50 obras para pensar a densidade no CAM

Quarenta aquisições recentes. Luz, massa, peso e cor nas obras de Helena Almeida, Rui Chafes ou Noé Sendas

O dicionário diz que densidade é a "quantidade por unidade de comprimento, superfície ou volume". Os críticos de arte usam a palavra frequentemente como sinónimo de riqueza ou complexidade. Para o público em geral pode ser muitas vezes outra maneira de dizer "impenetrável".A relação entre densidade e obra de arte é o ponto de partida para a exposição inaugurada ontem no Centro de Arte Moderna José Azeredo Perdigão (CAMJAP) da Fundação Gulbenkian, em Lisboa. Densidade Relativa reúne 50 obras (de 1961 a 2004) de 36 artistas da colecção do CAMJAP, maioritariamente portuguesa. Deste naipe de artistas, apenas três são estrangeiros: Peter Blake, John Coplans e Boyd Webb.
"Não houve qualquer preocupação cronológica na organização da exposição", diz a comissária, Leonor Nazaré. "O que quis foi juntar obras com uma certa afinidade formal, criando pequenos núcleos em que as peças se relacionam umas com as outras", como nos rostos encapuçados da série de José Luís Neto a partir de um negativo de Joshua Benoliel, que encontram um quase reflexo no auto-retrato de Pedro Cabrita Reis (S/Título, 1988).
Além da "afinidade formal" que dá ao público a possibilidade de estabelecer múltiplas relações entre os trabalhos expostos, Densidade Relativa permite ao CAMJAP mostrar as suas aquisições mais recentes - 40 das obras que a compõem foram compradas nos últimos quatro anos a artistas como Noé Sendas, Catarina Leitão e Helena Almeida.

Núcleos temáticosPara preparar Densidade Relativa, Leonor Nazaré esteve um ano mergulhada em textos da física e da matemática, estabelecendo relações entre matéria e pensamento, procurando perceber como ambas contribuem para a percepção de uma obra de arte. Desse exercício de aprendizagem surgiu o título da própria exposição.
"Quando olhamos para uma obra de arte partimos do nosso referencial cultural, do que recordamos, das imagens que guardamos. É por isso que a densidade do objecto artístico é sempre relativa."
A informação de que o receptor dispõe determina a relação que estabelece com a obra que, por sua vez, resulta de uma combinação de matéria - aquilo que ocupa espaço, tem massa e, por isso, peso - e pensamento, que pode ser sinónimo de ideia, espírito, imaginação, fantasia.
"O percurso que a obra faz do conceito até à sua materialização mede-se em densidade", explica Leonor Nazaré, para quem "os pensamentos também têm peso". Foi a noção de densidade - do ponto de vista da matéria ou do espírito - que orientou a escolha das obras expostas. Às vezes a relação é feita pela sugestão de leveza ou suspensão, como em Durante o Sono, de Rui Chafes (2002). Outras através da ideia de peso, como nas figuras que carregam corpos nas pietà de Manuel Botelho (Pietà, 1999) e João Vilhena (American Psycho, 2003). Nas duas instalações que abrem a exposição - The Rest is Silence II, de Noé Sendas (2003), e A Hand of Bridge, de Vasco Araújo (2004) - a associação ao tema é mais difusa. Na parede frente às pequenas salas criadas para o trabalho dos dois jovens artistas, há obras de Lourdes Castro, Jorge Martins, João Vieira e José Luís Neto (ver caixa) que têm em comum o tratamento da escrita. Por vezes são letras desconexas, outras palavras ou frases inteiras que falam de luz, cor e matéria. "Look at light becoming a landscape", lê-se em Look, Look, pintado por Jorge Martins em 1976.
"Nem sempre a ligação a temas relativos à densidade - matéria, vazio, luz, onda, partícula, corda - é directa", explica a comissária. "Às vezes é apenas uma sugestão, outras muito evidente, como nas duas propostas de José Luís Neto" em que se vêem apenas minúsculos pontos e linhas que resultam de folhas de listas telefónicas sobrepostas, compactas.
O tema da escrita não é o único a formar um núcleo em Densidade Relativa. "Procurámos criar espaços coerentes em termos de imagens", acrescenta Leonor Nazaré. John Coplans, Gaëtan e Helena Almeida, por exemplo, formam um pequeno módulo, unido pela questão da auto-representação. Ana Vieira (Objecto-Porta, 1975) e Catarina Leitão (Selva Confortável, 2002) são duas das artistas que integram o núcleo dedicado à paisagem.
Em The Love Wall, 1961, de Peter Blake, há um termómetro que mede a intensidade do amor. A obra, exemplo da arte pop, que fez das imagens do quotidiano matéria-prima essencial, entra em diálogo com Historia de la Musica Rock, 2002, um vídeo de Rui Valério em que o observador é bombardeado durante 48 segundos com imagens de 401 capas de discos de vinil, editados entre 1953 e 2001.

Densidade RelativaLISBOA Fundação Gulbenkian. Centro de Arte Moderna José Azeredo Perdigão.
R. Dr. Nicolau Bettencourt. T
el.: 217823000. De 3ª a dom.,
das 10h às 17h45.
Bilhetes a 3 euros.
Até 22 de Janeiro.