Pop Five Music Inc

%Miguel Francisco Cadete

Portugal. 1968. Há anos que o país está emaranhado numa guerra que tem lugar noutro continente mas sabe pouco do que se passa na Europa. Os Beatles, entretanto, já tinham revolucionado o mundo - pelo menos o mundo ocidental - e em Lisboa, no Porto ou Coimbra surgiam as primeiras manifestações, ainda que inocentes, caricaturais ou simplesmente amadoras daquilo que era tomado como música rock. Ou melhor, no princípio era o yé-yé, música com guitarras eléctricas para inconscientes bailes de finalistas ou folclóricos concursos no Teatro Monumental. Em Coimbra, que atraía os jovens com pretensões académicas, nascia a música de intervenção, nitidamente colada à oposição que se fazia ao regime. O Porto mantinha o seu estatuto provinciano, aliás como o resto do país. E as bandas de rock surgiam nos liceus e em zonas residenciais como as Antas e a Foz. Foi quando o yé-yé já estava a dar o berro que surgiram os Pop Five Music Incorporated, também eles praticantes da readaptação dos clássicos da música pop mas com orgulho suficiente para ousarem alguma criatividade. Juntamente com o Quarteto 1111, os Pop Five Music Incorporated cometeram a proeza de inaugurar os anos 70 da música rock em Portugal. Constituídos, à altura da sua formação, por David Ferreira (órgão, voz), António Brito (baixo e guitarra, mais conhecido por Tózé Brito, hoje administrador da editora Universal), Luís Vareta (baixo e viola), Paulo Godinho (voz e viola, irmão de Sérgio Godinho) e Álvaro Azevedo (bateria), os Pop Five estiveram quase a tornar-se um caso sério da música rock quando assinaram contrato discográfico com a etiqueta Orfeu de Arnaldo Trindade, a mesma que editava os discos de José Afonso e Adriano Correia de Oliveira, entre muitos outros nomes maiores da música portuguesa. Durante cinco anos mantiveram uma carreira "impossível" no tal país "orgulhosamente só", que lhes valeu a edição de um álbum, dois EPs e seis singles. Findaram-se em 1972, quando a popularidade se desvanecia e a chamada para a guerra dos seus músicos desfazia a possibilidade de continuar. Mais de 30 anos depois, a sua obra integral é reeditada em CD: "Odisseia - Obra Completa 1968-1972" é também um documento histórico sobre a juventude portuguesa no final dos anos 60. Afinal, tal como hoje, eles imitavam os seus ídolos e permitiam-se a evasão de cantar em inglês para um povo maioritariamente analfabeto. Uma forma subtil de dizer que eram do contra? O baterista Álvaro Azevedo viria mais tarde a fazer parte dos Arte & Ofício e dos Trabalhadores do Comércio (mas nunca esteve nos Psico, ao contrário do que apareec em várias biografias), e foi o principal obreiro desta reedição dos Pop Five Music Inc. Hoje dedica-se à exploração de um bar-discoteca no Porto, e não tem medo em confessar: "Todos os grupos nascem da mesma maneira. São grupos de amigos na adolescência, com 17 ou 18 anos, e a nós aconteceu o mesmo. Quando nos juntámos, só queríamos tocar em festas de amigos e nas garagens. Um de nós tinha uma garagem grande e era aí que ensaiávamos, com um amplificador, uma aparelhagem de vozes e os instrumentos. Não havia meios técnicos: ligávamos o baixo, a guitarra e a organeta no mesmo amplificador. Mas as coisas foram evoluindo e das garagens passámos para as festas de finalistas e para os festivais no Verão com mais três ou quatro grupos. Nós, tal como os grupos de baile, ouvíamos os Beatles e os Stones na rádio - porque, na altura, os discos eram artigos de luxo - mas não nos limitávamos a copiar. À época existiam grupos tecnicamente melhores mas nós éramos mais atrevidos. Não é que transformássemos as músicas das quais fazíamos versões mas tentávamos não copiar. Se não conseguíssemos tirar o solo, fazíamos o solo à nossa maneira."discos debaixo da cama. A situação era comum nos grupos portugueses que se dedicavam ao rock. As versões dos Beatles e dos Shadows faziam, quase obrigatoriamente, parte do reportório. Mais do que forjar uma identidade própria, os grupos dedicavam-se ao mais puro entretenimento, ainda que com variações introduzidas devido à falta de técnica, como acontecia com os Pop Five. A inexistência de discos do género no mercado criava também uma oportunidade, logo identificado pelas companhias discográficas, que substituíam os originais