Diogo Lopes Pacheco, fidalgo, conselheiro, "matador" e guerreiro

No "pool" genético dos Pachecos, de que uma desgraçada parte me coube, encontra-se o do "matador da linda Inês", Diogo Lopes Pacheco. O homem chegou-me antes de tudo pelo rumor familiar, uma espécie de fio corrido de palavras, que vai escolhendo os avoengos, e classificando-os em função das necessidades da parentela no presente. Como as necessidades do presente são quase sempre desventuras, tendem a avolumar-se com o tempo as figuras do passado e a crescer nos intervalos da decadência das actuais. É um processo que Eça retratou na "Ilustre Casa de Ramires", onde o perfil austero e destemido dos Ramires do tempo dos Tructesindos servia para mostrar a vil tristeza da cobardia de Gonçalo, o Ramires vivo.Também é verdade, indo de novo a Eça, que os Ramires do passado fizeram o bastante para mudar o Ramires do presente. Foi sonhando com os seus avós, vestidos de couraça e erguendo a espada para matar a mourama ou então o vizinho desrespeitador, que Gonçalo encontrou a coragem que nunca tivera. E também é mais verdade ainda que no fabuloso diálogo final da "Ilustre Casa", a história de Gonçalo é perfigurada como a história... de Portugal. Olhando eu, deste século novo, setecentos anos depois, para o meu Tructesindo familiar, também suspeito que... está lá a história de Portugal.Diogo Lopes Pacheco não é uma personagem muito comum da história portuguesa: foi ao mesmo tempo conselheiro do rei, combatente em várias batalhas, fugitivo ilustre, disfarçado de mendigo, e servidor, embaixador, conselheiro de novo de três cortes: a portuguesa, a castelhana e a "francesa". Comandou tropas portuguesas e castelhanas. Pelas necessidades do seu exílio e das suas funções viajou, um destino muito raro nos portugueses desta época: foi até França e Avinhão, uma capital de papado, e a Roma. O fio do rumor familiar valorizava este Pacheco que teria "morto por razões de Estado, morto por Portugal". Diogo Lopes Pacheco ficava assim reduzido ao episódio central do nosso romantismo, o assassínio a sangue-frio, à punhalada, de uma jovem e bonita amante, "esposa secreta" e mãe. E pela história de um rei que, turvado pela vingança, perseguiu os seus matadores até os executar com requintes de crueldade, com excepção de um, o mais responsável, o nosso Pacheco. Toda a parafernália romântica, era invocada contra os matadores, reforçada por Camões e hipermediatizada nos filmes do Estado Novo, com o rei a obrigar os nobres a beijarem o cadáver de Inês numa cerimónia de necrofilia. Tudo isto era subsumido pela afirmação, pouco comum convenhamos, de que o assassínio fora "por razões de Estado". Já havia século XX nesta justificação do assassínio.Revisitando este Pacheco, não deixava de haver alguma razão, mesmo no moderno "dictum" da "razão de Estado". A personagem histórica é de facto "larger than life", e se nos parece assim muitos séculos depois, o mesmo deveria parecer aos seus contemporâneos. Primeiro, porque Diogo Lopes Pacheco viveu muito, o dobro do que era normal na sua época - nasceu em 1304 e morreu por volta de 1393, ou seja, a caminho dos noventa anos. Para o século XIV é obra. Isto significa que viu serem reis de Portugal D. Afonso IV, D. Pedro, D. Fernando e o início do reinado de D. João, que acompanhou a política e a guerra desde as lutas sucessórias do fim do reinado de D. Dinis até às "jacqueries" que marcam o fim social da Idade Média.Como fidalgo dos maiores do reino, descendia da linhagem, meia real meia mítica, dos Pachecos, que vinha de Fernão Jeremias, natural de Burgos e que acompanhou D. Henrique da Borgonha quando este veio para Portugal. Na variante mais mítica, espalhada por algumas genealogias mais voluntaristas do século XVII e XVIII, descenderia de Lucius Junius Pacieco, um romano do século I, que por sua vez teria Vénus na sua ascendência. Não estou muito a ver os Pachecos virem de Vénus, mas o mundo dá muita volta. O