Anomalias na temperatura do mar explicam furacões

Ricardo Trigo é professor da Universidade Lusófona e investigador do Centro de Geofísica da Universidade de Lisboa, onde tem desenvolvido, entre outros, trabalhos sobre eventos climáticos extremos.O que explica esta temporada tão agitada de furacões no Atlântico?
Julgo serem dois aspectos que se sobrepõem. Por um lado, a variabilidade à escala das décadas indica que os últimos dez anos têm bastante mais actividade de furacões do que os trinta anos antecedentes. No entanto, nos anos 30 e 40 havia uma actividade comparável com a que se regista na última década. Por outro lado, o aparecimento de furacões e a sua magnitude estão directamente relacionados com as anomalias da temperatura do mar. Este ano de 2005 foi caracterizado por temperaturas extremamente elevadas no Golfo do México, tendo ultrapassado a barreira dos 30º C em vários dias de Agosto.
Que relação há entre o número e a violência destes furacões e as alterações climáticas?
É muito difícil estabelecer uma relação directa, tipo causa-efeito. No entanto, vários autores fazem notar que, apesar de o número médio de furacões não apresentar grandes tendências, já a sua intensidade parece estar a aumentar significativamente. Como a capacidade destrutiva de um furacão aumenta de forma não linear com a velocidade dos ventos, observa-se um aumento significativo da destruição associada a estes eventos. Mas é necessário ter em conta o aumento muito significativo da população residente e sazonal nos estados mais afectados por estes fenómenos no Sul dos EUA - Florida, Luisiana, Alabama e Texas.
É anormal haver tempestades tropicais, como o Vince e o Delta, que se dirigem para a Península Ibérica e Canárias, em vez de seguirem para as Caraíbas e Golfo do México?
Não se pode dizer que seja normal, mas também julgo que não é tão raro como se tem afirmado. Houve episódios recentes, nos anos de 1997 e 1998, que provocaram cheias catastróficas em Portugal, Sul de França e Norte de Itália, que resultaram de ciclones "normais", aos quais foram adicionadas quantidades muito significativas de vapor de água, com origem neste tipo de ciclones de origem tropical. R.G.