"Brasileiras são prostitutas, brasileiros são ladrões"

Um dia meteram-lhe 1500 euros na mão, numa estação de serviço, na Amadora. Ingrid, 23 anos, tinha ido comprar cervejas, quando o grupo de homens excitados a abordou, à saída do estabelecimento - e lhe fez a proposta. Em notas. "Homem português é assim. Não se aproxima para ter uma relação de amizade: vai logo direito ao assunto."A jovem sabe a razão deste comportamento. E aponta o dedo, sem concessões nacionalistas, às mulheres brasileiras "que fazem programa". "A culpa é delas. Por causa de umas pagam as outras", atira. "Não é legítimo." Os abusos são quase diários. E começaram mal pôs o pé no aeroporto. No controlo do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, após aterrar na Portela, pediram-lhe para abrir a mala. O agente resolveu, então, tirar a etiqueta da bagagem: agarrou numa caneta, escrevinhou na superfície branca e introduziu-a de seguida entre as folhas do passaporte. Antes de o entregar e autorizar a passagem à brasileira vinda de S. Paulo, ainda disparou o convite: "Espero você me ligar." Quando Ingrid abriu o documento e viu a etiqueta, deparou-se com o número de telefone e a morada do agente.Andreia, 30 anos, em Portugal há quase dois, nem quer ouvir falar em experiências amorosas. Como Ingrid, culpa as prostitutas conterrâneas. "É uma solução fácil. Toda a gente consegue fazer dinheiro assim. Mas é algo sujo, que destrói a personalidade da pessoa." As duas jovens sabem do que falam. Tanto Ingrid como Andreia conhecem imigrantes que chegaram a Portugal com outras ambições, mas acabaram por seguir esse caminho. "Assisti a uma mulher, com dois filhos no Brasil, que vivia no meu apartamento, a entrar na prostituição. Começou dançando num bar de alterne, mas um dia apareceu em casa, de manhã, completamente destruída. Percebemos logo que tinha feito programa." Ingrid, que também frequentava a casa, lembra que chegou "a arrumar" a amiga, uma mulher provinciana, para ir ter com os clientes. "Vestia-a e chorava ao mesmo tempo", recorda.Dificuldade em arranjar namoradoAo contrário da maioria das imigrantes brasileiras, Andreia, recepcionista no restaurante-bar Armazém F, o mais conhecido local de "forró" e "pagode" de Lisboa, "baby-sitter" durante o dia, já teve três relações com portugueses. "Recuso-me a falar disso", responde, interpelada sobre o desfecho dos namoros, com uma expressão desolada. "O que eu posso dizer é que acho que os portugueses são mais brutos. Fazem mais sacanagens com as mulheres. Acho que isso deriva, em parte, do facto de as mulheres portuguesas serem mais submissas", sugere.A esta explicação Simone, uma jovem bonita, usando um decote pronunciado, acrescenta a maior extroversão do povo brasileiro. E diz que as confusões não são só com os rapazes. "No meu local de trabalho, se me viam a falar com alguém, logo diziam que eu dava moral para todo o homem", afirma. "Os portugueses vêem-nos a dançar, a rebolar a bunda - sabe como é? - e julgam logo que nos estamos a oferecer ou que queremos ir para a cama com eles."Tal como outras brasileiras, também Simone já foi seduzida para entrar no "negócio". E, tal como elas, não foi preciso estar muito tempo em Portugal. "Chegámos ao aeroporto e dissemos ao taxista para nos indicar uma pensão. Ele levou-nos para uma em Belém. Quando lá chegámos, o dono perguntou-nos logo o que é que estávamos dispostas a fazer."E com os rapazes brasileiros? Como é a relação deles com os portugueses? "As brasileiras são prostitutas, os brasileiros são ladrões", contrapõe automaticamente Simone. Para os homens, de facto, parece ainda mais difícil fazer amizades ou outras intimidades. São os próprios que o assumem. Janderson, 17 anos, diz que "pouquíssimos portugueses têm conversa". E que há um tratamento diferente consoante o género: "Os portugueses vão na rua e não mexem com os brasileiros. Mas se passa uma brasileira começam logo a assobiar", sustenta, admitindo que os seus amigos "são quase todos brasileiros". Ailton, 35 anos, casado com uma portuguesa, é da mesma opinião. Estudante de Ciências Políticas na Universidade Católica, há 14 anos em Portugal, dono de uma pequena empresa de tectos falsos, acredita, ainda assim, que o sexo feminino é mais aberto. "Você fala com um português de 20 anos e ele parece um bebé grande. Enquanto as mulheres portuguesas são mais adultas", defende. Por isso, o baiano, bonacheirão e comunicativo, não hesita em aconselhar os seus conterrâneos a procurar primeiro o convívio com as mulheres. "Você conhece primeiro elas e depois talvez ganhe o respeito deles."destaque: "Os portugueses vêem-nos a dançar, a rebolar a bunda - sabe como é? - e julgam logo que nos estamos a oferecer ou que queremos ir para a cama com eles"