectos mais estimulantes que Berlim revelou nesta edição.

A comédia do poder Depois de Isabella, houve Isabelle Huppert, a quem Claude Chabrol colocou nos ombros L"Ivresse du Pouvoir (França/Alemanha), a sétima colaboração entre o realizador e a actriz, em modo mais ligeiro e menos glacial do que é habitual.
Huppert interpreta, com a excelência a que nos acostumou, uma juíza de instrução investigando o desvio de dinheiros públicos por um grupo empresarial. Uma juíza disposta a deslindar o novelo que liga a pequena corrupção aos interesses políticos, perseguindo um ideal de justiça quase ingénuo nos complexos dias que vivemos.
Um tema ideal para a competição oficial de Berlim 2006, que Chabrol, com a sua ironia afiada, transforma em mais um dos seus apaixonantes e entomológicos estudos sobre a natureza humana, inspiradamente resumido nos dois títulos do filme. Em francês, "a bebedeira do poder"- o poder que intoxica, que corrompe, que nos faz (a todos sem excepção) pensar podermos mais do que somos; em inglês, A Comedy of Power, "a comédia do poder", porque, de facto, tudo não passa de uma comédia que nos afasta do que é realmente importante.
Não é por isso surpreendente que L"Ivresse du Pouvoir seja, também, uma comédia, com um sentido afiado do diálogo, ao qual o brilhante elenco reunido (para além de Huppert, François Berléand, Patrick Bruel, Robin Renucci, Maryline Canto e Thomas Chabrol) faz inteira justiça.
À saída da projecção, os aplausos reservados da audiência reflectiam mais a expectativa defraudada de uma obra-prima do que o desagrado com um excelente filme que confirma o estatuto à parte de Claude Chabrol. E sejamos sinceros: esperávamos realmente que Chabrol fizesse outra coisa que não "um Chabrol"?