Simone de Beauvoir O "amor necessário"

Sartre admirava a "beleza" e a "inteligência" da sua mulher, sem nunca abrir mão
de outras paixões "contingentes". Após os anos 80, cartas e testemunhos
revelaram as fragilidades deste casamento aberto

Jean-Paul Sartre dedicou poucas páginas da sua autobiografia a Simone de Beauvoir - sua mulher e companheira intelectual, a quem chamava de Castor -, mas o contrário não é verdadeiro. Longas passagens dos três livros de memórias da pensadora feminista debruçam-se sobre o autor de A Náusea. Este pode ser um ponto de partida, um indício sempre passível de críticas, dada a sua subjectividade, para compreender o desequilíbrio dinâmico dos pratos da balança que compunha esta relação. Não é novidade para ninguém a poligamia de Sartre, que entendia que o casamento pressupunha não só o "amor necessário" (Castor, neste caso), mas também o "contingente", ou seja, aquele que é fruto de sedução. Beauvoir acedeu ao desafio de um relacionamento aberto, até porque a liberdade que Sartre preconizava era bilateral. Segundo Bertrand Poirot-Delpech, ensaíasta e antigo jornalista do Le Monde, pelo menos duas gerações do século XX inspiraram-se neste modelo: a capacidade de não tolher o desejo súbito e, ao mesmo tempo, não prescindir de uma existência ao lado de quem se pode estar seguro e crescer intelectualmente. A única regra era nunca mentir ou dissimular.
A fórmula parecia tecnicamente perfeita, mas a publicação de textos póstumos acabou por retirar brilho à aura do casal exemplar. O professor alemão Ingrid Galster nota, num artigo publicado na revista L´Histoire, como há marcas de machismo, sadismo, vingança e até de frigidez neste enlace que, como outro qualquer, pertence ao domínio do humano. E que, como tal, comporta o seu quinhão de incoerência, crueldade e contradição. Pelo menos é o que depreende de estudos vários e das famosas entrevistas concedidas pelo casal em 1974, que redundaram no livro La Cérémonie dês Adieux (1981).
"Vivaz em tudo
excepto na cama"
Sartre era um sedutor nato que, como ele próprio escreveu, ansiava por amar e ser amado. Claro está, não apenas por uma única mulher. Iniciou a sua vida sexual aos 18 anos, com meninas do bairro (sim, pois as burguesas deviam permanecer virgens). Beauvoir chegaria à sua vida anos depois, trazendo uma irresistível combinação de leveza e inteligência. Sartre foi o primeiro homem com quem se deitou. Sobre o que se passava entre os lençóis, Castor não poderia ter sido mais directa: "É um homem caloroso, vivaz em tudo excepto na cama" ou, de outro modo, "ele não é apaixonado pela sexualidade".
Isso não significa que Sartre não procurasse experimentar tudo de todas as maneiras, ambição libertina e libertária da qual os jogos amorosos a três serão talvez o mais célebre exemplo. Várias mulheres atravessaram a vida do casal, muitas significando um contrapeso de um lado da balança e poucas de outro. Algumas saltam entre um prato e o outro, o que não é o caso da russa Wanda Kosakiewicz, que figura na constelação de amantes de Sartre com um brilho especial. Jamais estabelece uma relação homossexual com Beauvoir. As duas tratavam-se com a diplomacia que convém a um matrimónio sem preconceitos.
Sartre confessou em 1965 que Castor era a pessoa que melhor o conhecia. Mais: afirmava que ambos eram tão parecidos, uma vez que partilhavam um álbum mental de memórias e referências muito semelhante, que eram capazes de responder da mesma forma a uma pergunta que lhes fosse colocada. Admirou desde o primeiro encontro não só a "beleza" de Beauvoir mas também a sua "inteligência de homem".
Talvez o preço a pagar por tanta sinceridade tenha sido a diluição do erotismo entre os dois e, quem sabe, a mágoa latente de Beauvoir estar sempre a combater por um lugar cimeiro no universo de Sartre, por uma imagem de desenvoltura ao ceder aos avanços das suas (ex-)alunas e, por fim, por um papel confortável neste teatro revolucionário dos costumes que, de resto, parecia mais conveniente a Sartre do que a ela própria. Michèle Le Doeuff também assinala no seu livro Esprit (1984) que o conceito dual de mulheres "necessárias/contingentes" não deixa de ser uma revisitação da lógica burguesa matrimónio/diversão.
Contudo, estas leituras não são unânimes. Há quem frise, por exemplo, que sem o laboratório que foram as suas vidas - onde corpo, cérebro, política, género e liberdade eram testados até ao limite -, muitas barreiras ainda poderiam estar hoje por transpor.