Ainda e sempre Pop Dell'Arte

Vinte anos depois são das melhores bandas pop que o mundo conheceu, estabelecendo códigos de leitura, mantendo uma rara liberdade

Vinte anos fizeram bem aos Pop Dell'Arte, os Pop Dell'Arte fizeram (muito) bem aos últimos 20 anos: a música resistiu ao tempo, antecipou-se ao tempo, o tempo correu atrás dela e agora tempo e música são um só, sem época, presos num imaginário que, se antes era vanguardista, hoje está de acordo com os tempos - porque a pop invadiu Portugal e hoje existe quem conviva intimamente com ela (e compreenda o discurso sobre a pop que aquelas canções encerram) e porque aquelas canções, por mais que desejassem ser ruptura, têm um pé fincado no que mais tarde veio a ser tornado tradição. E isto, isto tudo é uma forma de dizer: os Pop Dell'Arte não são apenas o mais inventivo repositório pop erudito português, são também um dos mais extraordinários combos de criação que o mundo (jamais) conheceu. Não há nisto um miligrama de exagero.

João Peste, em dia de comemorar 20 anos de carreira, está mais calmo (e mais gordo), um concerto dos Pop Dell'Arte não é mais um momento de absoluta subversão (antes de reconhecimento dos mais velhos e de encontro dos mais novos), a música, essa, ascende tanto à combustão como plana numa sobreatmosfera etérea e magoada. Entram com So goodnight, o grão do vinil a enformar matéria de sonhos, atacam Arriba! Avanti! Pop Dell'Arte (dada-jazz-cabaret de unhas afiadas), passam ébrios pela densidade granulada de Ilogik Plastik, há duas guitarras em palco e um saxofone em dissonância, marimbas e valsas quebradas. Kurt Weil sentado à mesa de Cesariny. Há uma canção nova (Stranger), Querelle vem com guitarras afiadas em marginalidade, My Funny Ana Lana é power pop com órgãos atirados para uma arena em sangue - e Peste, hoje menos Dietrich exegeta do Cais do Sodré que em tempos antigos, possui a fleuma e o verniz de redimido pelo talento (mas não pela moral).

Olha-se para aquilo que vem do palco: guitarras em brasa, percussão basta, tudo a quebrar-se, o baixo cheio de distorção e funk a carregar cada tema (para a dança, para a libertação), Sei Miguel nos metais a empurrar cada tema para a estratosfera: o mundo dos Pop Dell'Arte é, antes de mais, uma celebração da "outrização", a possibilidade de ser outra coisa. As colagens das capas dos discos e a música são uma só coisa, a glamourização das drogas e do sexo, a Feira da Ladra das referências eruditas, tudo isto é a possibilidade da mutação. Não são apenas canções, são um lugar - e isto, isto é pós-modernismo: a contextualização não por uma meta-narrativa prévia e para lá das pessoas, mas sim por linguagem e referência. Nada disto seria importante não fosse ser-lhes pertença: eles construíram esta linguagem e este universo (e, mais importante que tudo: esta forma de avaliar/viver um universo) muito antes dos outros (e aqui "os outros" inclui o mundo inteiro). Coisa que mesmo em Portugal parece estar esquecido.

Voltam para um encore e há Poppa Mundi, Polygrama e Esborre - e, tantos anos depois, aquele grito subversivo (algo de tão banal quanto "Chupáqui!" aos berros) volta a ecoar, com toda a liberdade do mundo num país que está a perdê-la muito rapidamente. Vinte anos depois são das melhores bandas pop que o mundo conheceu, estabelecendo códigos de leitura, mantendo uma rara liberdade. E, se já não esperamos que a cada aparição nos mostrem caminhos novos, de uma coisa podemos estar certos: dali só vêm boas canções.