Coretta Scott King Morreu a matriarca do movimento dos direitos cívicos da América

A viúva de Martin Luther King Jr. dedicou toda a vida à preservação
do legado do marido, mas foi bem mais do que tão-só a mulher
do pastor que teve um sonho

Foi há cerca de 15 dias que Coretta Scott King surgiu em público pela última vez. Apareceu amparada pelos filhos, recebeu uma ovação de pé e acenou à multidão que se reunira em Atlanta para celebrar o feriado norte-americano que assinala a data de nascimento do marido, Martin Luther King. Não falou. E ficou depois sentada numa cadeira de rodas. O estado de saúde da viúva do líder do movimento dos direitos cívicos nos Estados Unidos enfraquecia a olhos vistos desde que sofrera, em Agosto passado, um acidente vascular cerebral (AVC) e enfarte de miocárdio. Ontem morreu, de manhã, enquanto dormia, aos 78 anos de idade, em Atlanta, de acordo com um comunicado emitido pela família.Ligar a vida de Coretta King à do marido é inevitável, especialmente tendo em conta todos os esforços que fez para proteger, manter e dar relevo ao legado dele. Mas chamar-lhe apenas mulher de Luther King fica também, inevitavelmente, muito aquém de quem ela foi. Antes de casar com o Reverendo Martin Luther King Jr., em 1953, ela possuía já uma profunda consciência social e política.
Nascida em Marion, no Alabama, a 27 de Abril de 1927, e tendo estudado Música e Educação em Ohio e mais tarde Canto e Violino em Boston, Coretta foi uma empenhada activista antiguerra, mobilizando os colegas de universidade para se manifestarem contra a violência e integrou, como delegada, várias convenções políticas.
Era também uma belíssima cantora clássica e, durante o auge do movimento dos direitos cívicos, nos anos 60, marchou ao lado do marido e participou nos Concertos da Liberdade em que cantava e dizia poesia para angariar dinheiro para a organização de que ele foi um dos fundadores, a Southern Christian Leadership Conference.
Após o assassínio a tiro de Martin Luther King, em Abril de 1968 em Memphis, por James Earl Ray, pouco antes de se iniciar uma marcha organizada pelo movimento, Coretta emergiu publicamente como activista de pleno direito. Aliás, o tom foi dado logo poucos dias depois: "A senhora King organizou o funeral do marido e foi com os filhos para Memphis para participar na marcha até ao fim", recordou ontem o reverendo Jesse Jackson.
Fundou o Centro para a Mudança Social Não-Violenta com o nome do marido, que instalou no bairro onde ele crescera em Atlanta, e, durante 15 anos, liderou a batalha para tornar a data de aniversário de Martin Luther King num feriado nacional - celebrado desde 1986 à terceira segunda-feira de Janeiro, este é o único feriado norte-americano a honrar um único indivíduo.
Coretta foi uma mãe extremosa, criando sozinha quatro filhos - Yolanda Denise, Martin Luther III, Dexter Scott e Bernice Albertine - e incentivando-os a abraçar os ideais defendidos pelo pai sem deixarem de ser independentes para traçarem os seus próprios caminhos, mesmo se tal desafiasse ideias estabelecidas de quem e o quê eles deveriam ser.
"Ela foi a primeira dama dos direitos humanos e ensinava que uma das formas para fazer a mudança passa por nos mudarmo a nós próprios de forma a sermos capazes de liderar os outros na direcção que devem tomar", recordou ontem à CNN o reverendo Al Sharpton.
Amiúde descrita como a "matriarca do movimento dos direitos cívicos", Coretta foi uma defensora internacional da paz e dos direitos humanos. Reuniu-se com presidentes e líderes mundiais e foi presa a lutar contra o apartheid, ecoando em Washington a luta de Nelson Mandela na África do Sul.
Já bem dentro da casa dos 70 anos, Coretta deu a volta ao mundo, fazendo-se ouvir "contra a injustiça racial e económica, defendendo os direitos das crianças e das mulheres, a dignidade dos homossexuais, a liberdade religiosa, as necessidades dos pobres e destituídos de poder, o pleno emprego, os cuidados de saúde e oportunidades de educação para todos, e também o desarmamento nuclear, a ecologia e uma constante consciencialização sobre os problemas da sida" - refere a biografia de Coretta King no website do Centro Martin Luther King.