Visita a um rio ameaçado de extinção

No mapa rodoviário de Portugal, um polígono irregular de estradas principais - com uma aresta no IP2 e dois vértices em Torre de Moncorvo e Alfândega da Fé - delimita uma enorme clareira no Nordeste transmontano. No seu interior, àquela escala, praticamente não se vê sinal de ocupação humana. Quase não há povoações, nem caminhos, mas apenas uma ténue e retorcida linha azul: o rio Sabor.O isolamento deste curso de água, pelo que traz de bom e de mau, é o que está na base da polémica sobre a construção de uma barragem da EDP, recentemente aprovada pelo Ministério das Cidades, do Ordenamento do Território e do Ambiente. Com a barragem, aquela fina linha azul engordará até se transformar numa albufeira com 2730 hectares, que não passará despercebida na cartografia.Para uns, isto trará dinheiro e desenvolvimento a uma das regiões mais deprimidas do país, esquecida no canto mais remoto de Portugal. Para outros, será o fim do principal rio português que ainda se mantém no seu estado selvagem, sem barragens.O Sabor não é um rio em estado completamente virgem. Ao longo dos seus mais de cem quilómetros de curso, recebe esgotos urbanos e agrícolas que lhe comprometem a qualidade da água, sobretudo no Verão. Os seus vales mais acessíveis estão ocupados por alguma agricultura. Mas ninguém tocou ainda na sua configuração natural, serpenteando entre montes que mais o escondem do que o revelam.O sítio exacto onde será construído o paredão da barragem é um dos que é preciso algum esforço para encontrar. A recompensa é uma vista deslumbrante, com o rio lá em baixo, encaixado entre margens escarpadas que atingem mais de 300 metros acima da linha da água. Na encosta à direita de quem desce o rio, vêem-se os sinais deixados pelos ensaios geológicos para a barragem: uma extensa linha em zigue-zague, talhada na pedra, que sobe além do que será a altura do paredão.Nos planos até agora apresentados, os escritórios da obra ficarão sobre um monte com vista panorâmica, cujo ponto mais alto está, actualmente, cerca de 150 metros acima do rio. Quando a albufeira estiver cheia, bastará descer 40 metros para chegar à água.Provavelmente, apenas quem visita um vale antes de ser inundado consegue vislumbrar a dimensão brutal do que se perde com as albufeiras, em troca de água e electricidade. Há coisas que estão lá longe, e passarão a ficar ao pé. Outras, ao contrário, estão hoje ao alcance de todos, mas amanhã nunca mais serão acessíveis.Nesta situação está Cilhade, uma pequena aglomeração de casebres rústicos de xisto, com uma capela, alguns quilómetros acima do ponto onde ficará a barragem. Até há algumas décadas, os lavradores da freguesia de Felgar mudavam-se temporariamente para lá, durante a época da apanha da azeitona, no Inverno. Hoje abandonada, Cidalhe terá a albufeira como sepultura, sob dezenas de metros de água.A partir da aldeia, é preciso subir por tortuosos caminhos vicinais até chegar-se à futura superfície da albufeira. É fácil ter uma ideia da extensão da área alagada, pois na margem oposta uma estrada foi deliberadamente alcatroada apenas até à quota 234 metros, que é a da barragem. Entre o ponto onde estamos e a estrada, estende-se um vale ondulado, coberto de oliveiras e amendoais, que se deixará de ver e de cultivar. Nessa zona da freguesia de Felgar é que ficará o maior espelho de água, submergindo as praias fluviais hoje utilizadas pela população local e que poucas pessoas de fora conhecem. "Se estes espaços deixarem de existir, é pena", comenta Carla Santos, que vive em Lisboa e que na terça-feira passada fazia um piquenique junto ao rio.A barragem acabará com algumas zonas de lazer, mas criará outras. Serão certamente situações diferentes. O Sabor hoje embala os ouvidos com o ruído da água a correr sobre as pedras do seu leito. No Inverno, as suas correntes são ideais para descidas em caiaques e botes de borracha. Uma albufeira é um lago de águas paradas, com outros atractivos, para outros gostos.O efeito desta transformação sobre a avifauna ainda é incerto. O que acontecerá com a cegonha negra que, esta semana, o PÚBLICO viu a sobrevoar o vale? E os casais de águia-de-Bonelli ou de águia-real que fazem os seus ninhos ao longo das escarpas do rio? Para a bióloga Bárbara Fráguas, o principal não será a afectação directa dos ninhos. "O grande problema é que isto pode alterar profundamente o ecossistema", alerta. Quem percorre o Sabor não vê aves de rapina com tanta facilidade como em outros pontos do país, como o Douro Internacional. Nem as gravuras pré-históricas que se escondem sob musgos e líquenes, em pedras que só os arqueólogos conseguem identificar. Ninguém imagina que, a cem metros de um pequeno caminho rural na freguesia de Felgar, numa depressão pedregosa onde correrá, no Inverno, um ribeirinho, há uma gravura de um animal que alguém estampou na rocha há dez, quinze mil anos.Mais a montante, num ponto com vista privilegiada da estrada que vai de Mogadouro em direcção a Alfândega da Fé, é o próprio Sabor que inspira um arqueólogo a classificá-lo como "um rio paleolítico", em cujas margens passeariam os auroques, os percursores dos actuais bovinos domésticos.Esta referência pré-histórica ao Sabor é um contraste ao que dele desejam os autarcas da região, e parte da sua população. Apesar das referências históricas, culturais e sociais que se irão perder, há muita gente que prefere trocar o Sabor actual pela promessa de desenvolvimento embutida no projecto da barragem da EDP. Os sinais disso estão nas faixas espalhadas em Mogadouro, a dizerem que, segundo uma deliberação unânime dos órgãos autárquicos, o município "apoia a construção da barragem do Sabor". Ou então pela adopção da máxima celebrizada no Alqueva, agora reproduzida na parede de um casebre, à beira de uma estrada em Torre de Moncorvo: "Construam-me porra!"