Morreu Lygia Pape, uma artista da vanguarda brasileira

A artista plástica brasileira Lygia Pape morreu de cancro na segunda-feira ao final da tarde, com 75 anos, no Rio de Janeiro. Lygia Pape, diziam ontem os jornais brasileiros "on line", era uma das mais importantes artistas do país. "Uma artistona", segundo um dos muitos depoimentos que ontem lamentavam o seu desaparecimento no diário "O Globo".A artista, que é uma das fundadoras do movimento neoconcreto brasileiro no final dos anos 50, tinha muitas ligações a Portugal, nomeadamente ao Porto, onde o Museu de Arte Contemporânea de Serralves lhe dedicou em 2000 a primeira antológica que fez na Europa. Foi também no Porto, mas em 1999, que se realizou na Galeria Canvas a primeira exposição de Lygia Pape em Portugal. Meses antes, na exposição inaugural do Museu de Serralves, que agora faz cinco anos, mostrava-se uma das suas peças mais conhecidas, "Caixa de Baratas", uma obra que provoca repulsa no espectador e é uma crítica à arte institucionalizada - "trancada, morta", explicou numa entrevista ao PÚBLICO. É exactamente essa ligação especial com o espectador, tornando-o uma espécie de co-autor das obras de arte, que Lygia Pape explora com o movimento neoconcreto, ao lado de Hélio Oiticica e Lygia Clark. Pape evocava em primeiro lugar a participação do espectador como o conceito mais importante do movimento. O director do Museu de Serralves, João Fernandes, disse ontem que guarda uma imagem de "inquietude" da artista brasileira - "Lygia Pape tinha a abordagem de uma jovem artista." Guarda também "o extraordinário testemunho destes contextos históricos que puseram em questão a arte". Fernandes é da opinião que Oiticica, Clark e Pape tiveram um discurso pioneiro na arte ocidental. "De uma certa maneira, a arte brasileira configura uma primeira crítica à autonomia da arte em relação à vida protagonizada pelas gerações modernistas, as primeiras vanguardas. Põe em causa o conceito de objecto na arte, abrindo-a ao espaço, à interacção com o espectador, convidando-o a ser cúmplice do processo criativo." Para os neoconcretistas, explicou o director, a obra de arte não se pode restringir ao objecto: "Eles procuram privilegiar a experiência como momento gerador da obra de arte. É o processo de experiência na própria criação do objecto que se torna importante. Procura-se relacionar o sujeito com o próprio trabalho da obra de arte e fomentar a participação do espectador na criação da obra." TropicalismoO Museu de Serralves esteve sempre empenhado, lembra Fernandes, em mostrar essa revolução conceptual que aconteceu no Brasil a partir dos finais dos anos 50 durante a ditadura militar. Começaram com Lygia Clark, mostraram a exposição-instalação "Tropicália" de Hélio Oiticica na inauguração do museu e fizeram a antológica de Pape em Outubro de 2000, juntamente com Artur Barrio e António Manuel. Foi a peça de Oiticica "Tropicália" que deu origem ao tropicalismo - "entrou no circuito da cultura de massa e virou tropicalismo através dos músicos, sobretudo do Caetano, do Gil e dos Mutantes", disse na mesma entrevista. Dos três nomes cimeiros do movimentos neoconcreto, Pape é a mais politizada e "chegou a ser presa pela ditadura", disse João Fernandes para explicar uma menor visibilidade em relação aos outros nomes. Esteve ligada ao Novo Cinema Brasileiro, nomeadamente a Glauber Rocha, chegando mesmo à realização. Com o poeta Reynaldo Jardim, fez os Ballets Neoconcretos, criados em 1958 e que Serralves também mostrou: "Era um ballet onde as pessoas estavam escondidas dentro de formas geométricas com rodinhas para deslizarem pelo palco. O que interessava mais era o motor do corpo e não aquela forma expressiva, expressionista, do corpo a mover-se no palco."A 5 de Junho, daqui a um mês, a sua obra pode ser revista na galeria Graça Brandão (ex-Canvas), no Porto. Será a primeira exposição póstuma e a montagem é assegurada por uma das duas filhas da artista. "Lygia desenhou uma teia especial para a sala da galeria. Tinha estado com ela em Fevereiro no Rio. Já mostrava uma grande debilidade mas tinha muito interesse em fazer a exposição", disse o galerista José Mário Brandão. São as suas "tteias" - delicadas construções em fio que começou a fazer em 1978 - que vão buscar o nome às teteias, ornamentos em ouro dados às crianças. São verdadeiras teias-de-aranha de forte efeito visual, que também mostrou em 2002 no Paço Imperial do Rio de Janeiro.