brasão dos Pachecos também não é muito venusino, mas mais para o diabólico - dois caldeirões com serpentes. Outro imaginativo, o padre Cláudio Clemente, teria escrito"Estas caldeiras gravadasDe oro e preto mistoSe vieron aqui fixadasAntes de la venida de Cristo."Bem depois da "venida de Cristo", os Pachecos históricos começaram de rompante na nossa história com Fernão Rodrigues Pacheco. Este, alcaide de Celorico, foi um dos raros a recusar entregar o castelo ao futuro D. Afonso III, antes da morte de D. Sancho. Um poema, sulfuroso e genial, do nosso cancioneiro de escárnio e mal-dizer, de autoria de Airas Peres Vuitorom, relata o diálogo entre um bispo partidário do conde D. Afonso e o Pacheco no castelo"E quando o Conde ao castelo [ar] chegou de Celorico,Pachequ' entom o cuitelo tirou; e disse-lhe um bispo:- Mitte gladium in vagina, com el nom nos empeescas.Diz Pacheco: - Alhur, Conde, peede u vos digam: Crestas!"Poupo aos leitores do PÚBLICO a tradução do vernáculo e da língua afiada quer do bispo quer do alcaide, mas de facto há que reconhecer que não abunda hoje gente assim.Era de gente assim que Diogo Lopes Pacheco vinha. O seu pai também o era, Lopo Fernandes Pacheco foi também ele fidalgo, conselheiro, guerreiro, embaixador, combatente na batalha de Salado. Está sepultado na Sé de Lisboa, num dos mais belos túmulos medievais portugueses, com a sua longa barba e a seus pés um cão de caça ou de guerra. A face é a primeira da tumularia da época a não ser estereotipada, mas a retratar um homem real. O corpo alinha-se com a espada e o último gesto com que quis ser recordado foi exactamente o de desembainhar essa espada.Como não sou historiador medieval, tenho dificuldade em imaginar os mecanismos do poder de um conselheiro do rei, o cargo crucial que Diogo Lopes Pacheco exerceu para diferentes reis e diferentes cortes. Mas a decisão fundamental que tomou foi sem dúvida a de aconselhar a execução de Inês de Castro. Qual é a "razão de Estado" presente na condenação de Inês? Aquilo que para um Estado medieval era fundamental - o sistema de alianças entre famílias da nobreza - só podia ser mantido jogando um incessante conflito associado à transmissão do poder. Os mecanismos fundamentais desse poder passavam pelas alianças matrimoniais e pela entre-ajuda entre pais, filhos, filhos bastardos, sogros e outra parentela em caso de qualquer desequilíbrio pressuposto, como violação dos vínculos ou injustiça com um familiar outro. Os parentes, pais e filhos, irmãos entre si, filhos bastardos e filhos legítimos, filhos do primeiro casamento e do segundo, tios e sobrinhos, todas as gamas do parentesco estão na origem da maioria das guerras civis interiores e das guerras exteriores. A Guerra dos Cem Anos era a moldura longínqua deste mundo trecentista. Se Pacheco fosse inglês ou francês, poderia ter entrado numa peça de Shakespeare.D. Afonso sabia isso melhor do que ninguém, ele que lutara contra seu pai para travar o que achava o excessivo favorecimento dos seus bastardos em detrimento do seu direito à sucessão. A guerra civil que travou deixou um cortejo de mortos por Portugal e pelos reinos vizinhos. Confrontado ele próprio com o seu filho Pedro, Afonso vai ver repetir-se o mesmo conflito que já o opusera ao pai - guerra de filho contra pai, agora de pai contra filho.Pedro, envolvido pela paixão e pelo secreto casamento que mantinha com Inês de Castro, colocava-se sob a influência temida dos Castros, eles próprios usando a paixão do rei para fomentar um reagrupamento do sistema de alianças que significava nova guerra com Espanha. A escolha de D. Afonso era a de evitar uma guerra externa - eliminando o principal instrumento dessa guerra, Inês - e correr o risco de uma interna. Diogo Lopes Pacheco, como aliás muitos dos mais altos homens do seu Estado, aconselharam a cortar o mal pela raiz, a executar Inês. O rei ouviu-os, e aquilo que na época era a justiça ditou e executou a sentença e Inês