Gripe de 1918 matou mais de 60 mil portugueses

Numa altura em que se teme a gripe das aves, os médicos e investigadores trazem à memória a pneumónica ou gripe espanhola de 1918

Foi na Primavera que a gripe chegou a Portugal. "Os primeiros casos de pneumónica ocorreram no final de Maio de 1918, em Vila Viçosa", recorda Helena Rebelo de Andrade, do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, em Lisboa, coordenadora do Centro Nacional da Gripe e autora de uma tese de doutoramento sobre os aspectos epidemiológicos e virológicos da gripe. Trazida por portugueses que trabalhavam em Badajoz ou em Olivença, a doença propagou-se rapidamente pelo Alentejo. Em Junho registaram-se os primeiros casos em Lisboa e no Porto, mas só em Setembro a pneumónica chegou à Madeira. A bordo do vapor Mormugão iam passageiros infectados e a doença alastrou logo que a embarcação atracou no Funchal. O mesmo aconteceu nos Açores, a 21 de Setembro. As cerca de 60 pessoas que viajavam num navio proveniente de Bordéus transmitiram a doença aos habitantes de Ponta Delgada. Uma das figuras centrais no combate à pneumónica foi Ricardo Jorge, "que era um epidemiologista visionário", como o define Helena Rebelo de Andrade. Director do então Instituto Central de Higiene, "surpreendeu pela forma organizada de resposta à dispersão da doença". Decretou a notificação obrigatória de todos os casos, o isolamento de doentes e a interdição das migrações das forças militares ou dos trabalhadores agrícolas. As farmácias foram obrigadas a não aumentar os preços dos medicamentos e criaram-se comissões de socorro para acudir aos doentes. Num artigo dedicado à pneumónica, publicado na revista Medicina Interna (Janeiro/Março de 2001), Álvaro Sequeira, antigo chefe de serviço nos Hospitais Civis de Lisboa, descreveu também medidas "que vieram a revelar-se ineficientes", como o abastecimento das farmácias e a criação de hospitais improvisados. I.G.S. Um foi apaixonado pelo desporto e fundou um clube de futebol, o outro frequentou belas-artes, foi pintor e precursor do futurismo em Portugal. Tinham pouca diferença de idade, morreram na mesma semana de Outubro e da mesma causa. José Alvalade e Amadeo de Souza Cardoso foram duas das muitas vítimas da pneumónica de 1918. Aos 33 e 30 anos de idade, respectivamente, sucumbiram a uma epidemia que é agora recordada por médicos e investigadores.
A I Guerra Mundial estava a chegar ao fim, deixando de herança uma complicada situação económica e social. Mas outra guerra convocou os médicos para as trincheiras. O vírus H1N1 foi um inimigo impiedoso, responsável pela pneumónica, também conhecida por gripe espanhola ou gripe de 1918, que matou mais de 20 milhões de pessoas em todo o mundo, entre as quais 60.474 portugueses. Os números são do médico e historiador João Frada, que acaba de publicar o estudo A Gripe Pneumónica em Portugal Continental-1918, editado pela Sete Caminhos (ver entrevista).
A gripe ocorreu ou não em locais com maior densidade demográfica? Foi influenciada por outras doenças, como enterite e tuberculose? Haverá relação entre a mortalidade e a litoralidade ou interioridade? Foram estas algumas das perguntas a que João Frada procurou responder. Concluiu que nem sempre as zonas mais habitadas foram as que registaram maior mortalidade, e que factores relacionados com a alimentação, outras doenças e a falta de cuidados de saúde, sobretudo nas zonas longe das cidades, tiveram parte da responsabilidade.
Existem diversas teorias para a origem da doença. Uma defende que surgiu pela primeira vez na China e chegou à Europa por via de mão-de-obra chinesa recrutada para a abertura de trincheiras em França. Outra considera que tudo começou nos EUA, uma vez que foram detectados casos entre militares norte-americanos de Fouston, no Arkansas, em Março de 1918. Finalmente, a Europa (Brest ou Bordéus, em França) é outra das possibilidades.
A doença atingiu rapidamente os militares e nunca outra epidemia provocara uma mortalidade tão grande entre pessoas com 20 a 40 anos de idade. A taxa de mortalidade foi de 962 pessoas por cada 100.000 habitantes. Cerca de 2,5 por cento dos infectados morriam, uma percentagem bastante superior à que se verificara noutras epidemias.
Em Portugal, a gripe atingiu a população independentemente da concentração demográfica. Ao analisar os dados estatísticos do Movimento Fisiológico da População Portuguesa de 1918, João Frada concluiu que Benavente, no distrito de Santarém, foi o local mais afectado pela pandemia. Aí morreram sete em cada 100 pessoas. Entre os 29 concelhos que tinham como sede uma cidade, Covilhã foi o mais afectado, com uma mortalidade de 2,35 por cento, logo seguido de Leiria, onde atingiu 1,79 por cento.
Tuberculose e enterites ajudaram à mortalidade"O facto de as taxas mais elevadas de mortalidade por gripe não se localizarem nos concelhos de maior expressão urbana, designadamente em Lisboa, Porto e Coimbra, alerta-nos para o papel dos recursos médicos enquanto potenciais reguladores desse fenómeno", explica João Frada. Ou seja, se já havia poucas formas de combater a gripe pelo facto de ainda não existirem antibióticos, de a alimentação ser escassa e as condições de higiene precárias, esse combate tornou-se ainda mais difícil longe das cidades, onde os recursos médicos eram, por vezes, uma miragem.
Ao contrário do que acontecera em situações anteriores, a gripe de 1918 vitimou sobretudo as crianças pequenas e os adultos jovens. Entre as crianças dos 12 aos 24 meses, a mortalidade foi de 2,2 por cento e nos adultos entre os 30 e 39 anos, de 1,67 por cento. João Frada relaciona a elevada mortalidade destes dois grupos com outras doenças e explica que, ao deixarem de ser amamentadas, as crianças pequenas "deixavam de poder contar com os importantes factores biológicos do leite da mãe". Logo, ficavam mais expostas a enterites e, consequentemente, à gripe. Quanto aos jovens adultos, eram os mais atingidos pela tuberculose, o que os tornava também mais vulneráveis.
O Liceu Camões e o Convento das Trinas, em Lisboa, foram transformados em hospitais. Aliás, uma das primeiras medidas de Ricardo Jorge, após ter sido nomeado comissário contra a gripe, em 8 de Outubro, foi anular as aulas e proibir as visitas aos hospitais (ver caixa).
Uma comissão de socorro foi criada pelo Partido Republicano Português, o Sport Lisboa e Benfica cedeu as instalações para as reuniões e deu-se início a um conjunto de campanhas. Nos Armazéns do Grandela, em Lisboa, os produtos de higiene e o vestuário para as famílias enlutadas foram postos em promoção. "A pandemia de 1918 foi, de facto, uma situação dramática. E Portugal não foi diferente dos outros países", considera Helena Rebelo de Andrade, do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge.
O facto de ser também conhecida por gripe espanhola está relacionado com a elevada incidência da doença em Espanha, é certo, mas também com o facto de ter sido aí que a epidemia foi divulgada primeiro. A Espanha era neutra numa Europa em conflito, enquanto os países beligerantes tinham a imprensa censurada e só tardiamente deram conhecimento público da situação, diz o médico Álvaro Sequeira num artigo publicado na revista Medicina Interna