Contos infantis de Sophia em itinerância pelo país

O universo que Sophia de Mello Breyner Andresen imaginou há 50 anos para os seus filhos já passou por milhares de leitores e várias gerações. Agora, há três peças de teatro e uma exposição baseadas nos contos infantis da poetisa em simultâneo - e as salas estão sempre cheias.As edições de "A Menina do Mar", "A Floresta", "A Fada Oriana" e "O Rapaz de Bronze" - que inspiram os quatro eventos - cresceram com as gerações. Os famosos livros para a infância de Sophia estão quase a completar o milhão de exemplares de vendas acumuladas, número que Francisco Pimenta, editor da Figueirinhas, espera atingir este ano. Com 57 edições, "O Cavaleiro da Dinamarca" detém o recorde de vendas.Depois de "O Rapaz de Bronze", de 1956, "A Menina do Mar", a história da menina que, por causa de um menino, soube o que era a saudade, foi o segundo conto infantil da autora a ser publicado, em 1958. Estes e todos os contos para crianças da poetisa são como a velha de "A Fada Oriana": "tão velha como o tempo". São lidos nas escolas e adormecem crianças há várias gerações.Mais do que teatro infantilEm teatro/dança, ópera e cenários com desenhos, vários criadores portugueses trabalharam as histórias de Sophia em espectáculos que estão além da classificação de teatro infantil.Para representar "A Fada Oriana" foram escolhidas marionetas porque são "um pequeno objecto que ganha vida, e depois tem a facilidade de voar, de largar o chão", diz Joana Providência, encenadora de "Oriana", um espectáculo de teatro/dança produzido pela Academia Contemporânea do Espectáculo/Teatro do Bolhão, Porto.Depois do Porto e Bragança, a estreia de "Oriana" em Lisboa fez-se na Festa da Primavera, dia 21, no Centro Cultural de Belém (CCB), onde ficará em cena até ao dia 28. No domingo, na Sala de Ensaio do CCB estavam crianças de várias idades. "Aquela é a fada má", explica uma criança aos pais. "A maior parte das crianças estão muito dentro da história", diz Joana Providência.Música, luzes negras, projecções de imagens e alçapões que se abrem e que temos de imaginar o que têm dentro, são vários os recursos usados para encantar em "Oriana", a história de uma fada muito bonita que perdeu as asas porque não cumpriu uma promessa.A exposição "Das Histórias Nascem Histórias" está na Biblioteca de Santa Maria da Feira até 2 de Abril e segue depois para o Teatro Viriato, em Viseu. A proposta do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas feita à artista Fernanda Fragateiro para criar uma exposição itinerante para um público infanto-juvenil tinha como única sugestão usar a ideia de personagem. "A história da menina do mar seria sempre fundamental porque é uma história que eu gosto muito, muito, que eu também sou uma menina do mar", diz Fragateiro.Depois de ter decidido que o espectador seria a personagem principal, a artista escolheu como matéria literária os textos de Sophia de Mello Breyner. Pensou um espaço onde se teria que entrar como se entra numa história: "A espiral tem um lado dentro e um lado fora, e lembrei-me que os dois livros que poderiam funcionar bem seriam o mar, como o lado de dentro, e 'A Floresta', o lado mais exterior."Porque se sente "uma pessoa especial" quando lê a poetisa, Fragateiro começou o seu trabalho pela pergunta "Será que é possível fazer outras pessoas sentirem certas coisas que eu senti?"Ópera "A Floresta" em Aveiro"A Floresta" também foi o texto escolhido por Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada para o seu primeiro libreto. "É uma das primeiras óperas, se não mesmo a primeira ópera para crianças, feita de raiz, em Portugal," diz Eurico Carrapatoso, o compositor, "e a prova de sucesso esteve à vista com a sala do S. Luiz diariamente esgotada". Depois de ter estreado em Lisboa, a ópera vai para o Teatro Aveirense em Abril e para o Teatro Viriato, Viseu, em Maio. A encenação é de Nuno Carinhas, que também criou os cenário e figurinos, com formas "quase abstractas" para que "as crianças pudessem imaginar o que quisessem". "Fazermos as coisas de uma forma básica só porque é para crianças, acho um erro, até porque as crianças querem é crescer.""O Rapaz de Bronze" está no Instituto Português da Juventude da Parque Expo, adaptado para teatro infantil pelo Teatro Alternativo, e também em Setúbal, no Fórum Municipal Luísa Todi (até 28), numa encenação de Miguel Assis para o Teatro de Animação de Setúbal. Para o encenador, "os valores desta história são actuais e mais importantes do que nunca, como o valor das promessas cumpridas"."Confia nas crianças, nos sábios e nos artistas" diz o anão a Isabel, a menina da história de "A Floresta", que também aprende com o professor de música que "As coisas que passam ficam vivas para sempre num história escrita".