foi degolada e não apunhalada como a lenda romântica conta. Álvaro Gonçalves e Pêro Coelho, os outros "matadores da linda Inês", eram exactamente os oficiais maiores da justiça real, o meirinho e o seu segundo. Do ponto de vista de Inês a diferença é nula, do ponto de vista do Estado foi uma execução ordinária. Eram os costumes selvagens? Bom, na parte mais civilizada da cristandade, no lado geograficamente oposto, em Bizâncio, o costume impunha, para além das mortes, a cegueira dos filhos, enteados, primos, porque não podia haver imperador que fosse cego. A cegueira era instrumental, a decapitação também. A morte de Inês evitou a guerra externa, mas garantiu a guerra civil. Pedro levantou-se em armas contra o pai, aliado aos Castros, e conduziu a habitual série de razias e expedições punitivas que eram a guerra destes tempos, do Norte ao Sul de Portugal e por Castela dentro, que as fronteiras eram familiares e não geográficas. Chegado ao trono, Pedro, que já era cruel, tornou-se "o Cruel". Fernão Lopes descreve o seu reinado como uma sucessão de actos de "justiça", assassinatos, castrações, mutilações, violências de toda a ordem. Se fosse hoje, a psiquiatria dar-lhe-ia um nome pouco recomendável. Vivia obcecado, mais do que pela justiça, pela punição, parece que debaixo dos aplausos do povo. Ao povo, que já estava habituado a sofrer todas as prepotências e injustiças, não lhe desagradava que houvesse uma certa socialização do terror - se é para nós, porque não há-de ser para eles. O rei dava-lhes "eles", os do meio, os seus criados por exemplo, e o povo aplaudia. A sanha contra os "matadores" apanhou Álvaro Gonçalves e Pêro Coelho e deixou escapar Diogo Lopes Pacheco. Pedro manobrou para que lhe fossem entregues os dois "matadores" exilados em Castela e arrancou-lhes o coração, a um pela frente e ao outro por detrás. Morreram certamente muito mal, mas este arranque de corações também parece lenda romântica. Se era um acto simbólico, porquê um pela frente e outro por detrás? E como escolheu o rei o lado? Ou foi só para variar, visto que o rei gostava de tormentos como o "The American Psycho"?Pacheco não esperou por ver de onde é que lhe arrancavam o coração. Primeiro, refugiou-se nas suas terras de Ferreira de Aves, mas os sinais da vingança chegaram-lhe cedo e fugiu. Teria passado por Piódão, que tem, na presença do fidalgo foragido, a sua entrada na história antes de as matas da serra do Açor terem ardido nestes dias de Armagedão. Dessa fuga contam-se muitas lendas, uma das quais uma história de pendor bíblico em que um mendigo avisa Diogo Lopes Pacheco de que estão à espera para o prender e este se disfarça com as roupas do mendigo para, mais uma vez, escapar.Pacheco fugiu para Castela, depois para Aragão e por fim para as terras de Henrique de Trastâmara, que o aconselhou a refugiar-se em Avinhão. Aqui foi, pois, o nosso fidalgo para os muros e as praças da cidade papal, onde, de novo, a minha incapacidade de imaginar a sua vida é total. Como estaria o fidalgo português na bela Provença? Sentiria na face o mistral? Comeria o pão, o alho, as azeitonas, o peixe, a caça, beberia os vinhos do Ródano ou do Gard? Teria visto ao longe a montanha de St. Victoire? Com quem falaria, em que língua falaria? Latim? Andava vestido como? Traria a sua espada, saberiam os seus vizinhos que um alto fidalgo de Portugal estava ali exilado? Talvez se o PÚBLICO tivesse convidado um historiador ele pudesse responder a estas perguntas.Mas o homem, ou a história em que ele vivia, era demasiado irrequieta e Henrique de Trastâmara, seu protector, entrou em guerra com o irmão e penetrou em terras de Espanha. Diogo Lopes Pacheco acompanhou-o como seu conselheiro, e estava em Castela quando Pedro o Cruel morreu. Diogo Lopes Pacheco veio então a Lisboa, onde o novo rei D. Fernando lhe restitui as honrarias e o nomeia embaixador em Castela. Mas não faltou muito tempo até encontrar o rei metido numa nova