Neo-feminismo precisa-se!

Mulherzinhas... lembram-se deste título na literatura da adolescência? Não li. "Falta de cultura geral!" dirá a minha irmã mais velha se me ler. Admito a falta. Mas o título sempre me irritou... sempre antevi que por ali haveriam de passar uma série de temáticas de que andava arredada. Coisas de "mulherzinhas" que se refugiam em desgostos de amor, trapos e bolos. Nos últimos anos o tema "das empregadas" foi felizmente eliminado pela acção conjugada dos baixos ordenados e da escassez da mão de obra, para sossego e higiene do género.Lembrei-me disto porque, passados não sei quantos anos de iniciado o abençoado processo de emancipação, é esse o estatuto que globalmente continuamos a ter na nossa sociedade... mulherzinhas! Basta olhar o auditório do convento do Beato na apresentação do Compromisso Portugal para ver como estamos, também nesta matéria, a milhas dos nossos parceiros comunitários. A fina flor dos executivos modernos apresentou-se em peso no género masculino. Sofia Galvão foi a única oradora em todos os painéis para uma assembleia de cinzentões e cinzentinhos (os escassos sub-quarenta). Se a capacidade de inovação se avaliasse pela de se vestir de forma minimamente diferente, o desastre seria total.Um batalhão de meninas "dos serviços de apoio" e uma boa dezena de jornalistas (profissão onde as mulheres claramente dominam!) eram quase em exclusivo as presenças femininas na sala. Notou-o, já no final dos trabalhos e para lamentar esse facto, uma das poucas participantes do encontro. Ficaram assim de fora 55,4 por cento dos quadros superiores nacionais, com destaque para quase 67 por cento dos licenciados em ciências, 74 dos licenciados em matemática e estatística e 54 dos licenciados em administração e técnicas comerciais ( Expresso do último sábado).Os numerus clausus ao seleccionarem pela nota a entrada nas faculdades permitiram um autêntico assalto feminino aos cursos de cariz técnico científico - os que mais falta nos fazem - e acabaram por garantir a nossa total supremacia nessas áreas. As universidades estão cheias de mulheres, da medicina à astro-física, sem esquecer a matemática. Mas ficam-se por lá... na direcção das empresas, nos partidos, nos sindicatos, nas estruturas do poder continuam a dominar os homens. É certo que quem dominar essas áreas de saber dominará a prazo o futuro mas, vamos ter de continuar a esperar...E querem saber o que isso nos custa em termos de decisão política? Deixo-vos um exemplo. Na última sondagem RR-Expresso-SIC foi perguntado ao eleitorado como avaliavam a actuação dos ministros e, as notas negativas foram para: Celeste Cardona, Graça Carvalho, Manuela Ferreira Leite (três mulheres dadas como as piores e que não escapam à avaliação das suas pares) seguindo-se, Luís Felipe Pereira, Carmona Rodrigues, Figueiredo Lopes e Paulo Portas. As opiniões dos homens eram contudo bastante diferentes das mulheres. As mulheres davam também nota negativa a Sevinate Pinto, Pedro Roseta e Bagão Félix. Em contrapartida os homens chumbam, ainda que marginalmente, o ministro da Educação a que as mulheres concedem saldo positivo. Como serão os homens a decidir, de facto, qualquer remodelação... está tudo dito! E porque estamos aqui? Culpa nossa. Durante anos refugiadas num discurso tontinho de igualdade quando era de diferença, de genuíno direito à diferença, que deveríamos ter falado. Porque igualdade não é tratar como igual o que é diferente mas, exactamente o contrário!Ter o direito à igualdade não é poder trabalhar oito horas como qualquer um dos nossos companheiros e mais quatro em casa para cuidar da casa, da comida, das crianças, das roupas e do descanso "deles". Toda aquela série de coisas que feitas profissionalmente podem ser desempenhados por cozinheiros, empregados de copa e mesa, costureiros, engomadeiras, baby sitters e afins... O facto é que nós próprias estamos tão pouco convencidas da justeza da causa que, somos as primeiras a rotular como " umas pobres a viverem às custas do marido... sem fazer nenhum!" outras mulheres que começam a trabalhar às sete e acabam à meia-noite, sem direito a folgas, ou feriados e, para cúmulo, sem direito a salário, ao reconhecimento social do seu trabalho, ou às alegrias de uma carreira profissional. Apenas porque fazem tudo isso, dentro de portas.Enquanto estivermos convencidas disto, a guerra está perdida. Continuaremos a anos luz do que se passa na Suécia ou na Finlândia onde o poder efectivo é hoje partilhado por homens e mulheres, em verdadeira igualdade. Mas, precisamente para que isso se torne possível elas gozam de um sem número de direitos acrescidos que, por cá, soariam à chamada discriminação positiva. Porque, uma coisa é o direito a poder escolher a actividade que queremos exercer (e esse direito _ nunca é demais agradecê-lo às nossas mães e avós - está firmemente conquistado), outra coisa é fingir poder-se escolher o que, em rigor, por falta de condições económicas, apoios à maternidade, legislação permitindo uma efectiva igualdade de progressão na carreira nos é, absolutamente imposto. Ou seja, o duplo ou triplo emprego por toda a vida!Mas, para mudar este tipo de coisas urge agora, de novo, uma revolução feminista. O chamado neo feminismo que, tal como os neo-liberais ou os neo-conservadores, proponha uma coisa substancialmente diferente da corrente filosófica original. Essa, a do feminismo histórico, teve o mérito de nos trazer até aqui (e não foi nada pouco!) pelo que, não só não convêm rejeitar como é bonito preservar, embora remetendo-a discretamente para a gaveta. Quando surge no léxico social um "neo", é sabido, os originais reduzem-se naturalmente à categoria de bonzões ultrapassados.No caso do feminismo, por exemplo, ficariam nessa categoria algumas das Crónicas Femininas da Inês Pedrosa por quem nutro pessoalmente a maior simpatia mas, confesso terem, de vez em quando, o condão de me irritar pelo seu excesso pretensamente feminista. São textos magníficos do ponto de vista literário mas, convenhamos, um pedacinho démodées do ponto de vista dos conceitos. Vide a carta aberta escrita à filha neste último sábado, a pretexto do dia de hoje (Dia internacional da mulher), onde repega o estafado discurso pró-aborto da geração de sessenta pouco familiarizada com os progressos da contracepção. Fala da morte de uma mulher em Março de 68 " porque não queria ter mais filhos". Vítima da proibição do aborto em França a que chama "proibição da operação cirúrgica (já então relativamente simples) de tirar a semente de um filho da barriga de uma mulher". Esta imagem poética da semente não fica muito aquém da cegonha em matéria de educação sexual. É bom lembrar à criança que as verdadeiras sementes, não fecundadas, desfeitas ao ritmo mensal, as mulheres não podem de facto evitar ... mas elas não são filhos. Filhos não são coisa imposta à mulher. Não nascem nas nossas barrigas por obra e graça do acaso. E as mulheres que não querem ter mais filhos têm hoje um sem número de maneiras de responsavelmente os evitar. O aborto não é, nem pode ser apresentado como mais um método anti-conceptivo. Aliás, a tal "semente de filho" pode não ser querida, mas é exactamente igual à semente que amigos e familiares, transformados em pais babados, chegados de uma primeira ou segunda ecografia, mostram enlevados, como "a primeira foto do bebé dentro da barriga da mãe"!