Beatles e Shadows pelos seus correspondentes portugueses. No caso de Arnaldo Trindade e da marca de discos Orfeu, depois dos acontecimentos de 1968 em França, é natural que existisse uma associação do rock a uma certa contracultura. Em 1970, o primeiro álbum dos Quarteto 1111 entra para a história como o primeiro disco de rock português a ser censurado pelo regime. E a bem dizer, os Pop Five Music Inc também fizeram parte do reviralho, ainda que de forma completamente inconsciente. "Os discos não chegavam cá a tempo e horas", continua Álvaro Azevedo, "e nós começámos a ser conhecidos no Porto e arredores devido às festas que fazíamos. Isso chegou aos ouvidos da editora Orfeu, que na altura era representada pelo Carlos Cruz e pelo Viale Moutinho. São eles que nos aparecem no local onde ensaiávamos para que lhes tocássemos o 'Ob-la-di Ob-la-da" e o 'Blackbird', dos Beatles. Como esses discos não existiam no mercado, propuseram-nos gravar versões daquilo. Não digo que fossem discos de ouro ou platina, mas vendiam-se muito bem. Por outro lado, não havia consciência política. Mas recordo-me de, naquela altura, dormir com os discos do Zeca Afonso debaixo da cama. O Arnaldo Trindade pedia para nós guardarmos aqueles discos que um dia destes viria buscá-los. E nós nem sabíamos qual era o problema, se era a PIDE ou o que era... Recordo-me de ter 200 ou 300 discos debaixo da cama sem saber porquê."Isolado do mundo, Portugal mantinha-se como uma espécie de ave rara onde não sopravam os ventos dos "swinging sixties" londrinos. O bloqueio era apenas desfeito por programas de rádio, como o "Em Órbita" ou pelos raros amigos que iam a Inglaterra e traziam as últimas novidades discográficas. É assim que os Pop Five acompanham o que se vai fazendo lá fora, para mais tarde gravarem as suas versões. Os dois primeiros EPs, editados em 1968 e 1970 já incluem, no entanto, um original de TóZé Brito ("You'll see") no meio de versões dos Beatles ("Ob-la-di..." e "Birthday") e do "Adagio" de Albinoni, esta muito devido à formação clássica que os teclistas dos Pop Five gostavam de ostentar. Um virtuosismo que contrastava gritantemente com a candura das suas primeiras gravações, registadas em inacreditáveis duas pistas nos estúdios do Monte da Virgem, em Vila Nova de Gaia. Mas da pop "bubblegum" dos seus primeiros dois EPs, os Pop Five aderem rapidamente a uma pompa e circunstância só possível pela entrada de Miguel Graça Moura (até há pouco maestro da Orquestra Metropolitana de Lisboa), logo depois do abandono de TóZé Brito e David Ferreira. O primeiro álbum, ainda que exclusivamente repleto de versões de clássicos (Beatles, Traffic, Bee Gees, Creedence Clearwater Revival, Jimi Hendrix, George Harrison) demonstrava uma maior maturidade e ambição, e até foi gravado em quatro pistas. Intitulava-se "A Peça" e tinha início com uma muito conceptual "Overture", a que se seguia uma versão jazzística de "Jesus, Alegria dos Homens", composição original de J.S. Bach. O dedo de Graça Moura fazia-se sentir."made in England". Os grupos portugueses de rock começavam então a despontar e, a par dos Pop Five, muitos outros iniciavam-se na gravação de discos e a fazer concertos. Para Azevedo, vivia-se mesmo uma época fervilhante, ainda que sem a mediatização que viria a marcar o rock português surgido na década de 80. "Os nossos discos começaram a ouvir-se na rádio e até surgiam algumas críticas na revista 'Flama' e nalguns outros jornais. Já existiam os Chinchilas [de Filipe Mendes], os Zoo [de Guilherme Inês], o Quinteto Académico, e ainda apanhámos a fase final do yé-yé, dos Sheiks ou do Conjunto de Sousa Pinto. E existiam muitos grupos de baile... Nós éramos diferentes, éramos um grupo de rock, ou de pop. O que não impedia que muitas vezes, em algumas festas, nos viessem perguntar: 'Será que vocês podem tocar um tango?'"Para os Pop Five Music Inc, o reconhecimento chegaria logo em 1970, quando gravaram o tema "Page One", indicativo de um programa de rádio de José Manuel Nunes, o "Página Um", emitido pela Renascença e que veio a ter uma importância similar à do "Em Órbita" pela divulgação que fazia da música pop, rock e folk de origem anglo-saxónica. Os Pop Five transformavam-se em estrelas à medida do país. O single chegou mesmo a ser editado em vários territórios internacionais como