A selecção azul e branca

A HERANÇAHá quem afirme que o eixo central de uma formação de futebol é mesmo o mais decisivo e o sucesso do FC Porto, de alguma form a, parece querer prová-lo. Uma boa parte dos jogadores mais utilizados nas campanhas da UEFA e da Liga dos Campeões foram contratados no último par de anos, mas a espinha dorsal da equipa não precisou de ser inventada. Quando chegou ao clube portista, Mourinho encontrou Vítor Baía, Ricardo Carvalho, Costinha e Deco e esperou uns meses pelo regresso de Jorge Costa do seu exílio em Londres (Charlton). Um guarda-redes, dois centrais, um "trinco" e um médio-ofensivo, praticamente as posições que preenchem uma hipotética linha recta desenhada de baliza a baliza num relvado de futebol. Junte-se Hélder Postiga e depressa se percebe que o tal eixo central tinha mesmo pernas para andar.Além daqueles seis elementos, o trajecto triunfante em 2002/2003 contou igualmente com a preciosa colaboração de Capucho e Alenitchev, suficiente para entrarem na equipa tipo do plantel que venceu campeonato, Taça de Portugal, Supertaça e Taça UEFA. O extremo, ainda assim, teve uma utilização aos soluços, uma vez que o seu estilo lento, avesso a "meter o pé", não é inteiramente do agrado do treinador. Dessa forma, o consentimento da sua transferência para o Glasgow Rangers não foi uma surpresa.O defesa-central Ricardo Costa dispôs de igualmente de vários minutos de utilidade, mais na época passada do que na actual. Em sentido inverso, Secretário, Mário Silva, Paulinho Santos, que entretanto acabou a carreira, e Clayton, agora no Sporting, pouco mais serviram do que para tapar buracos, ainda que o brasileiro tenha sido decisivo na eliminatória com o Áustria Viena. FC Porto de Mourinho, sim, mas com atletas decisivos herdados de versões anteriores do mesmo clube. CONTRATADOSO FC Porto de Mourinho gastou 17,9 milhões de euros em reforços em duas épocas, uma verba assinalável, mas cujo investimento foi já resgatado. E com lucro. As vendas de Jorge Andrade, Postiga e Paredes, num total de 23 milhões de euros, cobriram folgadamente o dinheiro gasto em contratações, que ainda por cima serviu para ajudar a construir uma equipa que, em dois anos, gerou para o clube perto de 30 milhões de euros através das campanhas de sucesso na UEFA e na Liga dos Campeões. No princípio da temporada 2002/03, a primeira inteira de Mourinho nos agora bicampeões nacionais, o FC Porto contratou Jankauskas à Real Sociedad (2,6 milhões de euros), César Peixoto ao Belenenses (1,5), o par Derlei e Nuno Valente (1,7 milhões, mais a cedência definitiva de Alhandra e o empréstimo de Hugo Almeida) e ainda Tiago à União de Leiria (750 mil), Paulo Ferreira ao Vitória de Setúbal (2), Nuno ao Deportivo (avaliado em 3 milhões de euros, veio como compensação na transferência de Jorge Andrade), e ainda Bruno (Marítimo), Maniche (Benfica) e Pedro Emanuel (Boavista), todos em final de contrato com os seus clubes. Marco Ferreira, contratado por um milhão ao Setúbal, foi, então, o único reforço de Inverno.Os ajustes a meio desta temporada foram mais ambiciosos, fruto também das lesões simultâneas de Derlei, Peixoto e Ricardo Fernandes. Mourinho reequilibrou o plantel com Carlos Alberto (Fluminense, por 2 milhões), Maciel (Leiria, por 1,5) e Sérgio Conceição (Lazio, a custo zero). Antes, durante o defeso, o campeão tinha gasto cerca de 5 milhões em seis reforços. McCarthy chegou do Celta (3,3 milhões), Ricardo Fernandes do Sporting (troca com Clayton), Serginho do Paços de Ferreira (800 mil), Pedro Mendes do Guimarães (750 mil), Bruno Moraes do Santos (custo zero) e Bosingwa do Boavista. No caso do boavisteiro, o FC Porto não desembolsou qualquer verba: adquiriu 50 por cento do passe, abdicou da indemnização de 250 mil euros a que tinha direito pela transferência de Ricardo Sousa do Beira-Mar para o Bessa e terá ainda de realizar um jogo particular com o Boavista. O negócio global foi avaliado, segundo o Boavista, em 1,5 milhões de euros. DISPENSADOSSe Mourinho deu o seu aval para o FC Porto contratar duas dezenas de jogadores, pelo menos o dobro percorreu o caminho inverso durante as duas épocas e meia em que o técnico está no clube. Os jogadores que tiveram o seu destino traçado para fora das Antas dividem-se essencialmente em três grandes blocos: os vendidos, os emprestados e os dispensados, ainda que estes dois últimos, em muitos casos, estejam directamente relacionados. As quatro vendas feitas neste período serviram para financiar todos os reforços e para ter algum lucro: Jorge Andrade (nove milhões de euros/Deportivo) e Paredes (5M/Reggiana) no início da época 2002/03 e Hélder Postiga (9M/Tottenham) e Capucho (1M/Glasgow Rangers) na seguinte. Por outro lado, Clayton saiu por troca directa com Ricardo Fernandes.Mais longa é o inventário de elementos cedidos temporariamente a outros clubes, a maioria sem hipóteses reais de voltar a jogar pela equipa principal do FC Porto: Bruno, Quintana, Rubens Júnior, Ricardo Silva, Ibarra, Soderstrom, Pena, Serginho, Cândido Costa, Manuel José, Hugo Luz, Marcos António, Joca, Buszaky, Ferreira, Quintana, Tiago, Tonel, Bruno Alves e Hugo Almeida. Destes, Bruno, Serginho e Tiago têm a particularidade de terem sido contratados na era Mourinho e já terem sido emprestados. Extensa é também a lista de atletas que já não estão ligados contratualmente ao clube e tiveram a sua situação definida nos dois últimos anos. Folha, Elias, André, Ricardo Sousa, Nélson, Pedro Espinha, Rodolfo, Folha, Ovchinnikov, Peixe, Sousa, Romeu, Marco Almeida, Rafael, Fehér, Alhandra e Pavlin, por uma razão ou outra, já não fazem parte dos quadros do FC Porto. Fehér, por exemplo, antes da sua ligação ao Benfica e da sua morte, não aceitou renovar, enquanto Alhandra foi cedido definitivamente à União de Leiria no âmbito da transferência de Derlei e Nuno Valente. Paulinho Santos, por outro lado, terminou a carreira no final da época passada.