Rádios na Internet

Nasceram em catadupa no fim da década de 90. Ter uma rádio na Internet, uma "webradio", implicava apenas um computador, uma mesa de mistura e pouco mais, pelo que passou a ser possível a muitos satisfazer o "bichinho" da rádio, sem esbarrar nos encargos financeiros e estruturas físicas, como instalações e antenas, inerentes a uma emissora tradicional. Entretanto, muitos desistiram. Outros passaram a dedicar-se apenas a emissões esporádicas e em "circuito fechado", destinadas ao grupo de amigos. Passada a euforia, o número de rádios portuguesas a funcionar exclusivamente a partir da Internet conta-se hoje pelos dedos. Este universo, já de si pequeno, fica ainda mais estreito ao verificar-se que estas "sobreviventes" são, na sua maior parte, universidades. A "webradio" é, no caso destas, entendida como um instrumento formativo, sem fins lucrativos. Do lado empresarial, em Portugal existe apenas a Cotonete que, enquanto portal de rádios "on-line" do grupo Media Capital (também detentor da TVI), funciona com objectivos assumidamente comerciais, para os quais disponibiliza uma vasta gama de recursos e serviços. Apesar de diferentes visões estratégicas, é consensual o reconhecimento das potencialidades de uma "webradio". "A mais-valia deste meio é sem dúvida a interactividade com o ouvinte, desde o simples contacto por 'e-mail', que permite a troca de texto, imagem e som, até à possibilidade de 'chats' em tempo real, moderados por quem faz o programa. No fundo, é a rádio nos dois sentidos, de que falava Brecht". As palavras são de Paula Simões, que desde 2001 colabora na rádio ESEC (http://www.esec.pt/radio/), criada no âmbito do curso de Comunicação Social que está a tirar na Escola Superior de Educação de Coimbra. As iniciais da instituição deram, em 1998, nome e vida a este "projecto académico, um laboratório onde os alunos podem desenvolver capacidades para além das aulas", diz Paula Simões. A rádio ESEC emite 24 horas por dia, através de uma "playlist" musical "o mais generalista possível" e de vários programas, integralmente produzidos pelos estudantes. O experimentalismo subjacente à concepção da ESEC, aliado à interactividade potenciada pelo "on-line", dão origem a episódios impensáveis até há bem pouco tempo. "Por ocasião do primeiro aniversário do nosso programa recebemos via 'e-mail' um pequeno registo sonoro feito por um ouvinte e passámo-lo no programa. No fundo, esse programa foi feito também por um ouvinte" recorda. O experimentalismo pode, no entanto, ser também sinónimo de irregularidade. "Neste momento não existe uma programação específica, porque ela se encontra dependente da disponibilidade dos alunos." Uma tal situação não sucede na Rádio 351(http://www.radio351.com/) que, "apesar de inserida no meio universitário, é feita por jovens profissionais contratados apenas com funções de jornalistas, animadores e sonoplastas", refere Patrícia Fidalgo, da direcção de informação desta "webradio" sediada, há cerca de um ano, no Instituto Piaget, em Almada. O recurso à mão-de-obra especializada não apaga, porém, a vertente escolar do projecto, nascido para servir de "local de estágio para os alunos da licenciatura em Ciências da Comunicação". A música (sobretudo rock) tem também nesta rádio um peso determinante nas várias rubricas que compõem a programação, onde cabem ainda noticiários entre as 10h e as 19 horas. O que não "cabe", pelo menos por enquanto, prende-se com "questões técnicas relacionadas com a largura de banda" e, por consequência, "o número de ouvintes que consegue aceder" à Rádio 351 é limitado, admite Patrícia Fidalgo, situando esta como uma das "maiores dificuldades" da estação. Enquanto as rádios universitárias funcionam como uma linha de metropolitano única (em termos de dimensão e propósito), a Cotonete (http://www.cotonete.iol.pt/) poderia assemelhar-se ao gigantesco "subway" de Tóquio ou Nova Iorque. A analogia atesta a diferença que, em termos operativos, separa as duas concepções. Suportada por um grupo fortemente implantado na comunicação social portuguesa, a Cotonete "surge como complemento do que já estava feito no campo das rádios tradicionais e respectivos 'websites'", refere José Marino, coordenador do projecto, lançado a 10 de Setembro de 2001. Ou seja, a Cotonete deve ser entendida como elemento de uma engrenagem que já se encontrava em andamento. Daí que tenha utilizado os recursos (humanos e técnicos) já existentes para poder fornecer uma oferta alargada de serviços."Mais do que uma webradio", afiança José Marino, este projecto da Media Capital (que detém o servidor IOL), disponibiliza "várias rádios, sem locução, e que percorrem vários estilos de música e possibilita aos utilizadores que criem as suas próprias rádios, utilizando as músicas da nossa vasta discoteca". A Cotonete permite ainda o acesso a notícias, biografias, entrevistas, agenda e dezenas de outros canais alusivos sobre múltiplos acontecimentos. O lucro e a matriz comercial está naturalmente presente a Cotonete, sendo esta uma diferença que a separa claramente das "webradios" universitárias, conforme admite o coordenador do projecto. "[A publicidade] tem uma importância grande, ou mesmo vital" na obtenção de receitas, reconhece.