Sonae vende distribuição no Brasil e reforça em Portugal

O encaixe da operação servirá para acelerar
o crescimento em Portugal, com a abertura de 100 lojas, reduzir a dívida e ajudar aos lucros da casa-mãe

Números

635 milhões de euros é o valor global do negócio

530 milhões de euros é o
encaixe realizado

140 era o número de lojas
no Brasil, com vendas líquidas de 1,2 mil milhões de euros em 2004

60 milhões de euros é o impacte nas contas da Sonae SGPS

250 milhões é o valor do investimento no mercado nacional em 2006, com previsão de abertura de 100 lojas
A Sonae assumiu várias vezes que estava descontente com o retorno do investimento realizado no sector da distribuição no Brasil. O presidente do grupo, Belmiro de Azevedo, foi repetindo amiúde que não rejeitaria uma proposta irrecusável. A proposta apareceu, apresentada pelo maior distribuidor mundial, os norte-americanos da Wal-Mart, o negócio concretizou-se e foi anunciado ontem.
A Sonae, através da Modelo Investimentos Brasil, vendeu todas as lojas que detinha no Brasil, por 635 milhões de euros, e garante que não está nos seus planos voltar a investir no mercado de retalho alimentar brasileiro, onde estava desde 1989. O "irrecusável" da proposta parece estar no valor da venda: 17 vezes superior ao EBITDA (cash-flow operacional) alcançado em 2004 pela Sonae Distribuição Brasil e um rácio de vendas de 55 por cento, adiantou ontem Nuno Jordão, presidente da Modelo Continente, holding que detinha a empresa brasileira.
Em vídeo-conferência, Nuno Jordão adiantou que o encaixe, superior a 530 milhões de euros, será aplicado no reforço do investimento em Portugal e na redução da dívida da Modelo Continente, a rondar actualmente o 500 milhões de euros. Nuno Jordão quer acelerar o processo de crescimento em Portugal, onde espera abrir 100 lojas no curto prazo, e admite investir 250 milhões de euros em 2006. Ainda nos planos da empresa está a possibilidade de avançar com a proposta da distribuição de dividendos já no primeiro trimestre de 2006. A Modelo Continente já não distribui dividendos desde 2000.
A Sonae estima que a venda da operação no Brasil, representada por 140 hipermercados, supermercados e lojas de retalho, tenha um impacte positivo de cerca de 60 milhões de euros nos resultados consolidados do grupo. Mas esclarece que o impacte será neutro em termos de afectação dos capitais próprios da Modelo Continente.
A empresa adiantou ainda que a decisão de concretizar este desinvestimento "foi influenciada pela dificuldade da operação em apresentar níveis de rendibilidade superiores ao elevado custo de capital empregue naquele mercado". "Sofremos imenso nos últimos sete anos. É terrível estar a investir num mercado com taxas de juros reais de dois dígitos, com uma moeda de enorme volatilidade e com elevados impostos directos e indirectos", defendeu Nuno Jordão. E num mercado, acrescentou ainda, "onde há uma enorme concorrência desleal".
O grupo clarificou ainda que "a descontinuidade da actividade da distribuição no Brasil é independente e não tem qualquer impacte nos restantes negócios em que [a Sonae] está presente neste mercado, nomeadamente nos sectores dos centros comerciais e dos painéis derivados de madeira". No curto prazo, acrescentou Nuno Jordão, a Sonae irá alienar activos imobiliários que tem no Brasil, concretamente terrenos avaliados em 15 milhões de euros.
Nuno Jordão adiantou ainda que a Sonae está agora a estudar oportunidades de investimento noutros mercados, nomeadamente na área do retalho especializado, como, por exemplo, a Sport Zone. "Olharemos com atenção para as propostas que os bancos de investimentos nos fizerem. E prevemos entrar noutros mercados por via de aquisição ou crescendo organicamente". Nuno Jordão não quis adiantar pormenores, mas frisou que a Sonae, graças à forte concorrência internacional que enfrenta em Portugal, onde é líder na distribuição há anos, está preparada para entrar no mercados externos.

Sonae sai, Wal-Mart reforçaOs grandes distribuidores mundiais estão em forte disputa no mercado brasileiro. Neste cenário, a Sonae vendeu, no início deste ano, 10 supermercados na região de São Paulo ao Carrefour. O grupo francês também esteve interessado nas 140 lojas - localizadas nos estados brasileiros do Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina e São Paulo - agora alienadas à Wal-Mart. Actualmente, a liderança do mercado pertence ao Pão de Açúcar, seguem-se os franceses do Carrefour e a Wal-Mart.
A Sonae iniciou o investimento na área "varejista" no final dos anos 80, aliada ao Grupo Josepar, do Rio Grande do Sul. Em finais da década de 90, o grupo da Maia associou-se à empresa Cândia Mercantil Norte Sul, criando a Sonae Distribuição Brasil. Mais tarde adquiriu a rede Mercadorama, no Paraná. O último impulso de crescimento foi feito em 1999, com a aquisição das redes Exxtra Econômico e Nacional, no Rio Grande do Sul, e Coletão e Muffatão, no Paraná.