Viagem Romântica ao Cemitério do Prado do Repouso

O convite parecia mórbido, mas acabou por se revelar romântico. Por entre a azáfama silenciosa dos que cuidavam das campas de familiares ou amigos, um grupo de curiosos descobria o lado histórico do Cemitério do Prado de Repouso, no Porto. Figuras, mistérios e as leituras possíveis que também fazem parte de um jazigo e da memória da cidade. Durante mais de duas horas, o guia da visita Francisco Queiroz - doutorado em História de Arte e que recentemente defendeu a tese intitulada "Os cemitérios do Porto e arte funerária oitocentista em Portugal" - captou a atenção dos participantes. O público, que à partida estava interessado para o tema, pois não é qualquer um que aceita passar uma tarde de sábado passeando-se no "lugar dos mortos", acabou por ficar rendido aos encantos do Prado do Repouso. E, acredite-se ou não, os encantos estão lá. Histórias de amor e até algum humor. Foi na antiga Quinta do Prado, que pertenceu a um bispo desde o século XVI, que o cemitério foi oficialmente fundado, em 1839. Criado no sítio do país onde existem mais cemitérios privados, foi a muito custo que assumiu o carácter municipal. Nos primeiros anos de "vida", o cemitério recebia apenas os pobres mais pobres do Porto. Mais tarde chegaram os corpos - e consequentemente os monumentos de homenagem - de artistas e figuras de reconhecido mérito da cidade.A visita, que se centrou apenas nos monumentos românticos mais relevantes, começou na capela, com altar inacabado, na entrada do Largo Padre Baltazar Guedes. "Um exemplo notável do neo-clássico", refere Francisco Queiroz. Em frente - está o monumento a Francisco de Almada e Mendonça que, segundo o guia da visita, "era mais ou menos um funcionário público, como o governador civil mas com mais poder, que foi responsável por muitas construções no Porto". É aqui que se depara com as primeiras perpétuas esculpidas em pedra. "Com flores em pedra, o monumento não precisa de mais flores", refere o professor. A entrada conta ainda com o ossário dos bombeiros municipais e a homenagem às vítimas do 31 de Janeiro. Na secção 47, encontrámos o jazigo de um rico negociante brasileiro. Ninguém sabe quem é, mas o defunto mereceu uma escultura quase em tamanho real que o retrata. Mesmo em frente, está uma outra, semelhante, como quem quis construir mais para mostrar que era maior. "Reparem como estão bem vivos. Estão numa pose fotográfica", aponta Francisco Queiroz, sublinhando que a negação da ideia da morte é uma das mais marcantes do romantismo. "Os homens românticos não gostavam de cadáveres e do cheiro a morte", adianta. Noutras campas encontrámos as figuras da saudade ou da caridade que dispensam palavras escritas nos túmulos. Na Capela Villalva - um modelo francês, na secção 48 - estão anjos que pedem silêncio, com os dedos encostados aos lábios de pedra. No jazigo de um carpinteiro da câmara há uma Fé que perdeu a cruz. "Os cemitérios são cidades dos mortos feitas em função dos vivos", refere o guia da visita junto à 36º secção. Aqui temos de um lado a neo-clássica capela da Família Forbes que nos portões de ferro exibe o craneo e as tíbias para simbolizar a lama, o que resta depois da carne. Do outro lado, está José Caetano Moreira - um desconhecido mas bem sucedido negociante de vinhos - que "deixou três contos de reis para um monumento no Prado". Morreu em 1869 e foi a primeira "estátua" no cemitério. Em frente mora o mito. É o jazigo de uma mulher. Reza a história que se trata do mausoléu mandado erigir por Henriqueta Emília da Conceição à sua jovem amada. Tem uma estátua de S. Franscico e transformou-se numa "homenagem ao amor entre duas mulheres". Hoje tem duas placas que avisam que "não é permitido colocar cera" e "dizem que o santo é milagroso". O jazigo da família Resende marca o fim do romantismo. E é também uma imagem de marca do Cemitério do Prado com a imagem mais célebre da Saudade. Um pouco mais à frente está a bondade. "É impossível saber a história da cidade sem ir ao cemitério, aqui está o século XIX", sublinha Francisco Queiróz. O privado dentro do PúblicoExistem alguns "cemitérios privativos" dentro do municipal. O que chegou primeiro foi o da Misericórdia do Porto. Tem um portão maior do que o do cemitério principal. E tem monumentos dignos de um "cemitério de élite". De fora vemos a moldura de Augusto Roquemonte, ou o jazigo de casal de José Silva Passos com um cão (galgo) no topo a simbolizar a fidelidade. Em cada gavetão há um serpente que significa a eternidade. No "miolo" do cemitério privado encontramos ainda o imponente mausoléu erguida a José Plácido Campiam, um ilustre desconhecido mas bemfeitor. Cá fora, de regresso à avenida central do cemitério principal, encontrámos ainda um tronco de uma árvore que chora uma lágrima. Nem uma palavra. Basta a imagem. O mesmo acontece no monumento ao compositor Francisco Eduardo da Costa. Ali está uma caixa com teclado envolta numa coroa e os tubos de um órgão. A visita termina no jazigo do alfaiate António Pereira Baquet, que ficou célebre pelo seu teatro na Rua 31 de Janeiro. Uma gruta de pedras junto ao cruzeiro. A lição de história e arte acabava com a certeza de haver muito mais a descobrir na "cidade dos mortos". Serpente - eternidade, infinitoCão - FidelidadeMocho ou morcego - guardiões das almasAmpulheta - o tempoFacho virado contrário - mortePapoilas - Sono"O meu namorado, que é licenciado em história, arrastou-me para aqui. Parece esquisito mas foi muito interessante. O mais interessante foi perceber os símbolos que as pessoas deixam nas campas. Na próxima vez que estiver num cemitério vou procurar estes sinais. Também gostei da beleza de sentimentos traduzida na arquitectura que se encontra no Romantismo"Maria Alexandra Torres26 anosFinalista de Direito"Profissionalmente este assunto interessa-me. Achei muito interessante encontrar nos símbolos uma forma de linguagem. Vou voltar aqui, quem sabe para uma vista de estudo com os meus alunos"Cândida Pinheiro Torres61 anosProfessora de Estudo Literários"Gosto muito de obras de arte. Agradou-me no estudo do romantismo o sentir da morte não como um fim mas como uma passagem. E não sabia estas coisas dos simbolos"Arménio Fernandes62 anosIrmandade do Senhor do Bonfim da Boa Morte