El Corte Inglés vai ficar na Avenida da República

É em Vila Nova de Gaia e não no Porto que vai ficar instalada a primeira área comercial ligada ao grupo espanhol El Corte Inglés a norte do Douro, prevista para finais de 2005. Ao fim de dois anos de negociações, a Câmara de Gaia e a cadeia espanhola chegaram a um acordo, e ontem, em conferência de imprensa, Luís Filípe Menezes anunciou que as obras com vista à instalação do novo espaço comercial, na Avenida da República, junto ao IC 24, devem iniciar-se ainda este ano. Trata-se de um projecto que prevê um investimento de 250 milhões de euros e a criação de 1500 postos de trabalho directos, acrescentou.O presidente da Câmara de Gaia anunciou também que o El Corte Inglés está em condições de apresentar o projecto de execução da obra porque o único entrave que existia à instalação de uma unidade comercial do grupo foi desbloqueado na passada semana com a assinatura do despacho da secretária de Estado da Indústria, Comércio e Serviços, Rosário Ventura, que autoriza o pedido de transferência da localização do El Corte Inglés do Porto (Avenida de França) para Gaia."Achei que este era um projecto importante para Gaia e bati-me por ele", declarou Menezes, fazendo questão de dizer que o facto de os espanhóis terem optado por Gaia [e não pelo Porto onde pretendiam instalar-se inicialmente, tendo desistido apenas porque Rui Rio sempre disse que queria o El Corte Inglés na Baixa e não na Boavista] não representa uma vitória contra ninguém. "Não é contra ninguém", adiantou o autarca gaiense, negando que a investida de Gaia tivesse alguma coisa a ver com fracasso das negociações com a autarquia de Rui Rio. "Não sei das negociações do Corte Inglés com o Porto, não tenho nenhum serviço de contra-informação. Não sei com quem é que o Corte Inglés negociava, sei que negociei com o Corte Inglés", atirou.Depois de criticar a notícia de um semanário este fim-de-semana, segundo a qual "a Câmara de Gaia estará na disposição de oferecer o terreno [aos espanhóis], factor que terá pesado na decisão da cadeia espanhola", Menezes revelou que "a câmara, nem esta nem nenhuma câmara é a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, não pode dar terrenos a uma empresa. Não pode e não deu, é um negócio estritamente privado entre operadores privados, a câmara não tem rigorosamente nada a ver com isso". Confrontado com a eventualidade de a decisão do El Corte Inglés ter sido influenciada por qualquer tipo de cedência por parte da edilidade, o presidente da câmara negou quaisquer contrapartidas e foi peremptório: "Rigorosamente nada, a não ser usufruir do maior investimento que se faz em Portugal nos últimos anos, desde a instalação da Ford a sul de Lisboa", disse.Considerando esta decisão "como um sucesso" da administração municipal que lidera, Menezes esclareceu que os espanhóis optaram por Gaia porque a localização encontrada "reúne de uma forma imbatível" os três critérios que foram exigidos pelo grupo e que são: um número de habitantes residentes numa área de proximidade de dez a quinze minutos a pé do futuro centro comercial; metro à porta e uma via estruturante intermunicipal na envolvente [o IC 23]". Vincando que "o Corte Inglés é um projecto-âncora dinamizador do comércio tradicional", Menezes lançou o nome de Rui Rio para dizer que o presidente da Câmara do Porto também partilha dessa opinião. "Rui Rio lutou com grande lucidez para que o Corte Inglés fosse para o centro da cidade para dinamizar o comércio tradicional. Faço dele meu advogado".Discordando daqueles que dizem que um espaço comercial como o que vai surgir em Gaia pode definhar o pequeno comércio, Menezes assevera que "o futuro do comércio tradicional passa pela sua modernização, pela sua competitividade, não passa por mudar o mundo, nem valores civilizacionais. Não é por decreto-lei que se vai resolver o problema do comércio tradicional".Visivelmente satisfeito por Gaia ter conseguido mais um equipamento que estava previsto para o Porto, Menezes revelou que vão ser necessárias algumas correcções em termos de acessibilidades circundantes ao local e falar com a Metro do Porto para ajustar a funcionalidade do sistema de transportes o melhor possível à nova superfície que vai surgir à face da Avenida da República. O concurso para conclusão do troço final do IC 23, uma empreitada da responsabilidade da Administração Central, será lançado a curto prazo, segundo revelou.O PÚBLICO tentou ontem obter um comentário da presidência da Câmara do Porto à decisão oficial de o El Corte Inglés se instalar em Gaia, mas fonte da autarquia disse que Rui Rio não faria quaisquer declarações sobre o caso, remetendo a posição do presidente para as afirmações que proferiu ao PÚBLICO sobre esta matéria no passado dia 18 de Setembro (ver cronologia).CAIXAMenezes "não deseja insucessos" a Rio"Se eu fosse presidente da Câmara do Porto procuraria fazer com que o El Corte Inglés tivesse ficado no Porto". A afirmação é de Luís Filipe Menezes que ontem, em declarações aos jornalistas, rejeitou fazer desta vitória uma "derrota" de Rui Rio. "Acho que deve haver uma sã convivência entre os presidentes de câmara, mas o que eu puder tirar aos outros para melhorar o meu concelho, desde que seja por métodos lícitos, sem atropelar nem prejudicar ninguém...", comentou. Discreto nos comentários, Menezes fez questão de dizer que "o senhor presidente da Câmara do Porto gere a sua cidade da forma que entender e eu desejo que tenha muito sucesso, é um companheiro meu de partido, não lhe desejo insucessos e, portanto, procuro compreender e aceitar os seus critérios e as suas opções", disse Menezes, prometendo que enquanto for presidente da câmara fará o possível para que "o melhor venha para Gaia".