história de saias, tão perigosa e tão parecida com a de Inês, agora com Leonor Teles. De novo aconselhou contra a Leonor e de novo teve que fugir. Estes conselhos pagavam-se caro. Segue-se um período de lealdades divididas entre a sua terra e os seus protectores. Nas lutas dinásticas e nos conflitos que atravessaram Portugal depois da morte de D. Fernando e da ascensão da dinastia de Aviz - que Pacheco via como "inglesa" e contrária às tradicionais alianças portuguesas entre os nobres de Espanha -, combateu primeiro pelos espanhóis e depois passou-se para os portugueses. Ao fugir aos seus antigos aliados teve um papel em quebrar o cerco de Almada, onde teria sido preso pelo mestre de Aviz, e mudou-se para as hostes portuguesas. Mais tarde, teria ainda combatido em Aljubarrota, não se sabendo se é verdade ou lenda. Aljubarrota? Mas Pacheco nessa altura teria oitenta anos, como é que combate numa luta medieval pesada, feita de ferro e corpo a corpo, um homem de oitenta anos? Não sei, mas imagino que, acima de tudo, estando presente, trazendo os seus, a sua família, os seus homens, e comandando-os com a enorme experiência de guerra que tinha. Imagino-o sentado numa cadeira, numa liteira, chamando os seus, mandando-os para aqui para ali, insultando o adversário, dizendo obscenidades como os homens na guerra fazem (lembram-se do Fernão Rodrigues Pacheco?) e prometendo presentes a este ou àquele se conseguissem qualquer vantagem. Poucos anos depois, por volta de 1393, morreu, deixando uma descendência confusa dos dois lados da fronteira, onde Pachecos muito estranhos e complicados se incrustaram na história dos dois países ibéricos. Vários entraram nos "Lusíadas", outros nas crónicas espanholas, alguns em romances românticos e outros em peças neo-realistas contra a tirania. Há para tudo nos genes da família. Foi Diogo Lopes Pacheco um homem contra tudo e todos? Nunca ninguém está contra todos, porque nem que seja dessa terra estrangeira que é o futuro, surge sempre uma companhia para o presente. O nosso fidalgo, no seu tempo, esteve com muitos e contra muitos, mas penso que isso era a regra dos tempos, porque não havia "todos". Agora, o futuro é que não lhe foi lisonjeiro. A lenda romântica de Inês que se começa a forjar logo cem anos depois é que perfilou os inimigos de Pacheco. E que inimigos! Ele teve (tem) que lutar contra algumas das mais belas páginas da literatura portuguesa de Garcia de Resende, de António Ferreira, de Camões. Como é que o pobre Pacheco, habituado a lutar com inimigos fardados a ferro, pode lutar contra as palavras de Ferreira?"INÊS - Meu senhor,Esta é a mãe de teus netos. Estes sãoFilhos daquele filho, que tanto amas.Esta é aquela coitada mulher fraca,Contra quem vens armado de crueza.Aqui me tens. Bastava teu mandadoPara eu segura e livre t'esperar,Em ti e em minh'inocência confiada.Escusarás, Senhor, todo este estrondoD'armas e cavaleiros; que não foge,Nem se teme a inocência da justiça."Não pode. Por isso ficou "matador" para sempre. Nunca pôde ter na história portuguesa o lugar de Nun'Álvares Pereira, matador igualmente, mas matador beato, que serviu ao Estado Novo para também nós termos o nosso santo condestável. Mas há uma coisa que estes portugueses como Diogo Lopes Pacheco tinham e que hoje é irreproduzível - viviam no fio de uma navalha. Tinham poder, tinham o poder último de decidir a vida ou a morte de outrem, mas estavam sempre ameaçados de sofrer o mesmo destino e achavam isso natural. Esta é a frase-chave: achavam isto natural, não sabiam viver de outra maneira. É por isso que são "homens trágicos" ou, numa outra tipologia, "heróis épicos". O que lhes dá a tragédia é essa comunidade de perigo em que sempre vivem, o que lhes dá a qualidade épica é que rompem esses perigos por uma mistura de astúcia e força da espada. Como Ulisses, a figura mítica que sempre associei a este meu avoengo.Próximo artigo: António José da Silva, Em nome da Santa Madre Igreja