Trinta anos depois, O Diabo "já não incendeia o país"

No dia 10 de Fevereiro de 1976 saía para as bancas o primeiro número de O Diabo. O semanário, marcado pela personalidade da fundadora Vera Lagoa, é hoje um jornal mais plural, mas fora do seu tempo. Por Ana Machado

O Diabo, o semanário fundado por Vera Lagoa, chegou às bancas dos jornais há 30 anos. Passadas três décadas, num Portugal distante do pós-revolução da década de 70, onde O Diabo afirmou a sua posição marcadamente de direita, o título subsiste. Mas personalidades da política e analistas dos media acham que o velho Diabo "morreu", que foi um projecto do seu tempo. E que o jornal que hoje existe é outro, rendido à democracia mais consolidada. O próprio jornal assume-se hoje como um projecto mais plural, que dá voz a todos os quadrantes.Numa sala, quatro jornalistas alternam a atenção entre os computadores e uma televisão com a figura dependurada de um diabo vermelho. João Naia é o chefe de redacção. Chegou ao Diabo, há quatro anos. Não hesita em afirmar-se como um homem de esquerda, que coordena um jornal que ficou marcado por dar voz à direita. "Antigamente O Diabo era um jornal de combate, no PREC. Hoje acho que é mais pluralista, tanto faz entrevistas a uns como a outros", defende Naia com a colecção de arquivo de O Diabo, em cima da mesa.
A 10 de Fevereiro de 1976, dia em que foi publicado o primeiro número, ultimavam-se os preparativos para a primeira Constituição, de 1976. Francisco Costa Gomes era Presidente da República, por nomeação da Junta de Salvação Nacional, algo que só se alteraria com a eleição, em Junho, de António Ramalho Eanes. Ao segundo número, Maria Armanda Falcão, a mulher que ficaria sempre conhecida pelo pseudónimo de Vera Lagoa, decide escrever um editorial sobre "O senhor Gomes de Chaves", criticando a actuação de Costa Gomes: "Não gosto de si. O senhor é muito feio!", concluía o editorial. E ao segundo número O Diabo foi suspenso. Só voltaria em 1977.
"Acho que O Diabo nasceu numa altura em que as liberdades fundamentais estavam ainda em perigo. Havia o anátema de tudo o que era de direita. E a imprensa era liderada pela esquerda, como ficou provado com o caso República. Foi útil na medida em que funcionou como a voz de pessoas da direita oprimida, sem nunca ter incitado qualquer forma de violência contra o sistema", defende Narana Coissoró, ex-dirigente do CDS-PP.
Marcelo Rebelo de Sousa, ex-presidente do PSD, frisa o facto de este título ter sido marcado, mais do que por uma tendência política, pela personalidade da fundadora: "O Diabo nasceu marcado por diversos factores, entre os quais a personalidade ímpar de Vera Lagoa, uma mulher vinda da esquerda e que se tornou uma das referências da direita, nomeadamente aquela mais combativa, num tempo em que não havia direita em Portugal", lembra.
O investigador na área do jornalismo Fernando Correia, autor de vários livros sobre comunicação social, acha que O Diabo nunca chegou a ser um jornal de um tempo: "Foi desde o início um jornal fora do tempo, de uma facção de extrema-direita que representou a herança do pior que tinha havido antes do 25 de Abril. O facto de se ter aberto ao longo do tempo é um reconhecimento por parte do próprio jornal que a linha editorial não tinha viabilidade", conclui Fernando Correia.

"Não há direita na imprensa portuguesa"
Todos defendem que O Diabo de Vera Lagoa já não existe e que o título hoje dirigido por José Esteves Pinto é um outro jornal: "Hoje em dia. O Diabo é um jornal diferente, mais tolerado por quadrantes opostos. O Diabo de outros tempos já não tem lugar. Mas teve o mérito de não esconder a sua orientação ideológica", defende Alberto Arons de Carvalho, deputado socialista e antigo secretário de Estado da Comunicação Social de António Guterres. "As pessoas hoje aceitam O Diabo, numa altura em que a democracia está mais consolidada. Um jornal destes já não incendeia o país, como o Avante também não o faz", acrescenta Coissoró.
Marcelo Rebelo de Sousa refere: "O Diabo já não tem tanta força hoje porque não há direita na imprensa portuguesa, com a subtil não orientação dos jornais, em que Portugal assume um lugar único na Europa. Mas o tempo ideológico de O Diabo já passou, ficou sem tempo. As excepções são o director e Alberto João Jardim, que resiste como cronista do jornal."
João Cravinho, deputado do PS, também reconhece que O Diabo é hoje diferente. "Sobreviveu a Vera Lagoa. Mas não tenho a certeza se era esta a linha editorial que ela defenderia."