Gonçalo Ribeiro Telles, o homem que rouba ideias aos pássaros

Começou a mudar a paisagem de Portugal quando a profissão não era sequer reconhecida e tinha que assinar os projectos com uma frase: "Gonçalo Ribeiro Telles, Engenheiro Agrónomo com Curso Livre de Arquitectura Paisagista". Cinco décadas e três mil projectos depois, o Museu de Évora expõe uma retrospectiva. A sua vida é a história de Lisboa e do homem que diz que a paisagem é "como um braço".

Gonçalo Ribeiro Telles não faz "ajardinamentos", nem "arranjos florais", nem "embelezamentos". É um arquitecto paisagista, dos primeiros em Portugal, que mudou a paisagem e o conceito que os portugueses têm de jardim. A Utopia e os Pés na Terra é o nome da retrospectiva sobre a sua vida e obra — a primeira — que está no Museu de Évora até 18 de Maio.

A seguir, a exposição, imaginada há 10 anos e começada em 1999, vai para a Câmara Municipal de Lisboa (Maio) e depois para o Museu Municipal de Coruche, a terra do pai (Setembro). Inclui uma componente biográfica (a colecção de soldadinhos de chumbo de 1910, aguarelas de jardins dos anos 50, fotografias, etc) e alguns dos principais projectos e desenhos originais — desenhos nunca mostrados em público e que encantaram os arquitectos paisagistas na inauguração.

O "Professor", como todos o tratam, "desenha com uma enorme profundidade e uma preocupação plástica", diz Aurora Carapinha, arquitecta paisagista e comissária científica da exposição. Mas esse é, de certo modo, um pormenor. "O importante em Ribeiro Telles é a compreensão da paisagem sob o ponto de vista holístico — o todo", diz Carapinha. Um todo que inclui ecologia e estética, "o saber que a beleza da paisagem é um facto cultural".

A exposição chama-se A Utopia e os Pés na Terra, mas Ribeiro Telles, 80 anos, diz que não é utópico. E para o provar, ao longo das mais de quatro horas de entrevista vai-se levantando para ir buscar livros: manuais das Nações Unidas sobre agricultura urbana, estudos sobre a agricultura que está a ser feita nos desertos da Arábia Saudita, plantas dos Corredores Verdes na Alemanha. "É para as pessoas — quando falo destas coisas — não pensarem que sou louco." Está preocupado com a manutenção dos jardins públicos feita pelas câmaras municipais, que os tratam como jardins neoclássicos do século XIX, e com a noção "antiga" que os políticos têm das cidades.

Ribeiro Telles fez centenas de jardins privados (como os de Sophia de Mello Breyner, Mário Soares e Julião Sarmento), mas o que gosta mesmo são os jardins públicos, usados por todos. Tem mais de três mil projectos em todo o país, mas é em Lisboa que a sua marca está mais presente, nos percursos diários de milhares de pessoas: Bairro das Estacas, Alvalade, Praça de Londres, Av. de Madrid, Av. de Paris, Av. do Restelo, Rotunda do Aeroporto, Av. de Roma, Av. da Liberdade, Av. EUA, Av. Fontes Pereira de Melo, Ermida de São Jerónimo, Castelo de São Jorge, Grémio Literário e o Jardim da Fundação Gulbenkian.

É verdade que fez os quadrados de betão dos caminhos no jardim da Gulbenkian às escondidas, durante as férias de Azeredo Perdigão?

Sim, porque é muito difícil para as pessoas, quando não são da profissão, entender as plantas e ver o que são depois de executadas. Os desenhos, os planos e os projectos são instrumentos, não são objectivos. São instrumentos para se realizar a obra. A obra, se é obra de arte, não se consubstancia nos desenhos; consubstancia-se na própria obra. E uma obra de arquitectura paisagista é também aquilo que se faz.

O que é que o fez pensar que não estava a ser compreendido?

Eu percebia que as pessoas, olhando para o desenho, não viam aquilo que nós estávamos a pensar.

Mostrou os quadrados de betão a muitas pessoas?

Sim, estavam mais que vistos. Mas a decisão de realizar os quadrados de betão teve que ser feita um pouco à revelia, porque as pessoas da administração tinham medo do desenho.

Porque era inovador?

Não sei, não compreendiam, ia contra a sua ideia de jardim. Ainda hoje o problema é o mesmo. Tem que se fazer a explicação continuamente.

Quarenta anos depois ainda está a explicar o jardim Gulbenkian?

A todos! Hoje, o problema mais grave da arquitectura paisagista traduzida nos jardins é que a maior parte dos responsáveis não entende. São os problemas da manutenção e a própria concepção.

Está neste momento a fazer a recuperação do jardim Gulbenkian. O que vai fazer?

Estou a recriar o jardim Gulbenkian. Nunca há uma obra de arquitectura paisagista terminada. Um edifício pode, fundamentalmente, acabar. São paredes, elas não crescem como as árvores, não se reproduzem, não têm relação directa com o correr das estações. A obra da arquitectura paisagista tem uma relação com as árvores, com a Primavera... é uma permanência. E com o próprio desenvolvimento. E por isso, mesmo que mantenha a sua concepção inicial, tem que ser continuamente recriada.

O tempo é fundamental...

O tempo é um autor tão importante quanto o próprio autor. A obra é tão realizada pela pessoa que a projecta como pelo tempo. A obra de arquitectura paisagista é por excelência uma obra colectiva, em que há um autor, mas há uma colectividade que funciona paralelamente com a criação — o uso do jardim vai criando o jardim. Nós não sabemos quando é que se inaugura um jardim, se é quando as árvores têm 15 anos e 12 metros de altura, se é quando são já adultas, se é quando são novas. Hoje o que se está a passar em Portugal é trágico, porque se julga que os jardins são cenários para bilhetes postais.

Ainda sobre a Gulbenkian, agora que está a fazer a recriação do jardim, que preocupações tem?

Recriar a ideia da relação entre a clareira e o bosque e a mata — portanto as árvores — que estava um pouco perdida.

Perdida como?

Perdida porque essa relação de clareira-mata tem uma orla, um ponto de contacto. E esse ponto de contacto deve permitir que a luz esteja na clareira e a sombra na mata. O contraste luz-sombra varia ao longo do dia, das estações e com o desenvolvimento da vegetação. Essa superfície de contacto é fundamental no jogo da arquitectura da paisagem.

Estava a diluir-se?

Estava a ser destruída. Porque, sem culpa de ninguém, os jardineiros, pela concepção que têm, estavam permanentemente a fazer penetrar no bosque vegetação rasteira, [herbácias como] agapantos, vegetação de flores. Quem sofria era o bosque.

Como vai recuperar essa relação?

Vou recuperar um maior isolamento do trânsito automóvel em termos de vistas. Vamos procurar ocultar a relação do jardim com os automóveis à volta — só deixar as aberturas que interessam. E aqui, o que interessa é abrir para a embaixada de Espanha, que é um palácio; para umas palmeiras que estão longe... abrir para o que há de bonito à volta. O resto fecha-se.

Quando fez o projecto inicial, em 1968, como era a leitura dessa relação? Imagino que as plantas estivessem todas pequenas...

As plantas foram postas para terem essa leitura, mas elas sofreram muito com o tal tratamento que tiveram ao longo dos anos. Há muito que recuperar na plantação arbustiva para tomar a sua forma. Uma das coisas essenciais é a forma das coisas. A árvore tem uma forma, cada espécie tem uma forma. N