Improvisação sem rótulos no Festival Co-Lab

Co-Lab, laboratório de colaborações musicais em torno de um conceito de liberdade que nasce da improvisação. É também nome de festival: Co-Lab, Festival Internacional de música experimental/improvisada - de hoje a 28 no Teatro Carlos Alberto, no Porto -, um dos menos comprometidos com as regras do "mainstream", ao qual não escapam nem as "novas músicas". Diz a organização que "de fora, ficam todos os rótulos - free jazz, rock progressivo, minimalismo, pós-serialismo and so on". Descontando o "and so on", género ainda pouco conhecido entre nós, o Co-Lab despreza, de facto, o imobilismo e a arrumação em prateleiras.As atenções centram-se em quatro nomes sonantes da música improvisada europeia: Chris Cutler, Eugene Chadbourne, Phil Minton e Jon Rose. Vão colaborar uns com os outros, trocar ideias e sons, em formatos que vão do solo ao quarteto. Chris Cutler é o baterista-aranha (os seus ritmos estendem-se dos materiais mais elementares à bateria electrónica), o anarquista, o esteta e o apreciador de vinhos que militou nos anos 70 e 80 em algumas das mais importantes formações de "art rock", como os Henry Cow, Art Bears, News from Babel e Cassiber, imbuídas do espírito de intervenção política que levou à criação da cooperativa "Rock in Oposition". Onde a música nasce espontânea, lá está ele a impor a ordem, a única não totalitária, que advém da inteligência, em colaborações que vão de antigos colegas seus nos Henry Cow, como Fred Frith, a Lutz Glandien e aos portugueses Telectu.Eugene Chadbourne é o guitarrista excêntrico que adaptou a música de Bach ao banjo. Transforma numa espécie de "country music" de insectos Duke Ellington e Albert Ayler e colaborou com os Butthole Surfers, rockers sujos e subversivos. Não menos desalinhado, Jon Rose é o violinista sem escalas nem modelos fixos (incluindo os dos violinos que toca, mutações aberrantes que fariam arregalar os olhos de espanto a Paganini: mecânicos, eólicos, de duplo braço, etc.) e o humorista que já gravou um "Music for Restaurants", com direito a poesia fonética e colagens delirantes em ementa de "haute cuisine" musical.Phil Minton, o vocalista doido que canta como se estivesse a viver os últimos segundos de vida e o homem que, na sua estreia ao vivo em Portugal, quase nos atingiu em cheio com uma escarreta (sim, o canto de Minton tem origem no fundo) proveniente de uma "performance", digamos, mais visceral, completa o quadrilátero de grandes improvisadores deste Co-Lab (dias 24, 26 e 28, às 21h30). Paulo Raposo, músico e videasta dos Vitriol, junta forças com o alemão Marc Behrens, criador de atmosferas electrónicas, e Jeremy Bernstein, autor de um "ambiente informático multidimensional de processamento de dados" (hoje, às 21h30). Pierre Redon improvisará ao lado de Etsuko Chida. O primeiro, influenciado por Cage e Derek Bailey, faz "uma música que tem sobretudo em conta a espacialização da matéria sonora, a polifonia e uma construção rítmica alicerçada sobre pulsações irregulares". A segunda toca koto (instrumento tradicional japonês) e canta (hoje, às 21h30).Ernesto Rodrigues, com Guilherme Rodrigues, Manuel Mota, José Oliveira e Margarida Garcia, são outras presenças portuguesas no Co-Lab (dia 24, às 21h30). Ernesto Rodrigues, esgotada a paciência com o rock, dos tempos em que integrava a banda de Jorge Palma, partiu para os limites mais radicais da música improvisada até chegar à chamada "micro-música" ou "near silence", apropriação das directivas de John Cage, mestre-escultor do silêncio ou, melhor dizendo, poeta-cientista munido de microscópio sonoro de alta potência. Festival Co-LabPORTO Teatro Carlos Alberto. Tel.: 223401910. Hoje e dias 24, 26 e 28, às 21h30. Bilhetes de 7 a 15 euros.