o Brasil, Austrália, Holanda, França e Alemanha, com a particularidade de o lado B, "Ária para a 4ª Corda", outra composição de Bach, ter sido escolhida nalguns casos como o tema principal. A preponderância de Miguel Graça Moura voltava a fazer-se sentir, levando os Pop Five para os caminhos de uma música com pretensões eruditas. No single seguinte, outro dos seus temas mais popularizados, "Orange", a importância de Graça Moura volta a ser notória, não só devido à orquestração mas também ao gigantesco solo de órgão. Os Pop Five mostravam-se a par do seu tempo, acompanhando o trabalho de bandas como os Procol Harum ou dos belgas Wallace Collection. E voltavam a acertar na "mouche".Os dois últimos singles correram tão bem, comercialmente falando, que a editora Orfeu levou os Pop Five para Londres, onde haviam de gravar os seus três derradeiros singles. Para trás tinha ficado a tentativa de cantar em português, "mais por imposição dos homens da rádio", que se veio a mostrar falhada com o single "Menina" / "Homens do Mar". Em Inglaterra, os Pop Five deparam-se nos Estúdios Pye - os mesmos onde José Afonso gravou os álbuns "Traz Outro Amigo Também" e "Coro dos Tribunais" - com uma megalómana mesa de gravação de 16 pistas e, pela primeira vez, passa a fazer sentido a expressão "made in England" que mandavam imprimir nas capas de todos os seus discos. De uma assentada, o grupo grava os seis temas que viriam a constituir o reportório dos seus três últimos singles, publicados entre 1971 e 1972, mas sem nunca conseguir repetir o êxito dos tempos de "Page One" e "Orange". "Stand By", "Take me to the sun" e "No time to live" viriam a marcar o declínio dos Pop Five Music Inc que, com alguns dos seus membros a cumprir serviço militar obrigatório, se dissolveriam definitivamente em 1972.Um ano antes, em 1971, um último momento de glória: são um dos grupos portugueses que participam na primeira edição do Festival de Vilar de Mouros, ao lado de nomes como Manfred Mann e Elton John. Eram cada vez menos pop e mais rock, sendo notória a influência de bandas inglesas como os Led Zeppelin e Deep Purple, e até a recente inspiração em estados alterados da mente. Hoje, Álvaro Azevedo já não tem nada a esconder: "As primeiras experiências com droga que tive nessa época também eram um pouco inconscientes. Foi em Vilar de Mouros e, para ser sincero, nem se falava em droga. Esse chavão, 'droga', só surgiu mais tarde. Na altura falava-se em erva e nunca se dizia droga e a verdade é que, em Vilar de Mouros, toda a gente fumava. As pessoas davam umas passas, ficavam um bocado maradas e pronto. Já existiam outras drogas, mas os ácidos só apareceram mais tarde, em 1972 e 1973, depois de termos conhecimento do que era o Maio de 68, dos encontros de artistas, dos movimentos contra a guerra, da contracultura,..."O cotejo com os maiores nomes da música popular internacional, como aconteceu em Vilar de Mouros, sublinhava a desigualdade de condições: "Hoje é impossível subir para cima de um palco enquanto está um grupo a tocar, mas no concerto do Elton John eu estava ao lado do baterista - que era o que me interessava -, a olhar para aquela bateria cheia de timbalões. Tinha o meu 'kit' normal e quando vi o homem montar uma bateria com dez ou doze timbalões só pensava: 'Mas o que é isto?'" Por outro lado, desenhava-se a disputa entre os dois melhores teclistas de rock em Portugal: Miguel Graça Moura dos Pop Five e José Cid do Quarteto 1111. Polémicas que ao público passavam despercebidas. "Na altura, as pessoas chegavam-se ao pé do palco, o grupo começava a tocar e o público ficava ali a ouvir. Havia um ou outro que punha o braço no ar e se estivesse uma rapariga ao lado, era natural que durante um slow se agarrassem para dançar. Mas o público não participava da festa e era completamente passivo", conta ainda Álvaro Azevedo enquanto descreve o contexto do primeiro grande festival de música em Portugal. Dois anos depois de Woodstock e um ano a seguir ao festival da Ilha de Wight, o público português ainda não estava sintonizado com os novos rituais urbanos que procuravam o bucolismo do campo para celebrar a magia do rock. A Europa continuava longe e a MTV ainda não tinha iniciado as suas emissões. Em Portugal não foi certamente o rock que fez cair o muro, mas talvez tenha ajudado.